Há um ditado conhecido de autoria do escritor, filósofo e poeta americano Ralph Waldo Emerson, que diz: “Não é o destino, é a jornada”.

Era assim que eu estava me sentindo no meio do Malzfabrik – um enorme centro de arte e design que começou como uma fábrica de malte há mais de um século – no bairro de Tempelhof, em Berlim. Andei 20 minutos da estação de metrô mais próxima, por ruas largas, arborizadas e quase vazias de outros pedestres, para alcançar esses imponentes prédios de tijolos vermelhos e sua praça principal.

Eu estava fora das típicas rotas turísticas da cidade e, como o Wi-Fi do meu celular continuava falhando (e a simpática mulher na recepção do Malzfabrik nunca tinha ouvido falar do “Kcymaerxthaere”), eu estava vagando por essa enorme propriedade industrial por mais de meia hora, procurando sinais de um universo paralelo. Encontrar o primeiro – uma placa em um pilar que descrevia os Sentrists, um povo tão autocentrado que o centro do universo muda um pouco quando um grupo deles se reúne – foi bastante fácil, mas os outros (incluindo uma sinalização escondida dentro do jardim de entrada do Malzfabrik) exigiram um pouco mais de investigação.

“Você está procurando o quê?”, perguntou minha amiga Maria, na casa de quem eu estava hospedada no bairro de Kreuzberg, em Berlim. Contei a ela sobre o Kcymaerxthaere, ou “Kcy” – uma experiência contínua, global e tridimensional de narração de histórias que tem 140 instalações, incluindo uma série de placas (ou “marcadores”) de bronze, na sua maioria quadrados, e “locais históricos” mais complexos, espalhados por seis continentes e 29 países. Cada instalação presta uma homenagem a um “universo paralelo” chamado Kcymaerxthaere e oferece partes de histórias que teriam ocorrido em ou ao redor de locais correspondentes em nosso mundo “linear”, mas dentro de uma dimensão alternativa.

Há marcadores em Perth e Las Vegas que tecem histórias da Tehachapi, a grande cultura de construção de estradas do Kcymaerxthaere, enquanto outros em Cingapura e Armênia giram em torno de histórias de Eliala Mei-Ning, uma mulher cuja voz era tão bonita que não poderia ser escondida. Embora muitos dos marcadores sejam unidades independentes, outros (incluindo os cinco encontrados em Malzfabrik, em Berlim) funcionam em grupos – e procurá-los é parte da experiência.

O Malzfabrik em Berlim, na Alemanha
O Malzfabrik em Berlim, na Alemanha, abriga vários placas em homenagem ao Kcymaerxthaere, um universo paralelo créditos: Laura Kiniry

Os marcadores Kcymaerxthaere também existem em lugares distantes como a montanhosa Terra do Fogo do Chile e ao longo de uma margem do rio perto de Vilnius, na Lituânia. “Além disso, temos um pronto para ir para a Lua”, disse Eames Demetrios, “geógrafo à solta” oficial do projeto.

A história fictícia de autoria de Demetrios, Wartime California, sobre a invasão e ocupação de San Francisco por Los Angeles pelo direito à água, que ele escreveu no início dos anos 90, foi um passo importante no desenvolvimento deste universo. Mas, em vez de escrever um romance, o cineasta, autor e artista (além de neto da lendária dupla americana de design moderno Charles e Ray Eames) decidiu que o Kcymaerxthaere funcionaria ainda melhor como uma exibição global interativa.

“Eu sempre achei que a maioria dos filmes e romances é muito egocêntrica”, disse Demetrios, “seja Guerra nas Estrelas ou Orgulho e Preconceito, você está vendo tudo pelas lentes desses personagens. Mas não é assim que o mundo realmente funciona. As pessoas que vemos no restaurante não estão lá para nós – estão vivendo suas próprias vidas. Então pensei: por que não criar um mundo em que o mundo veio primeiro e a história apareceu depois?”

