A segunda longa metragem da carreira do cineasta moçambicano João Ribeiro, "AvóDezanove e o Segredo do Soviético", é uma ficção adaptada do romance do escritor angolano Ondjaki. O enredo é uma sátira social ambientada na década de 80, que retrata uma história de amor e a relação social das pessoas com o espaço em que elas vivem.

Para o cineasta, o filme retrata extamente o objetivo que ele tem como realizador, de fazer ficção baseada em textos de escritores da língua portuguesa.

"Este é o meu objetivo, é contar histórias que são escritas, passar essas histórias para a tela, aquelas que dizem alguma coisa, que poderia ter acontecido em Moçambique, com as quais eu me relaciono do ponto de vista emocional, do ponto de vista da história do passado e, fundamentalmente, contam as histórias que transmitem”, conta João Ribeiro.

Do sonho a realidade

"AvóDezanove é definido pelo cineasta como um filme de aventura, que traz aos espetadores um sonho que se torna realidade dentro da história.

"A história é simples, é uma história de descoberta, é uma história de luta por um espaço. É uma história de amor entre as pessoas e a terra que é delas, que é onde elas vivem. É uma sátira, portanto, ela põe em causa determinadas decisões do Estado, Governo para com aquilo que as pessoas e os demais [questionam]”, define o cineasta.

Para João Ribeiro a história do filme mostra uma intensa relação entre Moçambique e Angola. O enredo se passa em Luanda, no bairro do Bispo, mas tem muitas semelhanças com a realidade de outros países africanos.

"Temos um passado comum"

"Tenho uma relação afetiva, porque falomos todos a mesma língua, temos um passado comum. Esta história particularmente localiza-se em Angola, em Luanda concretamente, no bairro do bipo. É uma história meio autobiográfica do seu autor, portanto a pessoa que escreve que é o Ondjaki, claro, com muita ficção pelo meio, com eu digo, um sonho dentro de outro sonho.

"Portanto, ela retrata essa vida, mas podia ter passado perfeitamente em Moçambique, pois nós temos esse passado comum, partilhamos muitas vitórias, muitas frustrações, muitas lutas comuns, e até hoje essa relação permanece. Os horizontes são muito iguais, as narrativas são muito similares e inclusive esse continente, esses dois países tem muito a ver, as construções, as pessoas, a maneira de ser. Claro, cada um com a sua autenticidade, com a sua identidade própria, mas essa história por ser universal, por poder ser contada dessa forma, então também me atraiu em fazer aqui”, compara o cineasta.

Amizades que terminam em filmes

Sobre o fator decisivo para a escolha da ficção a ser contada, João Ribeiro conta: "Uma grande amizade com o autor que me criou o espaço, portanto que me deu autorização para trabalhar o seu próprio conto, a sua própria história. Portanto, tudo isso pesa na altura de decidir o que vamos fazer.

Mas o cineasta explica o elemento central da narrativa: "Obviamente a história, as crianças e o fato de poder utilizar as crianças como um elemento fundamental nesta narrativa e o humor que está implícito nas suas ações, em todos os seus diálogos, que é outra coisa que eu também gosto muito, e que vem de outros filmes meus onde o texto escrito e a palavra se misturam para contar a história, reações, misturam com esta palavra, este jogo, aquilo que se diz por trás da frase”.

Como é o cenário cinematográfico em África?

Com o lançamento da longa metragem, o João Ribeiro analisa o cenário cinematográfico africano, que é bastante diferenciado em alguns países do continente. Algumas regiões possuem mais tradição na produção dos filmes, porém isso não se reflete em países como Angola e Moçambique.

"Em relação a Moçambique e Angola, os países lusófonos africanos de expressão portuguesa, digamos assim, a coisa é diferente. Nós temos grandes dificuldades de produção, produzimos bastante menos e os filmes, por isso, circulam menos", explica Ribeiro.

Mas há momentos únicos neste mundo, de acordo com o cineasta "este ano, ou o ano passado digamos assim, Moçambique teve algumas coisas muito positivas, mas também, penso eu, inéditas, porque conseguimos fazer quatro longa metragens, terminar quatro longa metragens quase ao mesmo tempo, num espaço de um ano e meio ou dois anos, o que é uma coisa que eu acho que num horizonte de Moçambique não vai voltar a acontecer nos próximos anos, porque é uma realidade, é uma dificuldade de fazer um filme, quanto mais acabar quatro filmes quase”.

O cinema em Moçambique

O cineasta João Ribeiro espera que leis de incentivo sejam colocadas em prática em Moçambique para que novos filmes possam ser realizados no país.

"Sim, é o que todos queremos não é? Portanto nós, cada um a sua maneira, trabalha para que o cinema se faça, para que esse tipo de filme de autor, esse tipo de filme que não pretende ter um filme de sucesso de bilhetera, mas pretende contar histórias, e pretende também claro um dia vir a ser um sucesso de bilhetera, por que não? Todos nós lutamos para isso, é preciso que haja algumsa condições que ainda não foram criadas e esperamos que o mais breve possível faça essa lei que agora existe que foi aprovada”, concluiu o cineasta.

A estreia do "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" será na abertura da 5ª Semana do Cinema Africano em Moçambique. Depois da exibição o filme ganhará as telas do cinema comercial.

por:content_author: Marina Oliveto

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.