Antes de mais, para quem não te conhece, quem é a Érica Miranda ?

Sou uma mulher muito sensível, sonhadora, amante da arte e da literatura e que ama a moda! Queria fazer um curso relacionado a moda, fashion style, aliás, um dos meus grandes sonhos é criar uma marca de roupa e uma linha de make up. Nos meus tempos livres, gosto muito de escrever, principalmente, poemas, que estão todos engavetados (risos). Também não poderia deixar de falar da minha paixão pela culinária. Para mim, cozinhar é uma forma de dizer aos outros que os amo e que de alguma forma, quero cuidar deles e protege-los. Estudo Relações Internacionais e Diplomacia por acreditar na necessidade de criar pontes entre países, como forma de termos um mundo mais justo e igualitário. É possível sim, termos sociedades firmes e coesas, por isso, acredito no poder do conhecimento, que pode mover o mundo. É nesta senda que leio, questiono, pesquiso. Quero aprender com a vida e para a vida.

A Érica é uma jovem polivalente que advoga por várias causa. Como surge esse espírito de ativismo?

Sempre fui muito curiosa e atenta a tudo ao meu redor. Sinto-me envolvida com os outros, com os seus problemas. E essa empatia, esse respeito pelo outro faz nascer em mim esse espírito de ativismo, por causa dessa necessidade de ajudar os outros. Lembro-me de ter sido ensinado, desde muito menina, que teria de deixar o mundo um pouco melhor do que aquele que encontrei, e esse ensinamento é algo que levo para a vida inteira. Esse espírito da proatividade começou com o Movimento para Ação Cívica (MAC #114), da qual fui uma das cofundadoras.

Recebeste, este ano, um prémio como uma das jovens mais influente da Confederação de Jovens da África Ocidental (CWAY). A que se deve essa distinção?

Recebi a distinção da CWAY, que é uma confederação que acompanha o trabalho de jovens líderes ativistas na West África. Mal sabia que a organização estava a seguir o meu trabalho de perto, portanto, para mim, foi uma enorme surpresa quando me informaram que havia sido nomeada — e depois distinguida — para o título “Most influential young person of the year”, devido aos projetos nos quais estava envolvida, nomeadamente a vice-presidência da Federação Nacional de Estudantes e Desporto Universitário (FNEDU), a coordenação da pasta da cooperação internacional e associativismo estudantil, por ter sido cofundadora do MAC #114 e da Liga das Associações Universitárias de Santiago (LAUS), membro fundador do Eco feminismo, diretora local do Miss Albânia 2019, diretora de Cabo Verde no Youth Society e ativista de género.

O que significa para ti, ter recebido esse prémio?

Sinto-me muito honrada. Recebo essa nomeação com muita gratidão, com sentido de muita responsabilidade e humildade. Essa distinção é ainda mais importante, diante de todas as dificuldades diárias enfrentadas para implementar os projetos nos quais estou envolvida e que visam melhorar as condições da classe estudantil cabo-verdiana e africana, empoderar as mulheres e combater as alterações climáticas. E vejo que estamos a ter impacto positivo e a minha nomeação enquanto uma das jovens líderes mais influentes da West África, é consequência dessas ações que tenho estado a desenvolver nos grupos dos quais faço parte. Sinto que as minhas ações estão a fazer diferença e podem fazer mudar a nossa realidade. É muito gratificante quando vemos que os nossos sonhos de ter um mundo melhor já não é utopia, e que estão a tornar-se cada vez mais reais. Por outro lado, esta distinção representa a conquista de todas as mulheres cabo-verdianas que diariamente enfrentam muitas dificuldades, mas nunca desistem de conquistarem os seus sonhos e de terem uma vida digna.

E tens noção de que essa distinção traz novas e acrescidas responsabilidades… o que irá mudar ou o que mudou depois do prémio?

Sim, tenho. Uma vez que hoje as ações locais estão a ter repercussão a nível internacional, a ideia é pensar global e agir local. Muitas coisas mudaram, mas prefiro vê-las numa ótica de conectividade, de fazer parte dessa rede que funciona como um maestro regendo a sua orquestra, que nesse caso é a juventude. Temos que conhecer os músicos e o potencial de cada um. Depois, é preciso dar o tom, coordenar, sincronizar todos os instrumentos, motivar e inspirar os músicos, que são os jovens, para que deem o melhor de si e trabalhem em equipa para conquistarem os melhores resultados possíveis, que num sentido figurado se traduz numa linda sinfonia. Dai a importância inquestionável dessa conectividade da juventude cabo-verdiana/africana.

Uma juventude que precisa, antes de tudo, de formação. Sei também que um dos projetos nos quais estás engajada é o ARASMU. Em que consiste?

O projeto ARASMU” (African Region Action Scheme of Mobility of University Students) é um plano de ação da comunidade africana para a mobilidade de estudantes universitários, que, no fundo é uma versão africana para o “Erasmus”. É a possibilidade que se abre a um jovem estudante africano de efetuar um período de estudos com pleno reconhecimento académico, com uma duração mínima de cinco meses e máximo um ano letivo, num estabelecimento do ensino superior de outro Estado africano elegível.

