Este ano a comunidade do bairro assinala os 50 anos da sua existência, com muitas histórias para contar sobre personalidades que até hoje permanecem na memória dos safendenses.

Situado no norte da cidade da Praia, Safende começou a ser povoado de uma forma espontânea no início dos anos 1970, por pessoas provenientes sobretudo do meio rural do interior da ilha de Santiago, nomeadamente, de São Salvador do Mundo (Picos), São Lourenço dos Órgãos, Santa Catarina, Tarrafal, Calheta São Miguel, São Domingos (Rui Vaz) mas também de outras ilhas do arquipélago.

De acordo com o Pré-Diagnóstico Participativo do Bairro Safende feito em 2012, o bairro divide-se em cinco subzonas: Safende Baixo, Safende Meio, Fundo Riba, Fundo Safende e Alto Safende. A zona de Alto Safende encontra-se localizada em cima de um planalto à norte, Fundo Safende, fica no centro do bairro, Safende Baixo, que fica próximo da área residencial da zona de Vila Nova.

De acordo com o mesmo documento, o período de maior instalação no bairro de Safende foi entre 1975 a 1989 e a primeira zona a ser povoada foi justamente Safende Baixo, seguindo-se Safende Meio nos anos 1980 e Alto Safende nos anos 1990.

Atualmente é considerado o sexto bairro mais populoso da cidade da Praia.

Safende e as suas gentes

Bairro Amado- Safende

No Fundo Riba de Safende, sentada à porta de casa com plantas à volta está Eduarda Tavares Fernandes, mais conhecida por “Birde”, que foi uma das primeiras moradoras do bairro ainda na década de 1970.

“Naquela época em Safende não havia nada. Vivia com o meu marido e não tínhamos sequer vizinhos. Com o tempo as pessoas começaram a ocupar o espaço e, graças a Deus, hoje somos uma comunidade grande”, diz orgulhosa esta idosa de 77 anos, que viu a sua barraca ser transformada numa humilde e acolhedora casa ao longo deste meio século de existência do bairro.

Ainda se lembra da primeira vizinha - ‘Nha Preta’, como era carinhosamente conhecida pela comunidade safendense. Era a única vizinha de ‘Birde’ na altura.

Bia, Francisca, Mariana, Pinina e Dionísio, já falecidos, são outros nomes que marcaram o percurso do bairro, conforme conta ‘Birde’.

Mais abaixo vive António Lopes de Carvalho que já não lembra ao certo a idade que carrega nos ombros, mas ainda recorda os tempos em que foi morar para Safende. “Ao meu redor não havia casas, havia a casa da “Birde” e da “Nha Preta”, um pouco mais acima. Na época, elas eram as minhas únicas vizinhas”, recorda “Ntony” como é conhecido.

Hoje temos um Safende diferente graças à força de vontade dos moradores

Óscar Mendes, Simão Rocha e Albertino Cabral pertencem a uma outra geração, já mais nova, que vive no bairro há cerca de três décadas e também falam com saudosismo de como era a vida no bairro.

“Lembro-me da minha infância, das brincadeiras que fazíamos na ‘Rua d’Obra’, do tempo em que não havia luz, um tempo que não volta”, recorda Óscar Mendes com alguma nostalgia.

Este morador afirma que Safende foi e continua a ser um bom bairro e apela a toda comunidade para um maior engajamento e união e para que o “Bairro Amado” seja realmente amado por todos.

“Hoje temos um Safende diferente graças à força de vontade dos moradores, que incansavelmente fizeram com que o “Bairro Amado” atingisse este patamar”, diz o morador que almeja ver um dia ver outras melhorias no bairro.

O mesmo sentimento é partilhado por Albertino Vieira Sanches Cabral, conhecido por ViVi, que também viveu a sua infância em Safende, numa época em que havia ainda poucas casas e poucas gentes, salienta que nessa altura as pessoas eram mais unidas e humildes.

Albertino Cabral, morador de Safende

“Era um tempo bom, não havia luz, sentávamos à noite na rua e ouvíamos histórias contadas pelos mais velhos. Um tempo em que nem sequer havia placas desportivas e campo relvado como hoje”, recorda.

Para este morador, o bairro evoluiu muito, mas ainda há muitas coisas por fazer. “Hoje temos a nossa capelinha, onde podemos celebrar a festa da nossa Santa padroeira, “Santa Teresinha”, entre outras atividades religiosas”, salienta.

Segundo ViVi, a capela de Santa Terezinha, que foi construída nos anos 1980 é um dos maiores ganhos do bairro, realçando que resulta de um “djuntamon” da comunidade.

Simão Deolindo Rocha, um outro morador reconhece que o bairro sofreu várias mudanças. “Hoje temos uma escola, jardim, placas desportivas”. Entretanto, diz que ainda há muitas coisas que merecem uma atenção especial, como a questão do saneamento e do arruamento.

Um bairro melhor com o engajamento comunitário

Para o representante da Associação Comunitária Amigos de Safende, a intervenção comunitária é, simultaneamente, um dever e um direito de toda a comunidade.

