A câmara do Porto Novo reuniu, a 24 de Novembro, nas vésperas do septuagésimo aniversário do naufrágio, testemunhas vivas do acontecimento, agentes culturais, pesquisadores, professores, estudantes para se debruçarem sobre esse facto, que aconteceu em plena fome de 1947, em que terão morrido mais de 20 mil pessoas em Cabo Verde.

Além do encontro de reflexão, realizou-se ainda uma excursão à Canjana, como forma de chamar atenção para a necessidade de se reconhecer a importância desse sítio e sua história para a ilha de Santo Antão.

E, de facto, os municípios santantonenses prometem trabalhar com vista a levar o Governo a reconhecer, como património cultural de Santo Antão, a localidade de Canjana, nas proximidades da Praia Formosa, onde a 25 de Novembro de 1947, encalhou John Schmeltzer, navio da marinha mercante dos Estados Unidos da América (EUA) carregado de milho e outros produtos.

“Vamos trabalhar para que Canjana e sua história sejam património cultural de Santo Antão. Vamos Contar, certamente, com o apoio do Instituto de Património Cultural (IPC) e juntos trabalharemos para que isso aconteça”, prometeu o edil do Porto Novo, Aníbal Fonseca.

O encalhe em Canjana, em 1947, constitui “um marco histórico” que, segundo o autarca, “merece ser preservado e sinalizado” para as gerações actuais, que queiram conhecer essa história.

A sinalização do percurso à Canjana, a preservação das ruínas das casas ainda existentes no local e atribuição de uma das ruas da cidade do Porto Novo com o nome do navio John Schmeltzer, para “perpetuar” esse acontecimento, foram outras propostas lançadas durante o encontro.

“John”, como ficou conhecido o navio da marinha mercante dos Estados Unidos, vinha da Argentina, a caminho da Suécia, carregado de milho, semeia e outros produtos, quando encalhou nas proximidades de Canjana, acabando por salvar “parte significativa” da população de Santo Antão de morrer à míngua, na sequência da fome que assolou Cabo Verde, em 1947.

O encalhe de John S. Schmeltzer, que tinha partido do Porto de Rosário, na Argentina, com destino a Gotemburgo (Suécia), aconteceu às 05:49 do dia 25 de Novembro, quando o navio atravessa as águas do norte do arquipélago de Cabo Verde, rumo ao país nórdico.

Há relatos de que o encalhe ocorreu num dia de muita bruma seca nas ilhas de Barlavento, que pode ter contribuído para a ocorrência do encalhe, mas ficou provado que o acidente com o navio norte-americano deveu-se à “conduta imprudente” do imediato, Karl Skjaveland, que se encontrava ao leme do John Schmeltzer no momento do naufragou.

Karl Skjaveland, dois anos depois, viria a ser julgado por “negligência e pela sua conduta imprudente” que levou ao imponente barco a sentar-se nos baixos de Canjana, a cinco milhas náuticas da Ponta de Peça.

Era um navio, relativamente, moderno com sofisticados meios de comunicação e de navegação, incluindo radar, que trazia a bordo 7.179 toneladas de carga bruta, que deveria ser descarregada no porto de Gotemburgo, na Suécia.

O encalhe, segundo as testemunhas ainda vivas do acontecimento, foi a “salvação do povo”, numa altura em que a fome dizimava os cabo-verdianos.

O milho a granel acabou por salvar “parte significativa” da população de Santo Antão de morrer à míngua, na sequência da fome que assolou Cabo Verde, em 1947.

“Sim, o milho que o ‘John’ trazia a bordo fez escapar muita gente, mas também matou bastante. Nem tudo foi um mar de rosas”, lembrou Félix Santos, hoje com 91 anos, ele que foi uma das pessoas contratadas para trabalho na descarga do navio.

Muita gente que comeu, num primeiro momento, o milho encharcado de água do mar e, depois, já podre, morreu de disenteria e outras doenças.

Mas, o facto é que o encalhe do “John”, como ficou, popularmente, conhecido em Santo Antão, foi tão providencial que levou muita gente a especular que o capitão, Alexander Ekke, mandou encalhar, de propósito, o navio, para salvar o povo desta ilha.

A companhia teatral de Santo Antão Juventude em Marcha tem um trabalho já feito acerca desse naufrágio, denominado Canjana, que vai ser adaptado ao cinema já em 2018 segundo Jorge Martins, actor, encenador e líder do grupo.

Nos últimos meses, tem-se feito algumas excursões à Canjana, uma forma, também, de se alertar para a situação de abandono dessa localidade e de se chamar a atenção das agências turísticas para a importância desse sítio, que pode ser um produto turístico.

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