Antes de mais, fala-nos um pouco de ti. Quem é o Samir Pereira

(Risos) Uma pergunta difícil de responder. Não sei dizer quem sou, mas sei como sou. Uma pessoa irrequieta. Desde muito pequeno fui muito curioso, procurava saber sobre tudo, lia muito, via vídeos e tentava absorver o máximo das coisas. São caraterísticas que mantenho até hoje. Tenho a sorte de ter pais que me influenciaram a ler e isso ajudou-me imenso. Sou uma pessoa em constante mutação, tudo que é novo atrai-me. Gosto da liberdade de poder determinar qual o caminho a seguir, dai que sempre tive reservas em aceitar determinadas imposições.

Quando se fala em empreendedorismo jovem nacional o teu nome vem logo à baila. Tens tido uma forte intervenção nesse domínio. Como surge essa constante vontade de promover o empreendedorismo jovem?

Tem muito a ver com o facto de ser muito curioso e irrequieto. Sempre estive envolvido em várias atividades. Aos doze anos criei um pequeno negócio. Fazia cartões de visita para os amigos dos meus pais e ganhei algum dinheiro. Sentia-me fascinado pelas pessoas que criavam os seus negócios, que faziam coisas diferentes, mas fui observando as dificuldades que essas pessoas enfrentavam para o fazer. Vi que quem queria fazer algo novo, ter o seu próprio negócio, encontrava um ambiente pouco favorável. Há imensas dificuldades: a primeira é a própria sociedade que tem dificuldades em aceitar o novo; a segunda, é a falta de acesso aos recursos de uma forma geral. Também há dificuldades por parte das instituições em acreditarem em iniciativas novas, de acreditar nos jovens que iniciam os seus negócios. Por isso, decidi fazer esse trabalho de dar visibilidade às iniciativas interessantes. É importante que haja espaços de partilha que não só mostrem o que os jovens fazem, mas também para que estes possam servir de referência para outros.

Daí teres fundado a Cheetah Start…

A Cheetah Start é uma ONG com uma intervenção muito mais social do que financeira. Procuramos facilitar o acesso dos jovens empreendedores aos programas que desenvolvemos. Por exemplo, o Start Up Weekend é uma das nossas iniciativas. O que fazemos é criar conexões, pomos os empreendedores em contacto com potenciais clientes, mas também com ferramentas que as ajudam a desenvolver os seus projetos. Acima de tudo, levamos os jovens a pensar de forma inovadora, em coisas com dimensão mais global e não apenas local. No fundo, queremos criar uma comunidade de pessoas inovadoras.

E quanto aos resultados desse trabalho, como têm sido?

Temos conseguido bons resultados. Só para citar alguns, temos o exemplo da plataforma Resermar, de venda online de passagens marítimas. Outra empresa saída do Start Up Weekend foi a Prisma Vídeos que já tem um nome consolidado no mercado. Mas até final do ano queremos produzir um estudo de impacto dos nossos programas.

E quais são os próximos passos?

Vamos implementar um serviço de formação e consultoria voltado para a melhoria de produtos e inovação. Já estamos a trabalhar nisso. Temos ainda o programa de aceleração focado em dois alvos: nos que têm ideias, mas não conseguem desenvolve-las e os que já têm iniciativas, mas precisam de condições para acelerar o crescimento dos seus negócios. Teremos que mobilizar entidades púbicas e privadas e ate internacionais.

Éstambém o mentor da iniciativa Ignite Talks. Como surgiu esta ideia e quais são os propósitos da mesma?

Do contacto com pessoas, fiquei a saber de coisas interessantes. Há imensa gente a fazer coisas muito interessantes e o Ignite Talks surge com esse propósito de partilhar essas ideias e esses trabalhos. Por outro lado, a ideia é criar uma comunidade de pessoas com ideias e projetos com potencial de inovação.

Como vês esse movimento todo à volta do empreendedorismo jovem? Há de facto um sistema e um ambiente favorecedores e efetivos para que o empreendedorismo seja uma realidade ou não passa de uma moda?

O empreendedorismo está na moda e felizmente que sim. Qualquer país que lidera o Índice de Desenvolvimento Económico e Social é aquele que tem grandes iniciativas privadas tanto empresariais como sociais. É bom que isso esteja a acontecer em Cabo Verde, porque esse é o caminho. Mas, por outro lado, temos que perguntar: existe um ambiente propício para o empreendedorismo? Posso dizer que é complicado.

