Falando da sua vida e profissão, conta que nasceu numa comunidade piscatória, no bairro de Achada Grande Trás, na Cidade da Praia e quando era criança tinha uma enorme vontade e curiosidade de se juntar ao pai e irmãos mais velhos para ir pescar, lembrando, entretanto, que por ser criança, na altura era-lhe proibido pensar nessa possibilidade.

“O meu pai sempre dizia que devíamos trilhar um caminho diferente da dele, queria que estudássemos e tivéssemos uma profissão que não fosse pescador, porque falava sempre que vida de pescador não é fácil e que não queria que o nosso destino fosse como o dele”, lembrou.

Mas quis o destino, declarou João, que esse sonho se concretizasse aos 11 anos, pois um certo dia, o pai e os irmãos esqueceram de levar água para a pesca e mandaram recado para que ele levasse-lhes a água antes de partirem para luta diária.

“Durante o percurso, estava feliz porque tinha uma voz que dizia: João hoje é o teu dia, é hoje que vais pescar e quando cheguei a praia, o mar estava agitado e tinha que ir mais além para entregar a água ao meu pai. E foi nessa altura que, quando entreguei a garrafa, aproveitei logo e subi no bote”, disse, asseverando que a sua primeira experiência com a pesca foi muito boa e quando se viu no mar a pescar sentiu que fazia parte daquele mundo e que o mar é o ar que respira e a sua terapia.

Segundo disse, por ser de uma família pobre e sem condições, viu-se obrigado a parar de estudar, ainda não tendo na altura concluído o Ensino Básico, um facto que não lamenta porque acredita que tudo aconteceu para que hoje tivesse forças para enfrentar os desafios da vida.

Para este pescador, a vida tem as suas adversidades e que com o passar dos anos as coisas ficam mais complicadas, principalmente para aqueles que não sabem ler e escrever. João Tavares recorda que foi nesse período da sua vida que sentiu a necessidade de correr no tempo e dos seus sonhos.

“Sempre vivi da pesca. Aliás, a pesca sempre foi o sustento da minha família, mas, após vários anos exercendo a profissão de pescador, senti uma vontade e uma necessidade de voltar a estudar e comecei onde tinha parado. Não foi fácil para mim, porque estudar e pescar ao mesmo tempo, principalmente porque o horário não era flexível, senti-me desmotivado muitas vezes, mas graças ao empurrão da família e amigos, consegui vencer”, diz, salientando, entretanto, que apesar das dificuldades, conseguiu concretizar um sonho que nunca imaginou que pudesse realizar.

Considera ser um “homem de luta e de desafios”, isto porque, no seu entender, a vida só terá valido a pena se os obstáculos forem ultrapassados, os objectivos alcançados e os sonhos concretizados.

Além de ser pescador, João Tavares trabalha também como segurança na paróquia de Nossa Senhora da Graça e é catequista, mas afiançou que o mar continua a ser a sua segunda casa e um lugar que representa para ele a confirmação que na vida tudo é possível de se conquistar.

“A pesca tem momentos altos e baixos, não é uma profissão fácil. Enfrentamos o mau tempo, chuva e frio, mas com amor e paciência tudo fica suportável. O rendimento das pescas não tem sido suficiente, daí que resolvi fazer trabalhos extras. Mas se pudesse, viveria somente da pesca, porque é no mar que sinto-me completo”, declarou.

Lamentou, por outro, que a profissão de pescador não tem sido tão valorizada e que, aos poucos, tem perdido profissionais, porque, ajuntou, os pescadores têm abandonado a profissão, devido a vários motivos, alguns por causa da idade, outros por falta de condições para ter a sua própria embarcação e a quantidade de peixes no mar diminuiu.

Neste sentido, apelou às autoridades competentes que adoptem medidas e criem condições que garantam a sustentabilidade do sector e apoio às famílias, cujo rendimento e sustento advêm da pesca, apelando, por outro lado, à união de todos os pescadores para o fortalecimento da classe.

Para João Tavares, só quem é pescador e que navega no mar diariamente conhece realmente o valor e as desvantagens dessa profissão que já desviou e pôs fim a vida de muitos, que foram ao mar pescar como habitualmente, mas que nunca regressaram às suas casas, considerando este aspecto como a maior perda da profissão.

Hoje, pai de uma menina de um ano, João Tavares diz que ser pescador foi a sua melhor escolha de vida, mas que luta diariamente para que a sua filha tenha um futuro melhor e possa usufruir de uma vida diferente. Aliás, frisou, tudo o que tem feito e todas as suas conquistas são para proporcionar à sua família uma vida digna e feliz.

*** Por Carmen Martins, da Inforpress ***

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