De óculos esportivos, uma cabeça cheia de cabelos brancos acinzentados e um sorriso de menino, Demetrios parece uma eterna criança, altamente inteligente e igualmente criativa.

Com permissão dos proprietários locais, Demetrios instalou seu primeiro marcador Kcymaerxthaere em 2003 em Atenas “linear”, uma cidade no estado americano da Geórgia (ele usa a palavra “linear” para diferenciar nosso mundo do seu mundo paralelo), embora o projeto realmente tenha começado a florescer na última década.

As instalações mais recentes foram feitas no Nepal, onde Demetrios está trabalhando com a comunidade Sherpa local em um conjunto de marcadores que pode ser percorrido a cerca de 64 km do Everest; e em Portugal, que eventualmente abrigará uma estrela de sete pontas que se estende por quase 2.000 km de marcador em marcador ao longo do país. Seu marcador inicial – uma placa circular voltada para o céu que fica em frente a uma pequena igreja branca – já foi instalado na Madeira, uma região autônoma de Portugal na costa noroeste da África.

A maioria dos marcadores da Kcymaerxthaere é encontrada em lugares distantes, como os matagais à beira da estrada no alto deserto de Utah, porque nem sempre é fácil garantir a combinação certa de participantes dispostos e um local que possa suportar o teste do tempo. Existem até alguns marcadores – como “A vida de Bala Qhova”, da Indonésia – que são totalmente subaquáticos.

“Bala Qhova é um jovem que domesticou pela primeira vez uma criatura chamada a toupeira da água”, disse Demetrios, “e a instalação em duas partes [descrevendo esta parte de sua história] fica a cerca de 12 metros abaixo da água na costa norte de Bali. Você pode nadar até lá e ter um gostinho da experiência se estiver com um snorkel, embora seja muito mais fácil ver como um mergulhador (com equipamento).”

Mas, apesar da amplitude do projeto, a maioria das pessoas não faz ideia de que o Kcymaerxthaere existe.

“Acho que é em parte porque é difícil para elas costurarem o cenário geral, porque o cenário geral é muito grande”, disse Demetrios.

É verdade. Encontre um marcador Kcymaerxthaere sem contexto e é provável que você o ignore sem pensar duas vezes. Mas para aqueles familiarizados com o universo paralelo de Demetrios (aprendi sobre o Kcy há mais de uma década por meio de um artigo de revista), cada visita é como achar uma peça de um quebra-cabeça – que literalmente se estende pelo mundo inteiro.

Placa do Kcymaerxthaere
Cada placa conta pedaços de histórias do Kcymaerxthaere que teriam ocorrido em locais correspondentes aos do nosso mundo 'linear' créditos: Laura Kiniry

Em outubro passado, me deparei com meu primeiro marcador acidental de Kcymaerxthaere: uma placa dedicada ao ‘Distrito das Sombras de Rhyolite’, que está em Rhyolite ‘linear’, uma das cidades fantasmas mais bem preservadas de Nevada, a leste do Parque Nacional do Vale da Morte, através da fronteira entre Califórnia e Nevada (EUA). Mas não foi meu primeiro marcador de verdade.

Em 2008, arrastei meu então namorado pelo frio arrebatador de dezembro em Nova York para o East Village, onde procuramos uma placa dedicada à “Venda de Manhattan” (marcando o local do universo Kcy em que Manhattan mudou de mãos por causa de uma dívida de jogo, o que “transformou a cidade para sempre”, de acordo com a placa) nas escadas externas do porão de um bar (o bar já fechou e a placa é um dos poucos marcadores Kcy que aguardam novos lares).

Mas o “Distrito das Sombras” marcou a primeira vez em que o Kcymaerxthaere me encontrou. Eu estava vagando entre as dezenas de esculturas ao ar livre do Museu Rhyolite – uma mistura de figuras brancas fantasmagóricas feitas de tecido embebido em gesso contrastando com a imponente Lady Desert: A Vênus de Nevada, que se parece com uma imagem de computador pixelizada composta de blocos de concreto – quando a vi: uma placa no chão, cercada por terra, a poucos metros do pé de um mineiro de bronze de 7,3m de altura ao lado do seu pinguim.

