O ex-padre Richard Daschbach foi detido e levado para o posto policial no enclave de Oecusse com uma manifestação de apoio de várias pessoas a manter-se no exterior do edifício durante o interrogatório.

A fonte judicial disse à Lusa que os manifestantes gritaram o seu apoio ao ex-padre, deixando igualmente ameaças contra as vítimas que formalizaram queixa junto das autoridades.

A mesma fonte precisou que a investigação ainda está a decorrer e que o ex-padre está proibido de sair do país.

Um dos advogados envolvidos no processo explicou que o norte-americano deverá deixar o enclave este fim de semana, tendo como destino a cidade de Maliana, numa outra zona de Timor-Leste, desconhecendo-se se a mudança de local foi ordenada pelas autoridades.

"Foi deixado em liberdade", disse a fonte.

Vítimas dos abusos referiram já terem sido alvo de ameaças por denunciarem os abusos de Richard Daschbach, alegadamente cometidos durante vários anos a dezenas de crianças.

Daschbach, 82 anos, natural de Pittsburg, nos Estados Unidos, vive em Timor-Leste desde 1966 e, em 1992, estabeleceu duas casas de abrigo de crianças, a TopuHonis, em dois espaços no enclave de Oecusse.

O caso chegou a conhecimento de responsáveis timorenses há quase um ano, mas só foi tornado público, pelo jornal Tempo Timor, em fevereiro.

Apesar de Daschbach ter admitido perante várias pessoas a autoria dos crimes, continuava a viver na pequena localidade do enclave de Oecusse, onde é acusado de ter cometido os abusos, aspeto que tinha suscitado várias críticas em Timor-Leste.

O antigo Presidente e prémio Nobel da Paz, José Ramos-Horta, e o atual chefe de Estado, Francisco Guterres Lu-Olo, foram algumas das personalidades que manifestaram preocupação com o caso.

Citado pelo jornal Tempo Timor, Ramos-Horta considerou "errado" que o ex-sacerdote tenha regressado, acrescentando que ficou “atordoado” quando soube que “tinha tido autorização para voltar” a Oecusse.

Na quinta-feira, uma organização timorense divulgou um depoimento de uma jovem que diz ter sido uma de várias crianças vítimas de abuso sexual do ex-padre norte-americano.

O depoimento, divulgado pela organização Fokupers – que, entre outras atividades, apoia vítimas de abuso sexual - confirma a existência de várias vítimas de Richard Daschbach, que foi afastado do sacerdócio pelo Vaticano.

"Eu não sabia nada. E não perguntei nada. Fui com as outras. Naquela vez estávamos três meninas no quarto. E foi quando as coisas más aconteceram. E fiquei surpreendida que as meninas ficavam caladas. O pai nem precisava de nos ameaçar. Ficávamos caladas. Ninguém falava de nada", contou a jovem no depoimento divulgado hoje pela organização.

A jovem explica que o então padre - a quem chama 'pai' - nunca dizia por palavras o que queria, mas sim por gestos, incluindo masturbação, sexo oral e toques, agarrando as meninas para mostrar o que queria que fizessem.

O depoimento confirma que os casos de abusos eram conhecidos na comunidade onde, apesar disso, o padre "era muito respeitado".

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