“És mentora do projeto Kriola Empowering Kriola. O que te levou a cria-lo? 

Criei o projeto em 2001, quando comecei a trabalhar com sobreviventes de Violência Domestica e Assédio Sexual. Trabalhei durante treze anos como Conselheira e Diretora de abrigo de Sobreviventes de Violência Domestica. A partir de uma certa altura, comecei a organizar grupo de mulheres para trabalharmos na prevenção e a informar outras mulheres sobre os seus direitos. Vi que, na nossa comunidade, nos EUA, era necessário que houvesse um grupo de mulheres para trabalhar com mulheres, dai ter criado o projeto. Durante muito tempo, o projeto ficou só na sensibilização através da radio e da televisão onde passávamos menagens de prevenção. Nesse momento, atuamos como conselheiras às sobreviventes de violência domestica e abuso sexual. Trabalhamos nas linhas telefónicas de apoio, e somos chamadas aos hospitais para ir dar apoio às vitimas e também estamos presentes quando se faz o exame de corpo de delito, quando se aplica o chamado rape kit.

E como foi o impacto?

Enorme! Muitas mulheres, dentro e fora dos EUA, entravam em contacto comigo, pedindo apoio e eu fazia o encaminhamento quando sentia que elas estavam um pouco perdidas e não sabiam como lidar com o problema da violência. Foi a partir dali que tomei a decisão de tornar o projeto mais visível na comunidade. Criamos o grupo de conversa para contactar presencialmente com as mulheres, na comunidade de Brockton, ao invés de ser apenas através de chamadas telefónicas.

O que pretende m com o projeto?

Queremos empoderar as mulheres, apoia-las, ajuda-las a buscar forças para por fim ao ciclo de violência doméstica no qual no vivem; queremos que resgatem a sua auto estima e, acima de tudo, mostra-las que há um lugar e pessoas que estão aqui para ajudá-las. Que elas não estão sozinhas.

Obviamente que nessa questão da violência domestica, há sempre muitos entraves. Quais têm sido as principais dificuldades na implementação do projeto?

É pôr algumas mulheres que sofrem de violência a falar do problema e a denunciar o agressor. Muitas mulheres têm vergonha de participar nas conversas porque não querem que ninguém saiba do que passam.

E há sempre historias que marcam…

Em treze anos a trabalhar com vitimas de violência domestica e abuso sexual já vi e ouvi de tudo. Todavia, os casos que me marcam sempre são os que envolvem crianças que foram abusadas sexualmente. É muito difícil desligar e esquecer. Imagina saber que uma criança de um ano foi violada? Ai começas a questionar a humanidade e os seres humanos.

Quando se fala de empreendedorismo, a tendência é se pensar em negócio, em lucro. Mas tu enveredaste pelo outro lado do empreendedorismo.

É verdade. Pensa-se no empreendedorismo como algo que está ligado a um negócio com o qual se pode ganhar dinheiro. Mas o empreendedorismo social é muito necessário para que nos ajudemos uns aos outros e também para ajudar quem já perdeu a força e a fé.  É uma satisfação enorme saber que com isso podemos ajudar as pessoas a seguir em frente quando pensam, que estão perdidas e, por outro lado, mostrar às pessoas que já perderam a esperança que há sempre uma solução.

Como tem sido esta missão?

Nem sempre é fácil trabalhar com a nossa comunidade. Por mais que se faça há sempre quem tente desmotivar e deitar baixo o trabalho. Mas há que ser forte, lutar e usar o poder que está cá dentro, para que ninguém controle nossos objetivos e projetos. Desistir jamais porque há que se fazer a diferença na vida das mulheres, nem que seja de uma, duas ou três. Se assim for, para mim já é suficiente.

 E quais são os teus próximos projetos?

Continuar com o Kriola Empowering Kriola, a empoderar as mulheres através da sensibilização na rádio, televisão e media social e, mais tarde, quando concluir a n minha formação em Psicologia, abrir minha clinica.  Mas o meu maior sonho é trabalhar com os jovens, aqui e em cabo Verde, sobre questões relacionadas com a violência no namoro porque há muitos jovens que pensam que a violência baseada no género só acontece entre adultos.

Que mensagens deixas às mulheres?

Que se respeitem e estejam apenas em relações saudáveis. Há mulheres que pensam que merecem passar por aquilo, estarem em relações violentas. Confundem amor com outra coisa que mais não é do que maltrato. Temos que ensinar as meninas e as mulheres a serem independentes, a aprenderem a se amar em primeiro lugar e não sentirem que só são completas se tiverem um homem nas suas vidas.

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