Fala um pouco de ti. Quem é Samira Vera-Cruz?

Sou uma mulher curiosa e inquieta com tudo o que me rodeia. Nasci no Mindelo, há 29 anos, e cresci entre essa cidade, a Praia e Lisboa. Depois disso fui para Paris para continuar os meus estudos superiores e Luanda para o meu arranque de carreira. Estudei Cinema com especialização em Comunicação Internacional e desde então trabalhei com publicidade, jornalismo, filmes corporativos e institucionais, videoclips, fotografia e, mais recentemente, com cinema. Fundei a minha produtora, Parallax Produções, em 2016, na cidade da Praia, e tenho trabalhado como realizadora e produtora – o que me tem permitido viajar pelo mundo, mostrar os meus filmes e aprender imenso com outros profissionais da área e mentores.

Deixas transparecer uma alma sonhadora, cheia de ideias…

Sou uma pessoa essencialmente sonhadora — tanto que as minhas melhores ideias surgem enquanto durmo, mas encontrei o equilíbrio que me faz correr atrás e realizar esses sonhos. Ideias todos temos, mas é necessário pô-las em prática.

E como surge o cinema na tua vida?

O Cinema surgiu meio por acaso! Adorava filmes, mas nunca imaginei que um dia trabalharia nesta área! Eu queria mesmo era estudar teatro., mas tive o privilégio de crescer com um irmão supercriativo e autodidata que já em adolescente fazia pequenas experiências com vídeo e fotografia. Quando chegou a altura de ir para o curso, o meu irmão trabalhava muito com produção e pós-produção audiovisual – e ensinava-me algumas coisas de edição, que depois se tornou a minha área favorita. Como não tinha de declarar o meu curso até ao segundo ano, decidi tentar um semestre de cinema... e o resto é história! Apaixonei-me completamente e hoje em dia, mesmo os meus hobbies, são voltados para o audiovisual!

O cinema só muito recentemente começou a ter expressão em Cabo Verde e também a granjear mais atenção. Alguma vez sentiste alguma barreira, para te realizares como cineasta e ainda por cima sendo jovem?

O que não faltam são barreiras. Infelizmente, por ser jovem, por ser mulher e por ter voz própria e opiniões políticas que remam contra a maré... tem sido quase impossível manter a cabeça de fora no mar de dificuldades que nos impõe. A primeira, e mais óbvia, é a falta de financiamento sério e que corresponde às necessidades de produções nacionais – inteiramente ou pelo menos lideradas por profissionais de cá. A disparidade do financiamento para realizadores estrangeiros em relação ao pouco que (bastante politicamente) se tem dado aos realizadores nacionais é gritante e chega a ser ofensiva! A segunda, e que me dói mais, é a falta de reconhecimento por parte das instituições competentes. Já nem digo que financiem! Mas como é possível conseguir ter o primeiro filme Cabo-verdiano num festival em Montreal, no Canadá, que já tem mais de 30 anos, e isso nem sequer ser transmitido na televisão nacional? Como é possível ter sido a primeira cabo-verdiana a participar no Talents Durban (que faz parte da Berlinale) e inclusive ganhar um prémio e não haver sequer uma menção do Ministério, e menos ainda da televisão nacional? Como é possível estar neste momento uma produção de um realizador cabo-verdiano a acontecer no Fogo e o Ministério nem sequer se manifestar?

E tem havido preocupação vossa em comunicar com o MCIC e a Comunicação Social?

Em todos os passos e vitórias que temos conseguido, temos transmitido ao Ministério da Cultura e à comunicação social. Com exceção de alguns órgãos claramente independentes, o silêncio tem sido ensurdecedor. Para mim, levanta imensas questões sobre as prioridades do investimento na “Cultura” e nas “Indústrias Criativas”. Felizmente... sou muito teimosa! E com investimento próprio e interesse internacional continuo a avançar.

Podemos falar de uma indústria do cinema ou estamos longe disso?

Estamos a anos-luz de falar em indústria do Cinema em Cabo Verde! Há que ser realistas... para isso teríamos de ter volume de produção nacional e mais salas de cinema onde exibir esses filmes. Teríamos de ter leis e normas que protejam os nossos direitos, mas que também assegurem os nossos deveres. Teríamos de ter capacidade de formar profissionais da área e de dar-lhes experiência profissional direta em produções, cá e lá fora. Teríamos de ter acesso à informação sobre fundos internacionais e programas que possam atrair coproduções... teríamos de ter o respeito que é devido aos profissionais que já cá estão e que conseguem avançar com as suas ideias apesar de tudo! Falta muito para podermos sequer falar em Indústria do Cinema em Cabo Verde!

Como cineasta, o que te faz falta aqui em CV?

Acho que muito do que foi falado anteriormente… falta acesso a fundos, falta respeito por parte das entidades e alguma Comunicação social… falta organização dos profissionais para que possam efetivamente existir coproduções. Falta acesso a equipamento... um pouco de tudo! Mas até lá, vamos fazendo com o que temos e vamos procurando outras condições noutras paragens.