“Safende é de todos nós, por isso apelo ao sentimento de responsabilidade de cada um dos moradores porque cada engajamento, cada intervenção terá o seu impacto no bairro”.

Já que a união faz a força, o jovem diz que para que haja um bairro melhor, todos devem consciencializar-se e despertar o sentido de responsabilidade para com a comunidade. “Não vale a pena uma parte dar o seu contributo e todos beneficiarem”.

Estes 50 anos simbolizam um momento de união, amizade, engajamento e sobretudo de consciencialização de que um Safende melhor carece de uma participação ativa e convicta de todos, porque Safende é ‘Di nós Tudu’, conclui Dino.

Bernardino (Dino) Gonçalves, representante da ACAS (Associação Comunitária Amigos de Safende)

Para Bernardino (Dino) Gonçalves, representante da ACAS (Associação Comunitária Amigos de Safende), a comemoração das bodas de ouro de Safende simboliza ‘um ato de celebração e de compromisso com o Bairro Amado’ já que estes 50 anos representam os ganhos que o bairro atingiu até os dias de hoje e a responsabilidade de cada safendense tem para com o “Bairro Amado”.

“Se hoje comemoramos esta data é porque toda a comunidade deu o seu contributo para que chegássemos até aqui. No entanto, acredito que toda a comunidade irá comprometer-se para um maior engajamento para que juntos alcancem um Safende cada vez melhor e venham a celebrar mais anos do “Bairro Amado”.

O mesmo sentimento é partilhado por José Henrique Nobre de Oliveira Vera Cruz, diretor do Espaço Aberto Safende, um espaço que há 12 anos trabalha em prol da inclusão social das crianças, adolescentes e dos jovens da comunidade.

“Esperemos que o bairro possa sempre contar com o apoio do Espaço Aberto em tudo porque trabalhamos para a estabilidade e o bem-estar da comunidade”, congratula-se o responsável e diz que o espaço estará sempre aberto para servir o bairro.

Já para Óscar Mendes que estes 50 anos representam alegria, satisfação para todos os safendenses. Este morador salienta que este é também um momento para se fazer um balanço, reflexão e união de toda a comunidade, para que futuramente seja construído um Safende melhor.

Óscar Mendes, morador de Safende

“Descarto a ideia de que a pobreza pode ser uma limitação para o crescimento e o desenvolvimento de um bairro, porque ser pobre é ser humilde, digno e procurar um trabalho e obter um pão de cada dia de modo a contribuir para a melhoria da própria vida e da sua comunidade”, diz este morador apelando para que os jovens optem pelo caminho certo e não pela delinquência.

Lembro-me da minha infância, das brincadeiras que fazíamos na ‘Rua d’Obra’, do tempo em que não havia luz, um tempo que não volta

Vivi enaltece a oportunidade de poder celebrar estes 50 anos do bairro, e apela a toda comunidade safendense principalmente os jovens para que cultivem mais amor, paz e mais amizade para que Bairro Amado venha a comemorar mais anos e com maior união.

Para o representante da Associação Comunitária Amigos de Safende, a intervenção comunitária é, simultaneamente, um dever e um direito de toda a comunidade.

“Safende é de todos nós, por isso apelo ao sentimento de responsabilidade de cada um dos moradores porque cada engajamento, cada intervenção terá o seu impacto no bairro”.

Já que a união faz a força, o jovem diz que para que haja um bairro melhor, todos devem consciencializar-se e despertar o sentido de responsabilidade para com a comunidade. “Não vale a pena uma parte dar o seu contributo e todos beneficiarem … porque Safende é ‘Di nós Tudu’, conclui Dino.

Para o responsável da “KazaDaAmizadi”, Ivan Barros Fernandes, estes 50 anos têm um sabor especial para toda a comunidade e para os seus visitantes. “Acredito que este será um marco histórico para todos os moradores deste bairro e para as gerações futuras”.

De acordo com este jovem, o desemprego é um dos maiores problemas que a comunidade enfrenta. “Penso que se cada jovem agir de uma forma ativa esse fenómeno pode ser minimizado”.

Responsável da “KazaDaAmizadi”, Ivan Barros Fernandes

“KasaDaAmizadi”, que é a nova sede (inaugurada a 31 de janeiro deste ano) da Associação Comunitária Amigos de Safende, tem por objetivo apoiar a comunidade através de formações para jovens e ajudar as crianças.

“A amizade é essencial na participação e no engajamento de cada safendense, visto que será uma mais-valia para enfatizar a responsabilidade que cada um tem com o ‘Bairro Amado’”, afirma Dino Gonçalves da ACAS.

A nova sede da ACAS fica situada na ‘Rua d’Obra’, considerada uma das ruas mais emblemáticas de Safende. “É uma rua antiga, um marco para o bairro e até hoje é uma referência na comunidade”, afirma o responsável e revela que no início da construção do bairro terão sido aqui construídas habitações sociais que viriam a ser cedidas pelo Estado a refugiados que vieram de Angola.

Edna da Veiga/ Estagiária

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.