Ele foi político, empresário, jogador, fumante, teve fama de beberrão – às vezes até de brigão – se casou duas vezes e viveu na Nova York do século 19. Mas Murray Hall levou o seu maior segredo para o túmulo.

Agora, sua história está sendo recontada em Glasgow, na Escócia, como parte de uma tentativa de “colocar as pessoas LGBTQI + de volta na história”.

Apesar desse estilo de vida nada discreto, só em 1901, quando morreu de câncer é que veio à tona a informação de que Hall havia sido identificado como mulher ao nascer.

Ainda mais tarde, soube-se que ele tinha nascido em Govan, na Escócia, e que seu nome de batismo era Mary Anderson.

De acordo com uma fonte citada pelo projeto NYC LGBT Historic Sites, uma iniciativa que documenta locais históricos e culturais associados a esses grupos, ele começou a se vestir como homem em sua adolescência e fugiu para os Estados Unidos depois que sua primeira esposa revelou seu gênero à polícia.

Foi lá que ele assumiu o nome de Murray H. Hall, antes de se casar pela segunda vez e se lançar em sua carreira política e de negócios.

‘Traição’

A escritora e arquivista Mel Reeve disse que houve uma “enorme repercussão” na imprensa após sua morte.

“As pessoas ficaram muito irritadas e se sentiram traídas, mas obviamente ele apenas viveu a sua vida como queria, ou seja, como homem”, disse ela.

The Topeka State Journal, 26 January 1901, Chronicling America: Historic American Newspapers, Library of Congress
O jornal The Topeka State Journal também publicou a história de Hall em 26 de janeiro de 1901 créditos: Library of Congress

Vários artigos em jornais publicaram artigos sobre o caso que refletiam algumas das atitudes daquela época.

O New York Times, por exemplo, acusou-o de “se fantasiar” com trajes masculinos.

Um colega da política disse ao New York Times: “Ele ia ao bar e tomava seu uísque como qualquer veterano, não fazia caretas. Se ele era uma mulher, deveria ter nascido homem, porque assim viveu e e aparentava ser”.

O jornal disse que Hall “exerceu considerável influência política na Tammany Hall”, uma organização que desempenhou um papel importante no controle da política na cidade e no Estado de Nova York.

Para outros, o que mais incomodava era o fato de que Hall havia votado, em uma época em que mulheres não tinham garantido o direito de voto nos EUA.

“Acho que sentiram que era uma transgressão”, acrescentou Reeve.

Auto tratamento de câncer

“Ele se comportou de uma forma que permitiu que existisse em espaços ao qual não teria acesso.”

A última residência de Murray Hall, um apartamento em Greenwich Village, em Nova York
A última residência de Murray Hall foi um apartamento no Greenwich Village, em Nova York créditos: BBC

O New York Times disse que Hall sofria de câncer de mama há vários anos e especulou que não havia procurado atendimento médico devido ao medo de que seu segredo viesse à tona.

Ele havia, no entanto, acumulado uma coleção de livros de medicina que usou para se tratar.

Quando Hall finalmente consultou um médico, descobriu que lhe restavam poucos dias de vida.

Sua esposa morrera anos antes, deixando uma filha adotiva como única herdeira.

A história de Murray Hall será lembrada numa oficina da Biblioteca Feminina de Glasgow, na Escócia.

Sue John, da biblioteca, diz que histórias como a de Murray Hall ajudam a ampliar nossa visão da história.

Sue John
Sue John diz que histórias como a de Murray Hall ajudam a ampliar nossa visão da História créditos: BBC

“Caso contrário, ficamos com um conhecimento parcial da História, que é quase toda sobre os homens brancos”, diz ela.

O local da última residência de Hall em Nova York, um apartamento no Greenwich Village, em Nova York, é destacado pelo NYC LGBT Historic Sites Project.

“Se você é uma criança trans ou uma criança que não se adapta a um gênero e você olha para aquela história e vê que Murray Hall viveu sua vida sem o apoio de ninguém, isso é inspirador”, diz Ken Lustbader, do projeto.

“Essas preciosidades da história dão uma sensação de conexão com o passado e um sentimento de orgulho e pertencimento”.

Lustbader, que mora perto do antigo apartamento de Murray Hall, foi visitar seu túmulo anônimo no Cemitério Mount Olivet, no Queens, Nova York, no início deste ano.

Sepultura anônima de Murray Hall no Cemitério Mount Olivet, em Queens, Nova York
Sepultura anônima de Murray Hall no Cemitério Mount Olivet, em Queens, Nova York créditos: Google/BBC

Segundo o New York Times, Murray Hall foi enterrado vestido como mulher.

“Diante do túmulo, tive um momento imaginando que ele estava enterrado ali em roupas femininas, o que teria lhe provocado horror”, disse Lustbader.

“Senti que enviava uma mensagem para Murray Hall, dizendo: ‘não se preocupe, as pessoas conhecem a sua história e você não está mais sendo ridicularizado. Você está sendo reconhecido pela contribuição que fez, por sua própria luta pessoal e pelo que conseguiu alcançar, viver como homem, da maneira que preferia.”


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Escrito por: Gillian Sharpe - BBC Scotland

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