Samir Pereira
créditos: Fotos cedidas

Diz-se que o principal entrave ao empreendedorismo é o mercado nacional que é pequeno...

Sim. Temos um país com um mercado reduzido, determinados produtos e serviços têm dificuldades em afirmarem-se como atrativos enquanto negocio. Mas há outros aspetos: a burocracia, que faz com que muitos investidores desistam de investir aqui. Há demasiada burocracia processual, não aproveitamos das tecnologias para desburocratizar. Dou-te um exemplo: um empresário solicita um documento numa instituição e dizem-lhe que para ter aquele documento precisa de um outro e que pode obtê-lo no mesmo espaço, só que na porta ao lado. Isso sem falar da velha expressão “não há sistema”. A juntar, há o problema do financiamento. O crédito é mais para o consumo. Não há um produto financeiro voltado para o investimento. As instituições financeiras são ainda muito tradicionais e não há uma única entidade nacional que financia especificamente as startups. Mas há vontade de se mudar o estado de coisas, está-se a criar outros caminhos.

Que caminhos são esses?

O programa de estágios profissionais é um deles, pois permite que os jovens possam ter essa mentalidade empreendedora. Mas é preciso cada vez mais focar na formação técnica. Infelizmente, aqui, ainda se está muito preso às áreas tradicionais. É preciso diversificar. Mas vão aparecendo iniciativas públicas interessantes como é o caso do Jumpstart do NOSi. Por sua vez, a Pro Empresa tem um programa de facilitação do acesso ao crédito e observamos que o governo tem vindo a dar mais oportunidades ao privado.

Hoje, vê-se um grande movimento de jovens que quer empreender. Mas fica-se com a sensação de que na prática, não há ainda muitos resultados, nomeadamente, mais negócios criados, mais empresas com sucesso. Está a faltar algo?

Obviamente que sim. Para começar, temos que aprender a trabalhar com outras pessoas. Uma pessoa, por mais boa que seja na sua área, é limitada a ela própria. Há que saber trabalhar em equipa e não se deve recear convidar outras pessoas a se associar a nossa ideia, ao nosso negócio. Por outro lado, subiste o pensamento de se pensar o negócio apenas para Cabo Verde ou para uma determinada ilha. Temos que pensar global e perguntar de que forma uma solução, um produto ou um serviço pode chegar a outros países. Há também que se investir nas línguas para que se possa alcançar outros mercados que não apenas os lusófonos. Uma outra limitação a superar está na forma como vendemos a nossa ideia ou produto. Em Cabo Verde, ainda não se da muita importância à venda e isso dificulta muito a quem tem uma grande ideia de negócio. Daí que os jovens precisam de incutir a ideia de que devem trabalhar com parcerias externas. Uma boa equipa não tem que ser composta só pessoas do mesmo país ou que estejam próximas fisicamente.

O que falta ao jovem cabo-verdiano para se inserir na aldeia global, para de facto esteja à altura de competir no mercado global?

Os jovens cabo-verdianos estão aptos a competir e terem sucesso a nível global. Se o fator de competitividade for a criatividade, digo que estamos muito bem e somos muito bons. Porem, é preciso que os jovens sejam expostos a práticas inovadoras muito mais cedo, desde muito pequenos, para que não achem extraordinário o querer criar coisas inovadoras. Por outro lado, temos que ter um olhar para fora, ampliar a nossa criatividade para o mundo. Os jovens cabo-verdianos são muito criativos, mas precisam sê-lo para o mundo e isso é possível porque tecnologia para tal já temos.

Alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?

Que seja ousada, que não tenha medo de partilhar nem de se associar a quem possa melhorar o seu negócio ou ideia. Que seja orientada para resultados, que não têm que ser, de imediato, financeiros. Se um jovem pensar apenas em lucros não irá conseguir alcançar os seus objetivos. Há que, primeiro, pensar em outros ganhos. Um jovem deve se questionar sobre como pode melhorar a qualidade de vida de outras pessoas, de uma comunidade ou da sociedade através da solução – produto ou serviço – que pretende criar e implementar. Ou seja, deve pensar primeiro no benefício social e só depois no financeiro.

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