Antes de mais, fala-nos um pouco de ti. Quem é a Freddy Gomes?

Nasci na Holanda, sou filho de pais cabo-verdianos e desde 2014 vim viver para Cabo Verde. Sou um aventureiro, considero-me uma pessoa criativa e muito positiva. Não gosto de falar em problemas, mas antes em soluções.

Tens uma história interessante que envolve a tua pessoa, uma bicicleta e vários países. Queres partilhá-la?

Sim, foi uma viagem que fiz de bicicleta, boleia e a pé e, algumas vezes, de autocarro, entre dezembro de 2016 a março de 2017, do Rio de Janeiro, no Brasil, a Quito, no Equador. Decidi fazer esta viagem porque senti que estava a faltar um grande desafio na minha vida. Foi das coisas mais difíceis que já fiz. Tive muita ajuda pelo caminho. Iniciei a viagem sem nenhum dinheiro nos bolsos (risos). As pessoas davam-me comida, boleia e até dinheiro. Por várias noites, dormi na rua e até em postos de combustível. Mas serviu para ver que estava a fazer falta um certo equilíbrio na minha vida. Tive de parar de trabalhar e pensar, pela primeira vez, no meu futuro. E foi assim que comecei a pensar sobre o que, de facto, queria fazer com o Sonvela Arte

E surge então essa aproximação maior a Cabo Verde e o desejo de fazer algo para melhorar a vida das pessoas?

Os meus pais sempre me traziam, juntamente com a minha irmã, a Cabo Verde. Tenho lembranças incríveis das minhas férias. Quando fiz 21 anos, passei a vir todos os anos e foi assim que tudo começou. Chegou um momento em que deixar São Vicente doía muito. Assim, comecei a pensar fazer a minha vida aqui. A minha mãe, que sempre gostou de ajudar as pessoas, disse-me, uma vez, que o seu desejo era voltar a Cabo Verde para trabalhar com crianças. Foi então que senti essa vontade de também ajudar e, em 2013, nasceu a Fundação Sonvela e em 2014 o projeto Sonvela Arte, uma forma de fazer a minha parte por um Cabo Verde melhor.

O que te levou a criar o projeto?

Sonvela Arte surgiu após a minha vivência na favela da Rocinha, a maior do Brasil. Foi ali que aprendi o que é, realmente, a desigualdade. Também vi que para mudar a vida de uma criança não é preciso muito  começa simplesmente por se ser um bom exemplo para esta. Foi na Rocinha que aprendi sobre o conceito de turismo comunitário. Um amigo meu tinha uma empresa e eu comecei a trabalhar com ele como guia. Na favela, havia lugares em que se fazia arte urbana e havia uma parte em que todas as casas foram pintadas com cores vivas. Reparei que havia uma diferença entre essa parte em relação às outras que não tinham sido beneficiadas. Assim, comecei a pensar num projeto semelhante para Cabo Verde. No Complexo da Penha, também no Rio de Janeiro, viviam dois holandeses que criaram um projeto de arte urbana, que também foi de grande inspiração para mim. Já em Buenos Aires, na Argentina, conheci La Boca, uma zona com má fama, mas que atraia muita gente devido ao facto de as casas terem sido pintadas com cores vivas.

Então, pode-se dizer o Sonvela Arte tem dois eixos: arte e turismo comunitário. De que forma associaram estas duas componentes e como é que a arte, aliada ao turismo, tem contribuído para mudar a vida das comunidades onde o projeto atua?

Sonvela Arte é sobretudo um projeto de desenvolvimento comunitário. A arte é a nossa arma, a principal ferramenta que usamos para provocar a mudança. Mas fazer arte não é, em si, o nosso objetivo principal. O projeto existe para dar outras oportunidades a estes lugares que são normalmente esquecidos ou marginalizados. O turismo comunitário é uma parte importante desse projeto e acredito que se trata de uma ferramenta com muita força para mudar o país.  No bairro de Ribeira Bote, existe, desde 2012, um projeto de turismo comunitário e o Sonvela tem um papel importante na complementaridade desse trabalho. Juntamos a arte a esse projeto, ao invés de criarmos um novo. Como estive fora por algum tempo, a parceria não continuou, mas a ideia é retomá-la dado o grande valor que estas duas componentes trazem para a comunidade.

Uma vez que esse projeto tem uma forte componente de arte, pergunto-te: é possível, em Cabo Verde, a arte urbana funcionar como ferramenta de mudança/transformação social e ao mesmo tempo ser uma forma sustentável de vida?

Acredito que sim. Desde o início concentrámo-nos em fazer o nosso trabalho lá onde era mais preciso   O Sonvela Arte trabalha apenas com jovens artistas locais, da própria comunidade e não com os que já são conhecidos. Consiste em dar oportunidades, pelo que não fazia sentido trabalhar com quem já é conhecido. Esse tipo de intervenção dá aos artistas uma visibilidade que não tinham antes. Vou só dar um exemplo. Em 2017, recebemos um grupo de 33 turistas que visitaram o bairro. O chefe do grupo tinha tomado conhecimento do Sonvela Arte na internet. Para receber esse grupo envolvemos cerca de dez pessoas, todas do bairro e o valor pago pelos turistas foi dividido entre todos. Não podemos parar, a arte urbana tem que ser muito mais reconhecida no país. Há talentos incríveis e é muito triste ver a falta de oportunidades para estes artistas.

Com que recursos conta o Sonvela Arte para fazer intervenção comunitária?

