Em 2011, Helga Ortet andava no primeiro ano da licenciatura em Marketing, Gestão Comercial e Empreendedorismo no Instituto Superior das Ciências Económicas e Empresarias, ISCEE, quando começou a vender bilhetes de eventos como forma a conseguir algum extra para pagar os estudos.

Abordava produtores e pedia bilhetes para vender. Quatro anos mais tarde, munida do que aprendeu no curso, criou a sua marca “Passafree” e montou uma equipa de vendas com 10 pessoas a comercializar ingressos. “Fui a primeira a ter uma equipa de 10 comerciais na rua a vender bilhetes”.

Nos dois últimos anos de curso, conseguiu uma bolsa de estudos, mas o gostinho pela venda de bilhetes manteve-se por isso continuou com o negócio.

O pico de vendas dava-se no verão e permitia ganhar algum extra, recorda a jovem, atualmente com 26 anos.

O surgimento da app

Entretanto, deu de caras com um artigo sobre a Bonako, empresa cabo-verdiana de jogos digitais e aplicativos móveis, e na foto reconheceu um amigo. Resolveu falar com ele para saber se seria possível criar uma aplicação de modo que as pessoas pudessem comprar os bilhetes online para que não houvesse necessidade de deslocar uma pessoa da Passafree para entregar os ingressos.

“Muitas vezes, tínhamos de nos deslocar para longe para entregar os bilhetes, queríamos simplificar todo o processo”.

A Bonako mostrou-se recetiva à proposta, mas Helga deparou-se com outra questão não tinha como pagar à empresa. “Não tinha como lhes pagar. Então entramos em acordo e hoje a Bonako também é dona da Passafree”, explica a jovem.

Todo o processo para o lançamento da aplicação obrigou a fazer estudos de mercado e levou algum tempo. O lançamento da app aconteceu em 2018.

Com duas pessoas na parte administrativa e três comerciais e com a parte técnica assegurada exclusivamente pela Bonako, a Passafree opera com cerca de 35 produtores nacionais e tem mais de 2 mil utilizadores. Um número que pode variar, segundo explica a fundadora da empresa.

“Muitas pessoas instalam e usam o aplicativo durante o período de férias e depois retiram do telemóvel”, explica e adianta que os meses de maio, junho, julho e agosto são a época alta para a empresa.

Como funciona

Para já, a plataforma disponível para os utilizadores em Cabo Verde, para os sistemas operativos de Android e iOS, disponibiliza bilhetes para eventos nas ilhas de Santiago e Sal, onde a Passafree tem representantes, mas a ambição é fazer um lançamento e ter presença nacional, assevera Helga.

“Quando somos abordados por um produtor, criamos o evento no nosso backoffice e disponibilizamos os bilhetes para venda na app”.

Depois de adquirir o bilhete é disponibilizado um QR Code ao utilizador. À entrada do evento, a pessoa apresenta o código que lhe foi disponibilizado.

O backoffice da plataforma está disponível para os produtores dos eventos que conseguem aceder à informação sobre a venda dos bilhetes. Caso o utilizador fique sem bateria no telemóvel, por exemplo, o produtor do evento tem a informação sobre a compra online.

“A nossa maior conquista (no último ano) foi a venda de bilhetes de cinema”, garante. Trata-se de uma parceria com o Cine Praia, situado na capital. “Fomos ao cinema e fizemos um estudo. Todos os que responderam ao questionário mencionaram a questão da venda dos bilhetes (…) Chegamos à conclusão que os nossos utilizadores vão ao cinema, daí que procuramos estabelecer esta parceria”.

Ao preço do bilhete acrescem 50 escudos e é necessário trocar o bilhete virtual pelo físico à porta do estabelecimento (Cine Praia), mas a responsável da empresa garante que a Passafree está a tentar eliminar este passo.

Vencer o Seedstars abriu novas portas

Em setembro deste ano, a Passafree ficou em primeiro lugar na competição na Seedstars World Competition, a maior competição de startups para mercados emergentes, que teve pela primeira vez lugar em Cabo Verde.

Concorreram ao concurso e foram selecionados para participar. Depois de convencer o júri de que a sua startup era a melhor, num tempo record de 3 minutos, ficaram em primeiro lugar no evento. A vitória foi inesperada porque, segundo Helga, concorreram apenas para divulgar para a Passafree.

Em dezembro, vão participar no final africana do Seedstars, na África do Sul, e se conseguirem ultrapassar essa etapa vão para a finalíssima internacional na Rússia, em abril de 2020.

No entender de Helga, a vitória neste concurso acabou por dar visibilidade à Passafree e por trazer convites para outros eventos nomeadamente para o fórum Youth Connekt Africa que aconteceu no início de outubro em Kigali, Ruanda, bem como a participação no Fórum Nacional da Juventude, em São Vicente, também em outubro.

“Por um lado, fico feliz com tudo o que está a acontecer, mas por outro fico triste, porque acho que se não fosse pelo concurso (SeedStars) não teriam surgido estas oportunidades. Sei que as coisas funcionam assim: para as pessoas acreditarem em ti, tens de fazer algo para mostrar (o teu valor)”.

Passafree do futuro

A longo prazo, a ambição é transformar a Passafree numa rede social de eventos a nível africano, avança Helga. Uma visão incentivada pela Bonako, que atua a nível africano.

Num futuro mais próximo e a nível local, querem ser numa espécie de agenda cultural.

“Queremos que sempre que as pessoas pensem em sair, entrem no Passafree”.

Para tal, sabem que precisam também de operar a nível nacional e para isso precisam de ter representantes noutras ilhas, para além de Santiago e Sal, algo que envolve certos custos, bem como diversificar a sua oferta.

“Em Cabo Verde, a ideia é vender todo o tipo de bilhetes”. Daí que querem apostar na venda de bilhetes para todos os eventos culturais e desportivos, bem como fazer sorteios de bilhetes, etc.

Impacto da nova lei do álcool

Questionada sobre o impacto da nova lei do álcool no mercado onde operam, Helga diz que já começaram a sentir alguns efeitos. Por exemplo, com o recente anúncio por parte da gerência do espaço Cockpit, situado na cidade da Praia, de que o mesmo iria fechar as portas por tempo indeterminado, a Passafree acabou por ficar com menos um cliente.

A empreendedora diz que ainda não percebeu muito bem sobre como vai funcionar a lei na prática, mas acredita que o que poderá acontecer é o aumento do preço dos bilhetes para os eventos.

“Muitos eventos dependem de patrocínios das marcas (…) se os produtores não têm o patrocínio têm de cobrir os custos de outra forma, possivelmente aumentando o preço dos bilhetes. Não somos só nós (Passafree), acho que todos vão acabar por sentir esse aumento”.

Outra hipótese que coloca é os promotores diminuírem a frequência dos eventos.

Passafree
créditos: Google Play Store

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