Com as estruturas em ruínas da cidade como cenário, parecia que eu havia chegado a outro mundo.

Como “Distrito das Sombras” de Rhyolite, a maioria das instalações da Kcymaerxthaere são placas quadradas de bronze, cada uma decorada com algumas centenas de palavras descrevendo o que aconteceu ali no universo Kcy, embora Demetrios também tenha estabelecido alguns “locais históricos” que permitem mais interação.

Eames Demetrios
Eames Demetrios, o 'geógrafo à solta' do projeto, instalou marcadores em 29 países créditos: Eames Demetrios

Esses incluem o “Healing Palindrome” em New Harmony, Indiana, uma instalação no solo em forma de ferradura composta por 19 lajes de concreto de formato irregular. Cada laje conta uma parte de uma história sobre um povo biologicamente aquático que cria formas na água para conversar – uma história que continua nos locais de Kcy no Chile, na Indonésia e na Índia.

Também há a Plaza de la Luna em Madri, Espanha: uma placa redonda que lembra uma tampa de bueiro e representa uma porta de entrada para o Umbrasphaere, a conexão entre sombras e escuridão. “A parte mais escura de cada sombra está conectada à parte mais escura da próxima”, disse Demetrios, uma mente complexa que representa exatamente o tipo de imagem instigante que o Kcy – e o próprio Demetrios – costumam transmitir.

“Portanto, se você for cuidadoso, poderá usá-lo (o sinal em Madri) para viajar. De fato, sua forma e localização (a cerca de uma quadra da Gran Vía da cidade) dão a sensação de que você realmente está em um portal”, explicou.

Um dos pontos mais instagramáveis de Kcymaerxthaere é Krblin Jihn Kabin, em Joshua Tree, Califórnia: entre palmeiras do deserto e plantas lenhosas, há este cabana abandonada, com suas paredes em ruínas e os resíduos de uma bússola de nove pontos.

Existe uma beleza quase etérea em um projeto de tão grande escala, que é melhor apreciado em partes – como o nosso mundo linear. No entanto, uma das esperanças de longo prazo do Demetrios é que, eventualmente, a maioria das pessoas esteja a um dia de carro de uma instalação do Kcymaerxthaere, para que possam aprender sobre o Kcy, na escola ou na internet, e depois pegar o carro ou um ônibus para ir conhecê-lo.

Para ajudar a espalhar a notícia, Demetrios montou mostras em galerias, palestras, um site com um mapa de todas as instalações da Kcy e suas coordenadas, uma página no Instagram, cerimônias de instalação de placas, passeios ocasionais de ônibus e a pé e um concurso de soletrar. Ele também criou um livro de arte de edição limitada chamado Kcymaerxthaere: The Story So Far…, destacando os primeiros 138 lugares do projeto, destinados às comunidades onde ficam as instalações.

“[Então] eles têm algo para ler e ao qual fazer referência e isso pode ajudá-los a entender e retransmitir melhor o projeto”, disse Demetrios.

Perguntado se viajantes “lineares” procurarão os lugares de Kcymaerxthaere da mesma maneira que fazem peregrinações musicais e viagens de carro pelo interior, Demetrios disse: “Isso acontecerá quando deve acontecer”.

Enquanto isso, terei o Malzfabrik de Berlim só para mim.

Clique para assinar o canal da BBC News Brasil no YouTube


Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

https://www.youtube.com/watch?v=hXyjDHNvn1Q

https://www.youtube.com/watch?v=S0W0TkwAulU

https://www.youtube.com/watch?v=f9esQy-3-_4&t=15s

Escrito por: Laura Kiniry - BBC Travel

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
Os textos do parceiro BBC News estão escritos total ou parcialmente em português do Brasil.