Sei que vais dizer que é difícil falares de ti, sobre quem és. Mas quem vai ler a entrevista precisa saber um pouco sobre a Helga…

Sim, é difícil responder sobre quem sou eu. Se tivesse que fazê-lo em forma de poesia diria que sou de quente e frio, de calmaria e desassossego, de paz e angústia. Tenho espinhos e flores. E flores com espinho. Sou pedaço da flor. Sinto-me uma bússola que orienta quem vai e quem vem, gosto mais de quem vem. Sou uma menina do mar, do sol e do vento, mas também das marés, das ondas, da lua. Sou a fraca e a forte… tem dias.

Fizeste uma mudança na tua vida. Trocaste a cosmopolita Mindelo e o conforto do lar, o calor da família pelo pacato Paul, em santo Antão. O que te levou a fazer essa mudança?

Foi em 2016 que tomei a decisão. Foi um ano muito cansativo para mim e aos poucos foi “caindo a ficha” e vi que estava fora do meu propósito. Acreditei que o cansaço, muitas vezes, vinha do facto de não estar feliz com o que fazia e que o trabalho não era sinónimo de prazer. Naquela altura, resolvi conhecer Paul para descansar, e foi aqui que eu vi que tinha sido enganada pela vida e que estava a fugir do meu propósito.

Que aconteceu concretamente e que provocou esse clique?

Não sei bem explicar. Foi uma mistura de coisas. Foi como se respirasse de novo. Parei, acalmei-me e percebi que era possível viver com calma, sem correrias, sem estar constantemente ao telefone devido ao trabalho. Senti uma paz que me fez ver que era possível viver de outra forma e que às vezes é preciso refrear.

E foi então que pensaste no projeto Escola Viva. Como surge a ideia?

Na altura em que fui conhecer Paul, se calhar por ter estado numa fase de querer muito entrar numa outra realidade, e por Paul ser um meio pacato, pude observar uma situação que me estava a passar ao lado: o uso abusivo e nocivo de bebidas alcoólicas. Imediatamente quis fazer algo, pois penso que temos que mudar quando algo nos incomoda. Voltei para São Vicente e no mês de janeiro de 2017 quase que parei a minha empresa e comecei a montar o projeto. Estudei, fiz alguns contactos e tracei o plano que seria sim no Paul, na comunidade e com crianças e adolescentes. Cheguei no Paul, de malas feitas na primeira semana de maio e no final deste mês encontrei-me com a delegada do Ministério da Educação, que também queria fazer algo para mudar consciências. Assim, o que eu tinha trazido foi adaptado ao meio escolar, pois, é la que o público está. Iniciamos uma série de etapas que culminou num ano do projeto.

E o que mudou com a implementação deste projeto?

Para além da parte de sensibilização sobre o uso precoce e ao abuso e consumo irresponsável, o projeto também abrangia as comunidades e esteve em diversas. Começámos a campanha “álcool para menores de 18 anos é proibido” numa ação preventiva, ambicionando diminuir futuramente – médio longo prazo — o uso abusivo e o número de doentes crónicos. O que mais mudou, acredito, foi o facto de termos pegado nesta campanha e termos feito dela uma bandeira, de forma a que se falasse de leis, penalizações legais para infratores, e acima de tudo, as próprias crianças e adolescentes estarem conscientes do problema. Fizemos deles potenciais motores da transformação deles próprios, mas também das suas comunidades.

Confessaste-me que o projeto tem passado por momentos menos bons, devido à falta de financiamento para as atividades. O que me leva a perguntar-te, há de facto uma atenção e um olhar sério para os projetos sociais do tipo ou sentes que andas a remar contra uma maré difícil de serenar?

Sou muito crítica em relação ao envolvimento das entidades que deveriam abraçar este tipo de projeto. Trata-se de um projeto com “pés e cabeça”, bem pensado e estruturado, inicialmente, para um período de três anos. Mas não tem sido fácil. Nós, que estamos no terreno, queremos fazer mudanças, e sabemos onde devemos “atacar”, mas dependemos, na maior parte das vezes das entidades supremas do nosso país. Infelizmente, quando se mora “nas ilhas” os recursos passam a ser escassos e demoram a cá chegar. É uma sensação de impotência. Queremos fazer, temos o saber fazer, mas não há recursos e condições essenciais para quem trabalha no terreno. O problema do uso precoce e abusivo do álcool é grave no nosso país, mas para conseguirmos dar luta a médio e longo prazo há coisas que deverão ser revistas, nomeadamente, os critérios de avaliação e aprovação de projetos, para que se possa trabalhar de forma continuada na prevenção. Só mudaremos consciências se trabalharmos este tema na prevenção precoce. Mas quero mencionar a sensibilidade da Ministra da Educação cujo engajamento fez com que o projeto fosse executado ano letivo 2017/2018.

Mas ainda com todas as adversidades, és imparável e vens implementando uma outra interessante iniciativa que é o teatro do oprimido. Para quem não sabe, o que é teatro do oprimido e o que buscas com esse projeto?