Tens tido o mérito de representar o país e a tua empresa em certames internacionais. Como têm sido essas experiencias?

Tem sido extremamente gratificante. O “Hora di Bai”, por exemplo, já foi visto em 16 países entre a América do Norte, América do Sul, África, Europa e Ásia! Acabei de receber um prémio com o meu novo projeto, “E Quem Cozinha?” em Durban, num festival incrível, onde aprendi imenso! Tem sido verdadeiramente gratificante e só tenho a agradecer por todas essas experiências. São o resultado de muito trabalho, muito suor e muito sacrifício. É particularmente emocionante ver os nossos filmes — ver as nossas ruas, a nossa língua, a nossa cultura, em sítios tão diferentes. Só tenho mesmo a agradecer!

Samira Vera-Cruz
créditos: Fotos cedidas

Alguma vez pensaste no cinema como uma “arma” para transformar o mundo? Tens tido essa consciência nas tuas produções?

Sem dúvida! O cinema é a ferramenta que uso para refletir e analisar questões que me preocupam. Comecei a fazê-lo mais conscientemente com o “Sukuru” — a minha primeira longa-metragem, sobre um jovem esquizofrénico que acaba por tornar-se toxicodependente. A saúde mental é um dos temas que me preocupa muito visto ser um tabu em tantos países e particularmente agravado no nosso — talvez por sermos um país pequeno e com tradições tão específicas. O Sukuru foi escrito inteiramente do ponto de vista de um esquizofrénico e para isso fizemos muito trabalho de pesquisa. Apesar de ser uma obra de ficção, tem o propósito de fazer pensar sobre as questões da saúde mental e tem funcionado nesse sentido. Para além das projeções temos tido algumas atividades de sensibilização — debates depois das projeções, palestras e conversas abertas.

Quem corre por gosto, não cansa. Neste momento, que projeto tens marcha?

Estou a trabalhar noutro projeto, o meu novo documentário “E Quem Cozinha?”, que aborda questões de igualdade e equidade de género bem como a forma como pessoas com limitações físicas são tratadas no nosso país.

Mais uma vez, o cinema como ferramenta de intervenção social. Tens notado algum impacto do teu trabalho na sociedade?

Acredito, sem dúvida, no cinema consciente como ferramenta de sensibilização e educação. Tenho tido surpresas bastante agradáveis recentemente. Por exemplo, há cerca de mês estive com jovens de uma associação na Assomada, a debater questões sobre a saúde mental e toxicodependência, quando promovemos um debate sobre direitos LGBTI houve uma grande adesão e participação de jovens com opiniões conscientes e capazes de articular as suas ideias de forma prática e eficaz.

Isso quer significar que os jovens, afinal, se interessam por se envolver e debater temáticas atuais e pertinentes

Há interesse, sim! Há muitos jovens que se interessam, procuram saber mais e procuram soluções. Contudo, acho que enquanto sociedade (e mesmo a nível mundial) estamos num caminho perigoso de gratificação instantânea e satisfação com aparências demasiado comerciais. Isso faz com que hajam inúmeras distrações e com que muita gente perca o foco. Isso preocupa-me um pouco. Acho necessário dirigir essa vontade e esses interesses – que sem dúvida existem – numa direção mais de fazer para melhorar e não de aparentar fazer para criar uma imagem virtual.

Quando olhas para esta nova geração, o que te vem à cabeça? O que falta ao jovem cabo-verdiano para se inserir na aldeia global?

Há um enorme potencial nestas novas gerações – até porque há maior acesso à informação e mesmo à produção da mesma. No entanto, nós somos criados a olhar para a Europa (em particular, Portugal), para o Brasil e para os Estados Unidos como se fossem alguma espécie de tábua de salvação. Podem até ser para alguns, mas acredito que o que nos falta é verdadeiramente ter uma visão mais global. Olhar para o sul, olhar para o continente africano e para tantas outras paragens. Começar a perceber quais são os nossos objetivos, quais são as nossas paixões e começar a fazer ouvir as nossas vozes – individuais, mas também coletivas. Fazendo um paralelo com a música, covers têm piada, mas está na hora de começarmos a escrever e pôr em prática as nossas próprias produções. Somos um país de pessoas extremamente criativas, mas acho que, como em tantas outras paragens (não é um problema só nosso), vivemos um tempo de inúmeras distrações e estímulos externos, faltando-nos algo nosso, autêntico.

Celebra-se a 12 de agosto o dia mundial da Juventude. Alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?

Nu djunta mon e nu fazi. As respostas nem sempre chegam de quem está em cima. Está na hora de analisarmos o que está certo e o que deve ser melhorado. As redes sociais servem sim para manifestarmos o nosso agrado e descontentamento, mas também é preciso tirar o nariz dos ecrãs e ter ações que reflitam o que sentimos e pensamos. Não se contentem apenas com “parecer ser” e ter “a imagem certa” – tenham a certeza de que o que vocês fazem corresponde à imagem que criam virtualmente. Se todos fizermos isso, conseguiremos muito mais.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.