Trazidos nos últimos dias para as primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro, após a declaração unilateral da independência da região norte do Mali, os tuaregues dessa região conhecida por Azawad são ainda um mistério. O jornal português o Público fez um retrato desses tuaregues que têm dividido o Mali.

Apesar de constituírem mais do que uma tribo ou clã, os tuaregues preferem chamar-se a si próprios Kel Tamasheq e não tuaregues, como forma de afirmar a sua identidade única. A designação quer dizer "Os que falam Tamasheq", a sua língua.

Os tuaregues/tamasheq têm o seu próprio alfabeto, Tifinagh, composto por símbolos geométricos, um total de 24, na forma de linhas, pontos, círculos e formas. Escreve-se da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima - por isso é de difícil leitura. A origem do Tifinagh é indefinida.

A independência do Azawad

A região agora em disputa, Azawad ou Azaoud, situa-se entre o deserto de Sara e a região semi-desértica do Sahel, entre o Norte do Mali e do Níger e o Sul da Argélia. E é este pedaço de deserto que o Movimento Nacional para a Libertação do Azawad (MNLA) (que se diz 'laico e democrático') proclamou nesta sexta-feira um Estado independente, após a rápida conquista ao exército maliano das cidades de Tombuctu, Kidal e Gao - aproveitando a situação de golpe de Estado promovido pelos militares malianos.

A região já era uma fonte de preocupações para americanos e europeus, com movimentações de vários elementos ligados à Al-Qaeda, para além de supostamente ser um centro de tráfico de cocaína. As rebeliões em Azawad datam de há pelo menos 50 anos, com sucessivos actos de insurgência contra os governos destes países.

Os revoltosos do deserto

A revolta deste ano contou com um factor conjuntural decisivo: milhares de soldados e mercenários tuaregues, antigos elementos do exército de Muamar Khadafi, regressaram da Líbia bem armados, treinados e financiados, e derrotaram facilmente as tropas corruptas do Mali. O seu objectivo agora é obter o reconhecimento internacional da independência da região, tarefa que não se mostra muito fácil, como mostra a história das tentativas de secessão no continente. A comunidade internacional prefere falar numa maior autonomia para região.

Islão

Apesar de serem muçulmanos os tuaregues/tamasheq não são árabes, à semelhança dos persas do Irão. Preservam rituais animistas, rezando a divindades do deserto, como pedras, água, fogo e montanhas. Na prática islâmica de lavar as mãos, a água, cada vez mais escassa, é substituída pela areia. na região de Azawad predomina a escola teológica maliquita do sufismo, corrente mística e tolerante da religião "revelada" a Maomé.

Organização

À semelhança de vários povos nómadas do deserto, os tuaregues viram-se, nos últimos tempos, obrigados a adoptar uma vida sedentária para sobreviverem. No entanto, muitos continuam a conduzir as suas manadas e camelos, em tendas móveis, seguindo a vida errante pelo deserto, em busca de pastagens e água para os seus animais.

Cada tribo é governada por um chefe e uma assembleia de homens adultos. As tribos agrupam-se em três confederações, cada uma com um xeque e um conselho de responsáveis de clãs. As confederações, por seu turno, têm um líder máximo (amenokal) e um conselho de nobres.

Mulheres

Ao contrário das mulheres muçulmanas, as mulheres tuaregues gozam de grande respeito e liberdade, participam nas decisões da família e da tribo, e podem manter relações com homens antes do casamento.

São uma sociedade matrilínia (a liderança, a descendência e a herança são definidas pela linha da mãe), mas não matriarcal (o poder é detido pelos homens).

Véu

Outra característica que separa os tuaregues do resto dos povos muçulmanos é o uso do véu. Entre os tuaregues, são os homens, e não as mulheres, que ocultam o rosto. Há três tipos de véu-turbante, consoante a hierarquia social do indivíduo. À excepção dos olhos, o véu cobre a cabeça, a testa, quase todo o nariz e a boca. Esta última é considerada "uma zona de poluição e de desrespeito se exposta perante outros".

Tinariwen

Um dos responsáveis por uma maior visão da cultura dos tuaregues é o grupo musical Tinariwen, composto por antigos guerrilheiros, que um dia trocaram as armas pelas guitarras eléctricas, e tornando-se numa das estrelas da world music actuais.

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