Antes de mais, fala-nos um pouco de ti. Quem és tu?

Chamo-me Kleidir Fortes, tenho 30 anos e moro em Chã de Alecrim, São Vicente. Sou um adicto (dependente químico) em recuperação, rapper e ativista social. Comecei a consumir drogas aos 13 anos, ainda no liceu, por curiosidade e influência. Aos 16 anos, tornei-me num consumidor compulsivo e cheguei num estado degradante ao nível físico, emocional e também espiritual.

Passaste por péssimos momentos, mas conseguiste dar a volta. Qual foi o momento que assumiste que já era a hora de mudares de vida?

Foi quando perdi o meu emprego e passei a alimentar-me de restos, na lixeira da ilha do Sal. Aí tomei a consciência da vida miserável que levava e decidi dar-me uma nova oportunidade e procurei ajuda.

E foi esse teu percurso de drogas que te levou a abraçar o ativismo social e criar o projeto motivacional "Amor Próprio"? Em que consiste esse projeto?

Sim. Quis dar o meu contributo. No projeto, atuamos no campo da prevenção do uso das drogas e resgatamos o adito que ainda sofre por não conseguir largar a dependência. A nossa missão é promover a saúde e a motivação através da palavra e também da arte. Temos levado a nossa mensagem às comunidades, escolas e liceus, colónia de férias. Através do meu testemunho pessoal, fazemos campanhas de sensibilização porta a porta, nas comunidades, nas cidades da Praia e Mindelo. Intervimos também através da música por ser uma ferramenta que alcança massas. Por outro lado, criamos um grupo de autoajuda, um espaço adequado onde os adictos têm vez e voz.

Como tem sido o impacto das ações promovidas pelo projeto? Que mudanças tens observado?

Tem sido forte e positivo. A sociedade, de uma forma geral, tem aderido a essa luta e falar do problema deixou de ser um tabu, também graças a nossa abordagem.

Tens um lema que é “nkre ser um mudansa kun kre pa nha sociedade”…

Sim, quero ser agente de transformação. Não escondo nada sobre o meu percurso e dou o meu testemunho pessoal. A minha própria transformação de vida tem servido para influenciar outros jovens à mudança.

Como ativista social, que dificuldades enfrentas para fazeres o teu trabalho?

Principalmente nas deslocações entre as ilhas, para poder levar a minha mensagem pessoalmente aos outros adictos.

Como vês o engajamento e a atitude dos jovens cabo-verdianos face aos grandes problemas da atualidade, nomeadamente, a degradação ambiental, o desemprego, a violência urbana e de género, o consumo de drogas, entre outras?

Têm sido pouco pro ativos perante as adversidades. Reclamam, ao invés de enxergarem oportunidades em cada dificuldade e isso impede-os de crescer. Por outro lado, muitos estão focados no próprio ego e na ambição de ganhar dinheiro, ignorando os valores. Vejo uma geração que quer viver tudo rapidamente, quer estar sempre em festas e a consumir drogas e que tem pouca fé.

E, porque achas que isso acontece?

Falta o amor-próprio, proatividade, esforço, sacrifício e fé. Também porque os jovens andam a depositar os seus sonhos todos nas mãos das autoridades e responsáveis do país. E quando as respostas não são o que esperam, entram em colapso, desencadeiam lutas internas, que acaba por dar lugar à frustração. Depois, refugiam-se nas festas, nas drogas, adotando o slogan “depôs de sab morré ká nada “

Como pensas que a juventude cabo-verdiana pode contribuir para a mudança?

Precisam parar de reclamar e procurar soluções. Precisam participar mais, exigir mais de quem governa. No final das contas, o povo é que elege os governantes, portanto, precisamos de arcar com as consequências dos nossos atos e das nossas escolhas. Temos que ser conscientes. Enquanto acharmos que o nosso voto custa o preço de umas dezenas de sacos de cimentos ficaremos a choramingar para sempre. Não podemos nos vender por tão pouco e deixar que sejamos comprados com o nosso próprio dinheiro.

Quando olhas para as políticas de inserção e promoção da juventude, achas que estão adequadas ou falta algo que os decisores (governo central e local) têm que fazer?

O governo precisa de frear os investimentos nas infraestruturas e focar mais nas pessoas, apoiar e criar mais soluções para a juventude porque dela depende o futuro do país. Uma das medidas seria diminuir os festivais, que são espaços de promoção das drogas, nomeadamente do álcool. Também, deve deixar do discurso de criar mais emprego e investir na educação e na espiritualidade, porque a nossa sociedade está num grande vazio interior. É preciso intervir no problema do tráfico de drogas, que está destruindo a juventude. Trabalhar de verdade na reinserção social, que não tem vindo a passar de publicidade enganosa. Vou-te contar uma coisa. Vai fazer dois que terminei o meu tratamento na Comunidade Terapêutica e nada de conseguir um financiamento, nem sequer para o meu projeto social, quanto mais para o projeto de vida. Não passa de uma mentira a política de reintegração social. Mas encaro tudo isso não como um problema, mas como uma solução, um aprendizado, porque me ensina a ser pro ativo.

Tens algum recado que queres deixar aos jovens?

Cada jovem precisa ter consciência de que faz parte de uma família que está inserida numa comunidade que, por sua vez, forma a sociedade de um país e, consequentemente de um continente que faz parte do mundo. Posteriormente, deve assumir que se mudando positivamente a si próprio, pode contagiar o meio onde vive. É preciso que cada jovem seja mais colaborativo, que elimine o egocentrismo. Mas é igualmente urgente que a juventude tenha uma visão realista da vida.

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