A proeza foi consumada pelo sumo pontífice João Paulo II, e fê-lo respondendo a um convite formulado pelo então Presidente da República, Aristides Pereira, e o bispo emérito, Dom Paulino Évora, ambos já falecidos.

Devido à reduzida dimensão da pista do aeroporto da Praia ao tempo, o avião que transportava o papa João Paulo II poisou na ilha do Sal de onde o sumo pontífice foi depois conduzido à Cidade da Praia num aparelho das linhas aéreas de Cabo Verde.

Já nos escassos momentos que permaneceu na ilha do Sal em escala, o ilustre visitante pôde experimentar a morabeza e o bem-receber do povo cabo-verdiano que se deslocara ao aeroporto, nos Espargos, transformando o local num imenso manto multicolor de gente proveniente de todos os recantos da ilha, que quis abraçar o papa e manifestá-lo a sua alegria.

Coincidentemente, até a própria natureza pareceu querer manifestar também a sua alegria à presença de João Paulo II no solo cabo-verdiano, pois, por alguns momentos provocou descargas de chuva fresca num dia que, por sinal, o Sol estava bem aberto. Contudo, o papa recebia de facto e seu primeiro “banho” de multidão na Cidade da Praia, cuja ilha anfitriã (Santiago) detém dois terços da população do país.

Porém, as primeiras palavras de boas-vindas foram proferidas pelo bispo Dom Paulino Évora: “Todo o povo da ilha do Sal – por onde acabais, felizmente, de pôr os pés em Cabo Verde pela primeira vez para a vossa 45ª visita pastoral – todo esse povo Vos recebe com indizível emoção e Vos saúda – também ele – com extremoso e filial afecto”.

Entretanto, momentos mais tarde e depois de um voo de cerca de três quartos de hora, João Paulo II chegava finalmente ao aeroporto Francisco Mendes, na Cidade da Praia, onde era aguardado por Aristides Pereira, o Presidente anfitrião, membros do Executivo, o corpo diplomático, entidades de destaque e por um manto de fiéis que não queriam desperdiçar um momento sequer da oportunidade por que tanto esperaram.

Numa simbiose harmoniosa dos gestos da praxe e da tradição cabo-verdiana em bem-receber os seus hóspedes, mormente este ilustre visitante, o papa João Paulo II recebeu das mãos de quatro jovens, um ramalhete de flores e um pombo que ele mesmo soltou de seguida num gesto de liberdade e paz.

No seu discurso de boas-vindas ao papa ali mesmo no aeroporto, o Presidente Aristides Pereira referira que o fazia em nome da Nação Cabo-verdiana “que tantos filhos viu partir para longes terras”, proferindo as saudações calorosas dos que esperam quase 10 anos por esta primeira visita às ilhas Atlânticas.

Conforme sublinhara na ocasião o chefe de Estado cabo-verdiano, a visita de João Paulo II estava inserida no roteiro de “mais uma série de países do martirizado continente africano”, testemunhando deste modo uma extrema solicitude “para com os mais deserdados da fortuna, aqueles que por todo o planeta, mais particularmente no terceiro Mundo e nesta nossa África, enfrentam ainda o pesado fardo do subdesenvolvimento e suas desastrosas consequências”.

Por outro lado, lembrou que se estava perante nova iniciativa de quem, empenhado na edificação de um “Mundo mais justo, pacífico e seguro, propício à realização integral do Homem e a protecção do meio ambiente” tinha instituído seis anos antes a “Fundação João Paulo II para o Sahel, cuja finalidade, sublinhou, “demonstra a sorte do homem africano, particularmente o da zona saheliana e natureza envolvente, que estão no cerne das preocupações do Pastor Supremo da Igreja Católica”.

Na ocasião, Aristides Pereira sublinhara também que a visita de João Paulo II tinha lugar numa altura em que “o espírito da confrontação parece ceder lugar ao diálogo construtivo”, nas relações internacionais, tendo gizado o historial do processo emancipador que conduziu à independência de Cabo Verde guiado pelos seus mentores, “(…) estribando-se na preocupação maior de estabelecer, nestas ilhas, uma sociedade de paz e dignidade moral e material, sem descriminações nem preconceitos, e inspirado por um profundo respeito pelos direitos e liberdades da pessoa humana”.

Lembrou ainda, que nessa luta receberam sempre a melhor compreensão por parte da Santa Sé, ilustrada pelos gestos de encorajamento expresso pelo antecessor do Papa João Paulo II, Sua Santidade Paulo IV, que em 1970 recebeu no Vaticano “Amílcar Cabral e outros companheiros da causa da libertação de África”.

Em jeito de paráfrase, Aristides Pereira sublinhara ainda que “até aos dias de hoje esforços e sacrifícios têm sido generosamente feitos no Arquipélago, no afã de lhe gradear “um desenvolvimento autêntico baseado na solidariedade, liberdade e igualdade de oportunidades para todos”, e fez votos para que a presença e mensagem do Papa em Cabo Verde se tornasse numa “fonte de inspiração para todos os homens de boa vontade desta terra”.

Na sua visita a Cabo Verde, a primeira de um santo padre ao arquipélago, João Paulo II esteve em três ilhas, Sal, Santiago e São Vicente. Todavia, Sal, que teve a responsabilidade de “fazer o salão” a chegada, recebendo o tão esperado e ilustre hóspede, voltou a ser também o último a se despedir dele.

Tal como na chegada, a multidão de fiéis voltou a pear-se à partida, cheia de júbilo, convidando João Paulo II a voltar brevemente ao arquipélago, gesto que fez comover o Papa.

Entretanto, ao agradecer a tamanha amabilidade das gentes de Cabo Verde, João Paulo II disse: “Levo na alma a esperança que li nos olhos vivos das vossas crianças e dos jovens, e que se espelha no sereno realismo da gente bondosa desta terra, que sabe lutar, e para a qual ser pobre não é vergonha”, enfatizou o Santo Padre.

Fim

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