Infelizmente, nunca tivemos financiamento. Quando começámos, tudo que tínhamos para investir eram dezoito mil escudos, mas decidimos que mesmo assim iríamos avançar. Ao terceiro dia da implementação, ficamos sem dinheiro porque já tínhamos gasto tudo em materiais. Foi aí que a primeira doação chegou. Até hoje, conseguimos trabalhar porque recebemos doações de pessoas que apreciam e gostam do nosso trabalho. Há dias, recebemos uma mensagem de alguém que quer doar um valor para pintarmos mais alguns murais em Ribeira Bote.

Há uma tendência cada vez mais crescente de as pessoas não se envolverem muito em projetos sociais. Há muito egocentrismo, comodismo. Há essa preocupação vossa de mudar esse estado de coisas? Têm conseguido engajamento comunitário?

No bairro notámos uma grande mudança, sim. Quando os moradores viram que estávamos e estamos focados e comprometidos a cem por cento nos nossos objetivos, mudaram de atitude e passaram colaborar connosco, oferecendo refeições para os membros da equipa. Senti que a comunidade passou a estar mais unida. Na fase anterior, os moradores até contribuíram com materiais porque viram que os nossos recursos eram limitados. Houve uma grande solidariedade. Foi uma coisa bonita de se ver e saber que os moradores se ofereciam para nos ajudar.

E já agora, como foi a reação das pessoas quando levaste o projeto para a comunidade?

Na Ribeira Bote, no início, os moradores não acreditavam. Houve lugares onde havia muita desconfiavam mesmo. Uma das coisas que a equipa teve de fazer foi conquistar a confiança das pessoas. Mas conseguimos e o apoio que recebemos delas é a prova.

Que mudanças conseguiram implementar, que impactos está a ter o projeto para as pessoas e para a própria comunidade?

Primeiramente, a mudança mais visível é que o bairro ficou muito mais bonito e os moradores passaram a sentir um grande orgulho. E nós também. Aquela que era a rua mais feia tornou-se na mais bonita de São Vicente. As pessoas começaram a visitar o bairro, a tirar fotografias e partilhá-las nas redes sociais e foi muito importante sentir isso, como resultado de um trabalho de equipa. Ribeira Bote, e particularmente a ilha da Madeira, sempre teve má fama. Ao iniciarmos o projeto, fizemos uma pesquisa no Google sobre o bairro e só encontrámos coisas negativas. Mas a imagem da zona mudou e uma das lembranças mais bonitas que tenho sobre essa mudança foi de um dia em que estava a fazer um tour com os turistas e vi que havia uma visita de estudo de um grupo de estudantes. Esse tipo de ações significa muito, são muito importantes.

Quase todos os ativistas sociais queixam-se das dificuldades de implementar as atividades, dado a falta de recursos financeiros. No vosso caso, também há esse problema? 

Há sempre esse problema. Nós que atuamos nessa área temos de ter soluções criativas. Esse trabalho é um trabalho voluntário, não há muito tempo para correr atrás da burocracia. Daí que aproveito o pouco tempo que me resta para pensar em soluções para fazer as coisas acontecerem. Houve uma fase em que conseguimos tornar o projeto mais autosustentável por causa da parceria que tínhamos com o projeto de turismo comunitário. Recebíamos uma parte das receitas para investirmos no trabalho. Por outro lado, quando os turistas vinham ao bairro e viam o nosso trabalho, deixavam uma contribuição, que juntamente com a contribuição dos moradores nos permitiu muita coisa.

Quando olhas para esta área, o que pensas? Há, de facto, uma atenção e um olhar sério para projetos sociais?

Da parte da imprensa e das pessoas que seguem o nosso projeto, sim. O apoio é fantástico. Receber um telefonema ou mensagem de alguém que nos parabeniza ou faz uma doação dá-nos imensa força e motivação. Sobre a Câmara Municipal nem sei o que pensar ou dizer. Pergunto: se na tua cidade existe um projeto que começou com dezoito mil escudos, mas que teve grande impacto, e num dos bairros mais problemáticos da ilha, não seria de se dar mais atenção e valor, incluindo algum apoio material?

Diz-se que a juventude cabo-verdiana é bastante omissa e completamente alienada sobre o que se passa no seu próprio país. Concordas? Se sim, porque achas que isso acontece?

A situação é bastante complicada e não por culpa dos jovens, mas por causa do ambiente criado pelos partidos. É difícil convencer um jovem que, apesar todas as dificuldades, para que a situação mude, ele não pode esperar por ninguém e quem pode mudar a situação é ele próprio. Penso que é falta esperança. É fácil criticar os jovens, dizer que não querem fazer nada, quando não há soluções para estes. Aqui, penso que os ativistas dessa geração têm um grande trabalho a fazer para mostrar a estes jovens que as soluções de longo prazo não virão dos governos, mas de cada um e do setor privado.

O jovem cabo-verdiano está à altura dos desafios do mundo globalizado? É capaz de competir em igualdade com outros jovens?

Em igualdade talvez não, por falta de oportunidades. Mas é incrível ver a forma como os jovens cabo-verdianos, de qualquer camada social, usam a sua criatividade e o seu talento para driblar os obstáculos da vida.

Alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?

Que não deixem que ninguém lhes diga o que é ou não possível. Quem tem um sonho deve correr atrás dele e fazer tudo o que idealizou. Só que quem tem um sonho tem de saber que tem muito trabalho pela frente e que o caminho poderá ser complicado. Mas no fim, valerá pena.

Freddy Gomes
créditos: Fotos cedidas

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