O teu percurso é curioso e interessante.  Foste para estudar medicina e acabaste como cake designer ou simplesmente decoradora de bolos. Conta-nos como se deu essa mudança?

Na verdade, comecei por estudar medicina. Fiz metade do curso na Universidade Federal de Goiás, Brasil. Por algum tempo, tinha certeza absoluta que era aquilo que queria para mim, até que começou a faltar algo. Comecei a sentir assim depois de algum tempo a acompanhar doentes no hospital universitário. Depois de um longo conflito interno, começou a ficar claro que aquela paixão que tinha pela cozinha, pelos sabores, texturas, cheiros e temperos deveria ser muito mais que um hobbie.

E obviamente, a medicina perdeu…

Sim. Deixei o curso de medicina e fui cursar gastronomia. De regresso a Cabo Verde, ingressei na Escola de Hotelaria e Turismo como monitora nos cursos de cozinha e também de pastelaria. Passados alguns anos, começou novamente a faltar algo em mim. Onde estava não conseguia dar vazão à necessidade de criar, inovar, fazer da cozinha uma arte. Estava fascinada pela pastelaria. No mercado, os bolos eram pouco criativos, com pouca plasticidade, não se brincava com as cores, formas e com imaginação.

Dai a criação do Atelier Pimentel?

Sim. O Atelier Pimentel foi criado para isso: ajudar as crianças a ter uma festinha com toda a magia da sua imaginação. Abrimos o Atelier, inovamos e trouxemos para o mercado um novo conceito de bolos e doces para festinhas de aniversário infantis. De há cinco anos para cá, a nossa realidade tem sido um desafio constante para nos superarmos.

Como foi no inicio? Que dificuldades tiveste?     

A primeira grande dificuldade foi conseguir crédito, financiamento bancário. Abrimos a empresa, mas conseguir crédito não foi possível. O apoio financeiro da família foi determinante. Foi assim que conseguimos começar. Depois, para reforçar, pedimos um crédito para consumo (muito mais caro em termos de juros) para alavancar a empresa. Conquistar clientes não foi tao difícil porque inovamos na comunicação em pastelaria no país. As nossas fotos, os textos, o enquadramento, a comunicação sempre foi muito apelativa. O desafio seguinte foi o acesso aos materiais básicos de pastelaria moderna. Quase nada se encontrava no mercado. Tive que ir buscar tudo em Portugal. E por lá também fiz um curso com uma conceituada cake designer brasileira. Os workshops especializados também foram muitos valiosos. A acrescentar tudo isso, a dificuldade em constituir equipa. Não tínhamos gente com conhecimento específico em decoração de bolos e doces com pasta americana. Todos os estagiários que passaram pelo Atelier foram formados no próprio contexto de trabalho. Sem isso, não poderíamos ter equipa para responder à demanda e nem ao menu que propusemos para a época.

Ultrapassados os constrangimentos e cinco anos depois, qual é a maior satisfação em seres uma empreendedora e teesr o teu próprio negócio?

Sobretudo é ter liberdade de criação e ação. Desafio constante, que me alimenta. Por outro lado, é uma satisfação enorme poder empregar mulheres e, com isso, ajudar famílias a ter mais estabilidade e uma vida condigna.

Como vês a mulher cabo-verdiana relativamente a abraçar causas, enfrentar desafios e serem verdadeiras empreendedoras?    

Penso que a pergunta resume a essência da mulher cabo-verdiana: é empreendedora sempre. Sem isso não consegue vencer na vida, nem que seja para apenas educar os filhos. As maiores causas no país são abraçadas por mulheres.

Ser mulher e empreendedora, em Cabo Verde, que desafios? Que constrangimentos?

Os desafios são conseguir conciliar a vida profissional, social e familiar; conseguir fazer os clientes entenderem que preço e valor de um produto são diferentes. E o que mais custa não são os materiais e equipamentos, mas o saber fazer. Como constrangimento é o facto de trabalhamos muito mais horas em comparação a uma pessoa que trabalha por contra de outrem. Por isso, acabamos por dedicar muito menos tempo à família e a nós próprias. Também continua a ser difícil aceder a recursos financeiros para desenvolver o negócio. Tudo é mais difícil no mercado cabo-verdiano: faltam coisas simples como embalagens, produtos e materiais. Precisamos ser muito mais criativos para conseguirmos nos manter no mercado.

Uma vez que que tens a tua base num mercado local (cidade da Praia), pensas expandir o negÓcio para outros mercados?

A expansão física para outros mercados nacionais ainda não é uma prioridade. Ainda não é sustentável. Antes de qualquer coisa é saber valorizar-se e valorizar o seu trabalho. Estudar, estudar e estudar sempre. É necessário estar preparada para se superar. Estudar não quer dizer, necessariamente, estar numa escola, num curso. Mas, é estar sempre atualizada com o que de melhor vai-se fazendo lá fora. Usar a internet e redes sociais como grandes ferramentas para adquirir conhecimento e estar em contacto com outras realidades, outras empreendedoras, outras formas de trabalhar e apresentar o seu trabalho. Mas os nossos produtos já estão em algumas ilhas, seja por encomenda ou revenda.

Qual é o teu próximo grande desafio profissional?         

O próximo desafio já está a acontecer. Mas, ainda não é oportuno revelarmos porque está em fase de maturação e finalização.

Caso tivesses poder de decisão, que medidas implementarias para que mais mulheres tivessem acesso aos mecanismos para implementarem suas ideias de negÓcio?

Três medidas: formação, financiamento e educação. Apostaria muito mais ainda na formação profissional em áreas específicas, nas quais há grandes lacunas no país. Isto permitiria às famílias desenvolver pequenos negócios estruturados, legalizados, bem geridos e sucedidos. Assim, haveria diminuição da dependência económica das famílias em relação ao estado e aos emigrantes; linhas de crédito específicas para desenvolvimento de pequenos negócios familiares a juros bastante acessíveis; por fim, ensino básico no regime integral. As crianças estariam boa parte do dia na escola, com atividades diversificadas. Evitaria problemas de violação dos direitos das crianças e os pais poderia dedicar-se mais ao negócio, e, consequentemente, a economia desenvolveria.

Liliana Pimentel
créditos: cedida

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.