Arrancou na manhã desta sexta-feira, dia 6, a III edição do Fórum das mulheres jornalistas africanas “Les Panafricaines”, em Casablanca (Marrocos) que este ano tem como tema “Emergência Climática: os media africanos enquanto atores de mudança”. Uma das conferencistas convidadas do Fórum é Ana Moraes Rocha, especialista brasileira em desenvolvimento sustentável. Em declarações à imprensa cabo-verdiana, a especialista falou dos desafios da gestão de resíduos na Tanzânia (um dos países que faz fronteira com Moçambique).

Ana Rocha lidera a Nipe Fagio, uma organização tanzaniana pioneira na área ambiental e na gestão de resíduos. “Nipe Fagio em suaíli significa ‘passa-me a vassoura’, uma organização que trabalha com a gestão de resíduos sob o foco ambiental e comunitário”.

A organização procura envolver a comunidade nas suas ações, levar a educação ambiental até à população e criar formas de organização social que reduzam a produção de lixo.

A Nipe tem enfrentado desafios infinitos, diz a responsável. “Por exemplo, fazemos muita pesquisa sobre o tipo de resíduo que existe nas praias. Durante 10 dias limpamos as praias, saíamos de uma praia às seis da tarde quando já está completamente limpa e às seis da manha quando voltamos temos 150 sacos de lixo para recolher só dessa noite. A quantidade de lixo que está a ser despejada nos rios, no mar e nas florestas é gigantesca”.

As pessoas sentem que são vulneráveis às mudanças climáticas, mas não sentem que podem fazer alguma coisa para minimizar o impacto das mudanças

A preocupação da organização é também viabilizar modelos e criar condições para que as comunidades ajam de forma mais sustentável, almejando atingir a meta de “resíduo zero”.

Para a especialista brasileira que durante muitos anos viveu e trabalhou no meio rural na Tanzânia, existe uma “dualidade muito grande em África”.

“Ao falar com os agricultores no meio do nada, em lugares muito pequenos, (percebemos que) todos falam de mudanças climáticas, mas quase ninguém age em relação a isso. As pessoas sentem que são vulneráveis às mudanças climáticas, mas não sentem que podem fazer alguma coisa para prevenir ou minimizar o impacto das mudanças do clima na vida delas”.

Esta realidade se verifica também na gestão dos resíduos. Ana Rocha diz que apesar das pessoas saberem que o lixo é um problema, que traz doenças, mas ninguém pensa que pode existir uma solução diferente e que as pessoas têm de colocar um pouco de energia nessa solução.

Uma das técnicas apresentadas pela especialista é a compostagem. “Cerca de 65 por cento do lixo das residências em África é orgânico. Se você faz compostagem, você pode resolver 65 por cento do problema de uma vez”.

Segundo Ana Rocha, a técnica da compostagem é simples e pode ser implementada quer em casa particulares, quer nos bairros e comunidades.

“Você tem de separar o resíduo orgânico de qualquer outro não orgânico. Depois num contentor em casa ou num lugar onde você vai colocar esse resíduo e misturar com folhas secas ou com papel seco, vai cortar tudo em pedaços pequenos e há alguns truques para deixar se decompor e transformar-se em adubo orgânico”.

A especialista brasileira acredita que a grande chave para melhorar o meio ambiente é o ser humano repensar a sua forma de viver. “Temos de pensar mais em como os nossos avós viviam e tentarmos chegar mais perto disso do que daquilo que achamos que é moderno, porque o que achamos que é moderno é a raiz de muitos dos nossos problemas”.

“É pensar: “Eu realmente preciso consumir isso? Eu realmente preciso dessa embalagem? Eu quero beber água ou quero uma garrafa plástica?”

Paralelamente, Ana Rocha defende que é preciso pressionar as autoridades competentes e o poder político e é nesta questão que os media tem também um papel preponderante.

Les Panafricaines
Casablanca, Marrocos créditos: CM

“Os media têm um papel importantíssimo tanto na forma de levar a informação para as pessoas que precisam dela para se comportar de forma diferente como também ao dar a voz às pessoas que estão a fazer coisas diferentes para a sua projeção. Essa pressão que precisamos de fazer no governo e no setor privado, sem os media é impossível de ser feita”.

são as mulheres que sofrem as maiores consequências e são elas que têm também a solução para o problema

Ana Rocha também partilha da ideia de que as mulheres africanas são das que mais sofrem as consequências das mudanças climáticas daí que é preciso que “as mulheres africanas entendam o problema e usem soluções que elas já usam, busquem soluções e tenham voz”.

“As mulheres africanas são as grandes guardiãs das famílias, das crianças, de todo o sistema de uma casa, incluindo o lixo, a água, tudo que é afetado pela mudança climática (…) são as mulheres que sofrem as maiores consequências e são elas que têm também a solução para o problema”.

A III edição do Fórum “Les Panafricaines” conta com a participação de cerca de 300 jornalistas, dos 54 países africanos, entre os quais Cabo Verde, e decorre na cidade de Casablanca, em Marrocos. O evento conta igual com a presença de vários especialistas na área do ambiente e do desenvolvimento sustentável.

O Fórum encerra a 7 de março depois de um ciclo de ateliers onde estiveram em debate temas ligados à emergência climática e às mudanças ambientais e na sequência dos quais vão sair uma série de recomendações para as autoridades competentes.

A jornalista está em Marrocos a convite da Rede 'Les Panafricaines'.

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