O teatro do oprimido é uma forma de vida. É uma metodologia teatral que reúne vários exercícios e técnicas segundo o olhar do grande Augusto Boal e que visa, de entre outros objetivos, a democratização da produção e representação teatral, para que este esteja acessível às camadas socialmente mais desfavorecidas. Resumidamente é devolver o teatro ao povo para que possam vivenciar de outra forma o seu quotidiano. Como animadora, busco novas ferramentas para conseguir chegar às pessoas, para juntos pensarmos e agirmos segunda a nossa sociedade. Então uso o que aprendi para, através de oficinas de TO, viver, discutir e auxiliar na transformação social da nossa sociedade. É sempre num trabalho coletivo com todos que nele estão envolvidos.

E que resultados tens vindo a observar?

Tem sido fantástico a implementação deste projeto, que tem andado um pouco por Santo Antão e que já conta com cinco núcleos que chamo de “Núcleos Laboratórios de Teatro do Oprimido em Santo Antão”. Observo que, nos sítios onde o projeto chega, as pessoas estão curiosas e sedentas de mais informações e conhecimento, que aos poucos vão-se envolvendo no processo e que aproveitam as oficinas para se expandirem enquanto pessoas, melhorar a sua relação com o outro e pensar a sua comunidade. Há debates durante as oficinas, que duram um mês, e no final de cada, apresentamos duas peças de teatro. O público, nas comunidades, tem aderido e participado das apresentações.

És uma feminista assumida. Isso levou-te a pensar e realizar um programa radiofónico de empoderamento da mulher, mas que acaba também por atingir as comunidades do Paul e não só. Conta-me um pouco sobre “Balila”

Mais uma paixão. Aliás, já não sei trabalhar sem prazer, incomoda-me quando não tiro satisfação no que faço. Voluntariei-me como colaboradora na Rádio Comunitária do Paul – a RCM- e desenhei o programa “Balila” que aborda questões femininas, mas também questões abrangentes ao ser humano, desde direitos humanos, a LGBTQ+, a proteção de abuso sexual infantil, questões de género, entre outras. “Balila” trata, acima de tudo, do ser humano, assumindo empatia por quem nos escuta, deixando uma mensagem positiva, com reflexões, pensamentos e poesia. No “Balila” fala-se de e com amor, a tudo e todos. Mas claramente o feminismo é uma das grandes bandeiras, e bem levantada, do programa “Balila”.

E que feedback tens recebido da tua audiência?

O coordenador mantém-me lá (risos), o que já não é mau sinal, mas tenho tido feedback positivo das pessoas que vou encontrando na rua. Dizem que gostam dos temas, da abordagem e fazem-me sugestões. Peço sempre criticas aos colegas e às outras pessoas, pois acredito que é uma forma de melhorar.

Alguma vez sentiste que pelo facto de seres jovem, as pessoas não levam à serio as tuas ideias e teus projetos ou olham para ti de forma avessa?

(risos) Quantas vezes, mas já não ligo! Tive um grande mestre que me ensinou que, no trabalho social, não adianta agradar ou conquistar mil, pois, um já deve ser visto como grande vitória. Às vezes, sinto e vejo na cara das pessoas descrença, indiferença em relação aos meus projetos. Muitas vezes são pessoas bem próximas, mas em relação a essas, já interiorizaram que sou teimosa e corro atrás. Relativamente às pessoas que preciso para que o projeto ande, procuro convencê-las. Se ainda assim ver que não me levam a sério mudo de tática: mentalizo que tudo vai dar certo e resulta.

Quando olhas para a comunidade onde estás inserida, quando observas o que passa atualmente, como vês o engajamento e a atitude dos jovens cabo-verdianos face aos grandes problemas da atualidade?

Sinto uma dualidade. Vejo muita passividade, mas às vezes do nada, aparece um e digo “uau, força, é mesmo isso”. Mas o que mais vejo é passividade, um certo egoísmo e um apontar o dedo ao outro e tirar de cima do ombro as responsabilidades.

Porque achas que a juventude não se envolve muito nas grandes questões do país? O que falta?

Noto que para além da passividade, paira uma certa desmotivação ou descrença. Por outro lado, falta força, foco e união e, acima de tudo, um despertar de consciência. E precisamos de ter consciência. Parecemos um cardume de peixe que nada para onde todos vão, e com a mesma memória do peixe-mor. Precisamos acordar e estarmos alertas em relação ao que é o nosso país e o nosso continente, pensando sempre em todas as potencialidades e maximiza-las de forma a minimizar os problemas atuais.

Quando olhas para esta geração da qual fazes parte, o que pensas do futuro?

Da minha geração? Acho que ainda podemos nos safar. A preocupação deve ser mais com a geração mais nova. E nós temos esta responsabilidade de ajuda-la, ajudar os mais novos a tornarem-se homens e mulheres para o mundo.

Estamos no mês da Juventude. Tens alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?

Segue o teu sonho, sê insistente e persistente! A realização do sonho exige determinação e conquista-lo implica dificuldades. Por isso, contorna os obstáculos, não cries bloqueios, não te deixes ficar pelas desculpas que tu próprio arranjas. Sê motor de tua transformação e da tua sociedade sempre. Sê criativo, audaz e provoca mudanças. Faz-te ouvir, grita, se preciso! Não te acomodes e sai da tua zona de conforto!

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