Explica-nos como é que uma engenheira mecânica se transforma numa empreendedora e abraça uma área tão rara entre as mulheres, que é a pesca? Como tudo começou?
Posso dizer que, desde criança, tinha em mim algo que me dizia que havia de ser uma pessoa dinâmica. A minha mãe, com a sua veia de comerciante, influenciou-me e muito. Ainda muito pequena, eu vendia doces na rua, passando depois a organizar festas e atividades de cariz social, quando mais crescida. Sobre a ligação à pesca, vim duma família ligada ao mar e à pesca. A minha mãe é peixeira há mais de 20 anos e sempre comercializou para as ilhas de Sal e Santiago. Em 2013 recebi uma nova proposta de emprego e mudei–me para a cidade da Praia, onde pude acompanhar de perto o negócio dela. Na altura, eram inumeráveis os prejuízos, resultados de más parcerias, e lacunas na operacionalização da atividade. Comecei apenas para ajudar a minha mãe e quando dei por mim estava em cima duma carrinha a comercializar peixe. Aconteceu tudo tão rápido, de forma natural e espontânea. No final da primeira venda, enquanto descansava e contemplava o mar no cais de pesca da Praia, senti, naquele momento, que estava ali uma oportunidade para empreender.

Que dificuldades experimentaste no início?
Essencialmente os quase inexistentes recursos financeiros e o conhecimento do mercado, de fornecedores, de clientes, da logística, uma vez que o pescado era e é adquirido em São Nicolau e depois enviado à Praia.

Seis anos depois, e quando olhas para o teu percurso, do que te orgulhas e o que te satisfaz?
Orgulha-me ver o espelho real daquilo que foi sonhado, projetado e materializado no meio de tantas tentativas e erros e muito, muito esforço. Saber que é possível sim, basta haver empenho, determinação e foco. A maior satisfação é saber que, para além da conquista pessoal, estamos a contribuir para a economia do nosso país e a ajudar muitas famílias. São cerca de cinquenta pequenas embarcações em São Nicolau, às quais adquirimos o pescado. Ainda criamos cinco postos de trabalho diretos.

Para além de teres esse negócio para gerir, tens ainda a tua profissão e a tua família. Como concilias tudo?
No início era mais fácil. Eu e a minha irmã, que está comigo no negócio, vendíamos peixe de forma informal apenas aos finais de semana. Mas com o aumento da demanda e a constituição legal da empresa, a dada altura uma de nós teve que se dedicar a 100% à empresa. Por ter formação em administração financeira, a minha irmã, Lara Duarte, assumiu a gerência administrativa e financeira. Sem ela não conseguiria. Conciliar trabalho, empresa, família não é tarefa fácil, mas, felizmente, o meu companheiro é um exemplo de pai e marido. Tenho nele o suporte familiar.

Sentes ou sentiste alguma vez que, pelo facto de seres mulher nessa área, ainda vista como dos homens, atrapalhou o teu lado profissional ou te trouxe constrangimentos?
Obstáculos existem sempre. Eu tive-os desde a faculdade de Engenharia, onde apenas 10% dos alunos eram mulheres, e naturalmente ao longo do percurso profissional, principalmente no início da carreira. Mas nunca quis agarrar-me a esse aspeto nem perder tempo olhando por essa perspetiva, pois só serviria para me fazer perder o foco e energia desnecessária. Tento agarrar-me às oportunidades da melhor forma que posso, concentrando-me nos meus objetivos, colocando foco naquilo que realmente traz acréscimo à minha evolução, aprendendo e melhorando com as falhas, naturalmente do ser humano.

Chegando a esse ponto, tens certamente novos desafios…
Sim. Temos em curso a elaboração um projeto para a expansão da nossa empresa, a médio prazo. Vamos apresentar produtos nacionais, proveniente do nosso mar, num enquadramento inovador com toda qualidade e segurança que o mercado merece.

Quando olhas para a mulher cabo-verdiana o que vês?
Não existem palavras que descrevam na íntegra a dimensão da mulher, em particular nós, cabo-verdianas. A mulher cabo-verdiana desbrava o mundo para cumprir com as suas responsabilidades familiares, na maior parte das vezes, sozinha, sendo mãe e pai. A mulher cabo-verdiana é, seguramente, o orgulho da nossa sociedade. Enfrentamos adversidades, que são infindáveis, mas a nossa determinação, força e coragem são imbatíveis.

Que conselhos deixas às mulheres, particularmente as mais jovens que perspetivam iniciar uma carreira?
Elas podem ser aquilo que quiserem. Obviamente que ter suporte financeiro ajuda, mas não é a condição preponderante. Não é a sociedade, a família, o sexo, condição física que determina qual caminho a seguir, tudo depende da determinação, a força interior e o esforço em superar qualquer adversidade. Devem se manter focadas e ligadas apenas aos trilhos que as levem à concretização dos próprios sonhos. Dizer-lhes ainda que não deem tanta importância aos obstáculos, se estes não forem para servir de aprendizado.

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