Uma plataforma online, gratuita, que permite aceder aos dados e funcionalidades das aplicações para telemóvel sem precisar de as descarregar, ao mesmo tempo que deixa qualquer um criar aplicações para a sua empresa. Eis o que tem para oferecer a AppSelf-Service, a única startup cabo-verdiana a marcar presença naquela que é uma das maiores conferências de tecnologia do mundo. Para aqui surgir teve de remar contra uma cultura empresarial em Cabo Verde demasiado virada para o retorno imediato, critica o mentor do projeto.


A pergunta de partida é bastante simples. Quem é que não está cansado de descarregar aplicações, para o seu smartphone, que só são usadas uma vez ou muito raramente? É precisamente para evitar este desperdício de tempo e de espaço no telemóvel que o cabo-verdiano Marcos Ferreira decidiu criar e lançar a AppSelf-Service.com, uma plataforma que permite aceder aos serviços de várias e diferentes aplicações sem necessidade de as instalar, tudo isto recorrendo à computação em nuvem.

Computação em nuvem, o que é isso? Não olhe para o céu, porque não é de gotículas de água condensada que estamos a falar. Explicando de forma muito rudimentar, a computação em nuvem (ou ‘cloud’, como se diz em inglês) permite utilizar a memória, assim como a capacidade de armazenamento e cálculo, de computadores e servidores que estejam ligados em rede na Internet. Dito de outra forma, não precisa de instalar programas e guardar dados no seu dispositivo, pois consegue fazer e aceder a quase tudo de forma externa, usando como via-rápida a Internet.

No caso da AppSelf-Service, que será gratuita para quem a quiser usar, tudo é possível a partir de uma ligação Wi-Fi pública, quer se esteja na rua ou num aeroporto. Imagine, por exemplo, que tem vários supermercados diferentes no seu bairro e quer dar uma vista de olhos pelas aplicações que disponibilizam, para comparar preços, procurar promoções ou fazer compras online. Ora bem, neste caso apenas precisa de ligar-se a uma rede Wi-Fi e usar a plataforma para aceder aos conteúdos e opções dessas aplicações, sem necessidade de as descarregar.

Outro exemplo. Se estiver no aeroporto de uma qualquer cidade e precisar de consultar uma informação sobre um voo, ou, até, fazer uma reclamação, não precisa de descarregar a aplicação que muitos aeroportos disponibilizam para esses fins. Basta usar a AppSelf-Service. Simples e rápido.

“O nosso projecto é inovador”, garante o também diretor-executivo da Doutvisions, a empresa de Cabo Verde dentro do qual nasceu a plataforma, estando previsto para daqui a cerca de dois meses o seu lançamento, quando tudo estiver ultimado. “Funciona como uma App Store, mas tudo em cloud. Podemos considerá-la a primeira plataforma do género com as funcionalidades nativas dos dispositivos”, explica Marcos Ferreira. “Ou seja, as aplicações vão funcionar dentro da ‘cloud’, através da nossa plataforma, mas conseguem aceder aos recursos do hardware [do telemóvel], o que é inovador”, acrescenta.

“Um projeto que se assemelha ao nosso é a Instant Apps da Google, uma funcionalidade que permite aos utilizadores aceder a parte das aplicações, sem necessidade de o instalar. Mas ela não permite o acesso a todos os recursos do hardware do dispositivo móvel, nem aceder à aplicação na sua totalidade. Temos, portanto, vantagens em relação à Instant Apps.”

Mas há mais. A plataforma também inclui uma importante vertente profissional que permite a qualquer pessoa, mesmo que nada perceba de programação ou linguagem de código, criar de raiz uma aplicação de telemóvel para a sua empresa ou pequeno negócio. Basicamente, pretende-se fornecer ferramentas fáceis e intuitivas de usar aos empresários. Tem um restaurante e quer ter uma aplicação que os clientes possam usar, para verem os menus e fazer os seus pedidos? A AppSelf-Service é uma solução.

“Estivemos perto de entrar no top das duzentas melhores startups”

São centenas as startups que marcam presença na Web Summit 2017, todas elas em busca de uma oportunidade para se darem a conhecer e de encontrar a mala com dinheiro de um investidor. Porém, o que mais interessa neste evento é, porventura, conseguir primeiros contactos. Os negócios, esses, poderão surgir noutro momento e noutro lugar.

“A maior vantagem do Web Summit, mais do que colocar aqui o nosso stand, está no networking e na exposição aos média”, reconhece o responsável da Doutvisions. “O nosso objetivo, aqui, é dar a conhecer o AppSelf-Service. Depois, se houverem investidores interessados, será ótimo.”

Inicialmente, Marcos Ferreira pensava que para este novo projeto marcar presença na Web Summit bastava apenas uma inscrição e pagar. Ideia errada. “Depois de nos inscrevermos é marcada uma entrevista via Skype, para ver se o projeto vale a pena.” Só depois desta fase de seleção é que se pode marcar presença no evento, tudo pela ‘módica’ quantia de 850 euros – cerca de 94 mil escudos. “Estivemos perto de entrar na lista das duzentas melhores [startups] inscritas no evento”, garante.

Contudo, ao fazer uma visita pelos expositores dos quatro pavilhões do Web Summit deste ano, nota-se uma ausência crónica de projetos tecnológicos Made in Africa. “Pelo que eu vi, do continente africano só aqui estão empresas da África do Sul, Angola e Cabo Verde, do qual somos os únicos representantes.”

Não é um negócio para o curto-prazo ou para quem só quer dar nas vistas

Marcos Ferreira, que confessa gostar de tecnologia desde pequeno, diz que em Cabo Verde há cada vez mais jovens interessados em inovar e apostar em ideias tecnológicas, “mas o problema é a barreira do investimento”, aponta o dedo. “Um projeto como o nosso leva o seu tempo a ser desenvolvido e a gerar retornos, mas em Cabo Verde o nosso espírito de negócio ainda está virado para o imediato. Daí a dificuldade em ter visão para projetos com futuro, que poderão crescer a longo-prazo e gerar mais receitas que uma ideia de curto-prazo.”

Mas o mundo do empreendedorismo tecnológico, seja em que país for, por vezes mais parece um território minado pela sede de protagonismo. Há quem perca tempo a mostrar o que não tem, e depois há os que preferem fazer primeiro, antes de dar a conhecer, dá a entender o responsável da Doutvisions.

“Há uma fome de inovação, uma fome para fazer a diferença, mas parece que é tudo para apenas marcar uma presença. Cada vez mais se veem, nas notícias dos média, ideias para projetos, apresentadas por jovens inovadores, que, passados alguns anos, acabam por nunca se concretizar”, refere. “Há aqui, também, a mera procura de exposição pessoal. Nesta área há um pouco de egocentrismo, a procura de reconhecimento pessoal antes mesmo do projeto ter sido reconhecido. Eu sou mais apologista por fazer reconhecer primeiro o projeto.”

SAPO | João Pedro Lobato