Não se pode falar de empreendedorismo feminino e, particularmente, da ilha do Fogo sem falar da Luísa Francisca Jorgensen. Como tudo começou?

Era funcionária pública, mas não estava satisfeita, pelo que concorri para uma vaga num projeto, para a ilha do Fogo. E ali conheci o meu marido, Morten Vincent, que veio da Dinamarca para fazer pesca desportiva. Voltamos para a Praia, mas depois regressamos ao Fogo. Sempre achei que tinha uma missão a cumprir nessa ilha. Comecei por trabalhar como professora, dando aulas de economia no Liceu, e pouco a pouco fui fazendo pequenas coisas no mundo empresarial. Uma vez que o meu marido amava a pesca desportiva, começamos a explorar a atividade de forma empresarial. Registei a nossa primeira empresa Fogo Seafishing, e, ao mesmo tempo que dava aulas, fazia 'transfer' dos clientes do aeroporto para os hotéis, levava-os também para o porto, onde apanhavam o barco. Nessa altura, representávamos uma agência de viagens e fazíamos alguns serviços turísticos, mas um dia pensei: porquê representar alguém e não ser eu própria a fazer? E assim resolvemos investir em quartos e piscina e remodelamos a nossa casa e começamos a receber os clientes que vinham pescar com meu marido. Aí já oferecíamos um pacote mais completo que incluía alojamento, alimentação 'transfer' e pesca. A par disso, quando tínhamos excedentes de peixe, fazia a comercialização do mesmo, enviando a Praia para vender nos hotéis e também no Fogo, no meu próprio carro, vendia e fazia distribuição.

E não mais paraste...

Não. De repente começamos a comprar terrenos. Lembro-me que os primeiros lotes os troquei pelo meu carro que não conseguia vender. Daí sempre que tínhamos oportunidades, comprávamos e vendíamos e assim conseguimos angariar vários investidores estrangeiros para ilha do Fogo. Nesta altura já tínhamos adquirido o sobrado onde hoje temos a funcionar a Casa Colonial e a agência ZebraTravel e o restaurante.

Nesse processo, há sempre dificuldades. Quais foram as que experimentou no início?

A burocracia na abertura de empresa. Houve falta de informações, dificuldade no acesso ao crédito e de encontrar pessoas para trabalhar.

E os desafios continuam…

Todos os dias. No início, estive cinco anos sem férias. Trabalhava de 12 a 14 horas por dia, sem sábados, sem domingos. Depois há os desafios da burocracia e do financiamento. A luta é constante. Sem perseverança e determinação, uma pessoa acaba por desistir. Mas a expressão “não consigo” não faz parte de mim.

Mas olhando para trás, pelo percurso que já fizeste, há satisfações, obviamente…

Claro. A maior delas é não depender de ninguém. A sensação de liberdade, de seres dona do teu destino e de saber que podes fazer algo útil para a sociedade. É gratificante. Claro que às vezes era assustador. Com o aproximar do final do mês, a pensar nos encargos, nos pagamentos, mas no final sempre soube dar a volta. Por exemplo, ficámos mais de 5 anos sem salário e sem tirar férias, trabalhando muitas vezes sem folgas e sem feriados e domingos.

E sobra tempo para a família e outras coisas?

O meu dia começa entre as cinco e cinco e meia da manhã, com os meus exercícios físicos. Pratico ioga e meditação, o que ajuda imenso. Tenho outros compromissos, faço parte de várias organizações, não paro (risos). Mas ainda me sobra tempo para a família. Procuramos fazer férias juntos e envolvo os meus filhos em todas as minhas atividades.

Alguma vez sentiste que pelo facto de seres mulher atrapalhou o lado profissional?

Nunca! Não atrapalha nem vai atrapalhar. Tenho muito orgulho do que sou e sempre fui muito encorajada e motivada a continuar.

Como vês a mulher cabo-verdiana relativamente a abraçar causas, enfrentar desafios e ser verdadeira empreendedora?

A mulher cabo-verdiana nasceu para ser empreendedora. O que lhe falta é o foco e muitas vezes precisam de um empurrão. Já demos provas que conseguimos. Nas palestras que costumo dar digo sempre as mulheres para nunca temerem e acreditarem que são capazes.

E quem empreende nunca para. Quais são os próximos projetos?

Estamos a preparámo-nos para abrimos a segunda casa colonial. Queremos continuar nesse nicho dos sobrados, valorizar o que é nosso e é genuíno. Também já temos um terreno a sete quilómetros de São Filipe, onde iremos construir um 'Eco Lodge'. Temos várias ideias para implementar nesse sítio.

Que conselhos deixas às mulheres, particularmente as mais jovens que perspetivam iniciar uma carreira?

Nunca desistir! Devem seguir seus sonhos, mads, acima de tudo, devem fazer o que gostam. O dinheiro é uma consequência, mas sem pormos o coração no negócio, não haverá sucesso.

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