Seria uma forma de aproximar os jovens cabo-verdianos ao continente africano, uma ligação ainda ténue…

Com certeza. O ARASMU uma forma de fazer com que a nossa juventude se vire para o nosso continente. Há inúmeras oportunidades em África! Kwane Nkrumah disse: ”We must live here, we are the one command, we must live here it's the land who forefather fight for" e ele está certo. Temos que abraçar o nosso continente, temos que mudar o paradigma do nosso continente, impulsionando o seu desenvolvimento e crescimento. E se nós, os jovens, não fizermos isso, ninguém irá fazê-lo por nós.

Érica Miranda
créditos: Fotos cedidas

Que impacto tiveram ou estão a ter os projetos por ti implementados ou nos quais tens-te engajado?

Estão tendo um impacto positivo e com efeito multiplicador. Dou como exemplo o mais recente projeto que me envolvi, o movimento 'Eco feminismo' de Cabo Verde, que é uma ideologia que defende uma relação sui generis entre a mulher e a natureza. Somos um grupo que trabalha com o foco no desenvolvimento sustentável, inclusão social, justiça social e climática. Estamos ainda numa fase inicial que passa pela auscultação das pessoas, através de conversas abertas, mensalmente, no Palácio da Cultura Ildo Lobo. Já abordamos temas como a saúde e os direitos sexuais e reprodutivo da Mulher; vegetarianismo, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável; relacionamento abusivo e tóxico: como identificar e sair. Temos tido uma boa aceitação e a cada encontro o número de pessoas que adere é maior. O que nos leva a constatar que há essa necessidade de trazer esses temas para serem debatidos, como forma de termos uma sociedade cada vez mais informada e engajada como os temas atuais.

Como vês o engajamento e a atitude dos jovens cabo-verdianos face aos grandes problemas da atualidade, nomeadamente, a promoção da paz e dos Direitos Humanos, a degradação ambiental, desigualdades sociais, a violência, entre outros?

Há um despertar de interesse, mas, infelizmente, ainda acontece numa minoria. Existem grupos como Os Jovens pela Paz, 350 Cabo Verde, Safende Tudo hora, o Wake up Queen e o próprio Ecofeminismo que estão a desenvolver um belo trabalho nas suas áreas de intervenção. Contudo, há uma necessidade de mais e maior engajamento por parte dos jovens, para que deem mais atenção à essas problemáticas, e é claro, fazerem a sua parte no combate a esses problemas que têm estado a afetar a nossa sociedade.

A participação política, na sua verdadeira essência, seria a arena onde os jovens poderiam provocar mudanças. Porém, a maioria não quer saber de participar, de se envolver nesse campo…

A falta de interesse dos jovens pela política advém de várias questões, e uma delas é o medo do ser conectado com o partido A ou B. Há ainda o populismo que anda a diabolizar a arena política, o comportamento de alguns políticos que fazem com que os jovens não se revejam neles. Essas são algumas razões que os fazem afastar-se da política.

Outro campo onde é muito fraca a participação dos jovens é o Ambiente, que tem merecido o forte engajamento global dos jovens. Basta ver o movimento gerado pela jovem ativista Greta Thumberg, que conseguiu mobilizar um milhão de jovens em 125 países a favor do clima…

Sim. A questão do ambiente ainda é pouco debatida por cá, mas acredito que com o alargamento do debate em torno das mudanças climáticas e os seus efeitos, poderá ter maior engajamento por parte dos jovens.

Quando olhas para esta geração da qual fazes parte, o que pensas do futuro do país?

Confesso que não sei qual é a solução para todos os problemas em Cabo Verde ou do nosso continente, mas sei que precisamos enfrentar desafios, e que isso requer uma visão comum, ações conjuntas e trabalho árduo, e que nos inspiremos nos nossos antepassados. Implica ainda que pensemos sobre novos formatos de democracia e de lideranças que queremos para África. Particularmente no caso de Cabo Verde, temos uma grande missão: travar as alterações climáticas e salvar o nosso planeta, evitando que haja uma última geração ter a infelicidade de assistir ao seu fim. Por outro lado, penso que a juventude cabo-verdiana precisa de aumentar a sua capacidade crítica e de ação, que vem melhorando consideravelmente, mas que precisa de se ampliar.

Perante os desafios da globalização, que demanda novas skills (aptidões), estamos bem ou falta algo ao jovem cabo-verdiano para se inserir na aldeia global e estar à altura desses desafios?

A globalização trouxe facilidade no acesso aos conteúdos mundiais, que nos permitem estar em pé de igualdade com qualquer jovem. Agora, falta-nos a orientação certa e, acima de tudo, a auto motivação para correr atrás da capacitação. Os jovens têm que apostar na sua formação integral, aumentando assim a sua oportunidade de empregabilidade e estar pronto para assumir qualquer desafio a nível global.

Alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?

Que sejamos makers! Que façamos as coisas acontecer, que sejamos parte das soluções. Mas para que isso aconteça há uma necessidade de melhorarmos as nossas habilidades em todos os sentidos, sendo atores e atrizes da nossa própria história. Aconselho a nossa juventude a fazer um trabalho interno, apostando fortemente no seu desempenho pessoal, e a se preparar para que possa fazer um trabalho com grande impacto, com efeito multiplicador. Que impulsionem, sem tréguas, a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.

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