Tens um percurso curioso e interessante: psicóloga de formação, jornalista por uns tempos, desempenhaste ainda funções mais administrativas e hoje és uma micro empresária na área da decoração de eventos. Como surgiu essa veia empreendedora?

Pois é. formei-me em psicologia organizacional e nunca trabalhei na área. Quando surgiu o convite para trabalhar na ilha do Fogo em finais de 2012, já tinha em mente que queria trabalhar por conta própria, queria ser independente, controlar o meu tempo e gerir a minha vida. Em 2016, comecei a dar os primeiros passos. Juntamente com o meu marido Lucindin Teixeira, criamos uma empresa Papelaria Sobrado, Lda. No entanto, tivemos sérios problemas com o financiamento junto à banca e infelizmente não conseguimos financiamento por considerarem o projeto inviável. No entanto, meus pais nos ajudaram e conseguimos abrir a nossa empresa, que engloba a venda de equipamentos desportivos, que não existia na região Fogo e Brava. Isso foi uma mais-valia para a região e um bom negócio para nós.

Como surge a decoração no teu caminho?

Quando abrimos a loja, ainda não éramos conhecidos. Então comecei a ficar aborrecida por estar dentro de uma loja à espera de clientes, sentia-me um pouco deprimida porque sou uma pessoa bastante ativa e produtiva. Tinha algumas coisas à venda para decorar festas de aniversários. Contudo, não tinha tudo obviamente. E quando os clientes perguntavam se tinha um ou outro artigo, vi que era possível fazê-los e comecei a preencher o meu “tempo morto”, ou seja, o meu tempo sem clientes na loja a fazer lembrancinhas de aniversário, casamento, batizados entre outros. E assim foram surgindo mais pedidos e a cada pedido tinha que pesquisar na internet para poder saber como fazer. Tenho um lema que devo à minha amiga Melany Vieira, que vive nos EUA e é também uma empreendedora: nunca digo ao cliente que não tenho um produto. Digo sempre que não tenho de momento, mas que chegará dentro de dias. Assim, fui fazendo as coisas e apanhando o gosto também. Graças a Deus, o negócio foi crescendo e hoje tenho mais dois jovens a trabalharem comigo.

Pelo pouco que contaste não foi fácil. Que outras dificuldades experimentaste?

Como já disse, a nossa maior dificuldade foi em conseguir financiamento, mas graças a Deus tenho uns pais fantásticos que estão sempre disponíveis em me ajudar e apoiar.

Qual seria a tua grande ambição nessa área?

No que diz respeito à decoração e arranjos de flores, é conseguir chegar ao mercado nacional e à nossa comunidade emigrada nos EUA e não só. No entanto, sempre que partilho esta ideia com algumas pessoas, elas dizem: mas flores vêm dos EUA. Vou te contar um pequeno episódio: da última vez, respondi a um senhor desta forma: o senhor sabe que neste momento estão a fabricar sabonetes em Santo Antão? Deve saber igualmente que também neste momento estão a exportar para os EUA, China, Macau e que a Palmolive e mais outra marca está interessada naquele sabonete. Agora diga-me uma coisa: sabonetes não são fabricados nesses países e importados por Cabo Verde? O facto de importarmos um produto inviabiliza a exportação desse produto que é fabricado no nosso país? Aí ele ficou sem argumentos. Com isso quero dizer que existem muitas pessoas que tentam menosprezar o teu trabalho e ao invés de te incentivarem “colocam água na tua fervura”.

Qual é a maior satisfação em seres uma empreendedora e ter o teu próprio negócio?

Ter o poder sobre a gestão do meu tempo. Se tiver que viajar agora viajo, se quiser trabalhar em casa trabalho. Uma outra grande satisfação é saber que estou a contribuir para construção de um Cabo Verde melhor, pagando os meus impostos, empregando dois jovens que poderiam estar no desemprego, protegendo o ambiente ao reciclar garrafas pet, caixas de água e muito mais, transformando lixo em luxo. Acredito que se cada um fizer a sua parte, teremos um país melhor e um mundo melhor.

Como vês a mulher cabo-verdiana relativamente a abraçar causas, enfrentar desafios e serem verdadeiras empreendedoras?

A mulher cabo-verdiana é batalhadora. Cada vez mais, estamos a envolver em causas socias e não só. Admiro muito as vendedeiras ambulantes, peixeiras, aquelas que todas as manhãs acordam de madrugada em busca de um pão para a sua família. Considero que ainda há muito por se fazer até sermos verdadeiras empreendedoras. Isso porque, muitas mulheres têm ideias e projetos, mas não conseguem materializar-los. Contudo, existem grandes empreendedoras que hoje são empresárias de sucesso. Existem associações como a Morabi que trabalham para o empoderamento das mulheres, o que é muito bom. Mas penso que devia haver um esforço maior no sentido de um verdadeiro empoderamento. Por exemplo: se a vendedeira ambulante souber e ter as ferramentas necessárias para gerir o seu negócio, ela poderá traçar um plano e decidir que num prazo de doze meses o seu negócio passará a ter uma estrutura física e contando com mais um trabalhador. É necessário fazer as mulheres perceberem que existem muitas áreas ainda por serem exploradas e que podem traduzir-se em grandes negócios.

Quais são os grandes desafios e constrangimentos a vencer?

Nasci e cresci na cidade da Praia, onde em Cabo Verde, as mulheres têm mais oportunidades. Mas mesmo assim existem inúmeros constrangimentos que estão enraizados na nossa cultura. O papel atribuído à mulher e ao homem desde a tenra idade não ajuda muito. Um outro aspeto que nos dificulta enquanto mulher é o machismo. Por isso a mulher tem um caminho mais árduo a desbravar. Desde 2012 passei a viver na ilha do Fogo, onde as oportunidades são menores, as dificuldades são acrescidas e onde a questão do machismo é mais enraizada principalmente no interior. Para mim o grande desafio é vencer precisamente essa mentalidade de que a mulher não é capaz tal qual o homem é.

Uma vez que tens a tua base num mercado local, como tens feito para expandires o negócio?

Faço uso do facebook para a divulgação do meu trabalho e negócio. Esse é um excelente meio de divulgar o meu trabalho. Recebo pedidos de outras ilhas como Sal, Boa Vista e Santiago, e tenho pedidos além-fronteiras também, nomeadamente da França e dos EUA. Para os EUA conto sempre com a solidariedade de amigos que acabam por levar a encomenda e para as outras ilhas envio de barco. Mas como disse, Facebook ajudou-me e continua a ajudar-me e muito para divulgar e expandir o meu negócio. Hoje faço decoração de festas em todos os concelhos da ilha do Fogo, no ano passado fui fazer a decoração de um casamento na ilha de Santiago e tenho em perspetiva mais um outro em junho, também em Santiago. Para mim, o facebook serve para isso.

Que conselhos deixas às mulheres, particularmente as mais jovens que perspetivam iniciar uma carreira?

Ter foco no atingir o seu objetivo. Para isso, têm que ter um plano detalhado para poder saber onde está e como pretende atingir a sua meta. O caminho não é fácil. Mas temos é que batalhar e perseguir os nossos sonhos a cada dia. Procurem ajuda junto da Pró Empresa para a elaboração do plano de negócio se ainda não o tiverem. Procurem ajuda em outras instituições e/ou associações, a fim de conseguirem firmar-se. Como mulheres corremos o risco muitas vezes de sermos desrespeitadas, por isso devemos conhecer as leis do nosso país para não cair em certas ciladas.

Lia Barbosa
créditos: Fotos cedidas

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