Quem não quer ter energia para ultrapassar os limites da sua condição física, para conseguir uma maior capacidade intelectual ou para aguentar todas as noitadas? A pergunta é tentadora, e a resposta parece estar nas bebidas energéticas ou isotónicas. Será que é mesmo assim?...

Já ouviu falar de bebidas energéticas e estimulantes?
Seguramente que sim, já que esta relativa novidade surgiu no rasto das bebidas isotónicas, concebidas para circunstâncias a que o organismo é exposto a um esforço físico intenso. Mas o nicho de mercado das bebidas energéticas e estimulantes é outro, abrangendo, preferencialmente, adolescentes e jovens quadros, sendo os locais de diversão nocturna os seus pontos de venda privilegiados. Afinal, uma longa noite de música, sem bocejar, não deixa de ser uma proposta atraente...

As bebidas energéticas e estimulantes parecem enquadrar-se no ritmo deste tempo em que vivemos, em que tudo se quer rápido, eficaz e inteligente. Também conhecidas por “smart drinks” – bebidas espertas –, desenvolveram embalagens apelativas e adoptaram nomes que sugerem energia e agressividade. As referências incluídas nos rótulos seguem o mesmo padrão: revitalizam, combatem os efeitos do cansaço, ajudam a eliminar toxinas, são úteis em grandes esforços. Mas, afinal, de que são feitas as bebidas estimulantes?

Água, açúcar e cafeína...

Estes são os ingredientes principais das misturas que lhe prometem energia sem limites. A complementar o “bouquet”, podem ainda conter determinados aminoácidos, vitaminas ou extractos de plantas mas, no essencial, em termos nutricionais ou fisiológicos, não o alteram significativamente. O principal efeito estimulante deve-se à cafeína, presente nestas bebidas em teores que nem sequer são demasiado elevados – 30 a 80mg por lata, enquanto a nossa vulgar “bica” contém 80 a 100mg por chávena.
A quantidade de açúcar das bebidas estimulantes é bastante elevada, o que fornece alguma energia que se absorve rapidamente, mas desaparece com a rapidez equivalente.

Muitos nutrientes, nenhum milagre

As vitaminas e os aminoácidos integram uma panóplia de nutrientes de valor nutricional questionável, tendo em conta o contexto em que se encontram. Os suplementos de aminoácidos, como a taurina, não parecem revelar grande utilidade numa bebida deste tipo. A taurina pode ser sintetizada pelo organismo dos adultos, não sendo, por isso, um aminoácido essencial. As suas funções não estão completamente esclarecidas, mas receia-se que o consumo exagerado possa implicar efeitos como diarreias e úlceras gástricas. No entanto, os teores existentes nas bebidas estimulantes não parecem sugerir toxicidade.

As vitaminas que se podem encontrar nestas bebidas também não fazem milagres. O nosso organismo absorve e utiliza de forma mais eficaz os nutrientes contidos num alimento “real”. Em situações normais, o excesso de vitaminas não tem qualquer vantagem. É evidente que, no caso de carências específicas, os suplementos vitamínicos podem ser úteis. No entanto, essa é uma situação para resolver no consultório do médico, e não ao balcão da discoteca.

Desportistas de fim-de-semana
Isotónico não prejudica

Para as desportistas de “trazer por casa”, que apenas dão uns passeios a pé ou umas corridinhas, as bebidas isotónicas são desnecessárias, já que estão concebidas para esforços físicos que implicam grande desgaste energético. Se não vai correr a maratona, mas quer ter “pinta” de desportista a sério, pode agarrar numa bebida isotónica. Não a vai pôr a correr como a Rosa Mota, é mais cara do que a água, mas pode ser mais agradável. Mal também não faz...

Os 3 “G’s” dos líquidos estimulantes
Bagas de Paullinia cupana

Guaraná
Planta originária da Venezuela e Nordeste brasileiro. Foi buscar o seu nome à tribo de índios Guarani, que a utilizam no tratamento de cólicas, dores de cabeça e como afrodisíaco. Tem um efeito levemente estimulante, mas as suas virtudes têm a ver, essencialmente, com questões culturais. No Brasil, e recentemente em Portugal, o guaraná é utilizado como refrigerante normal; no Japão, como medicamento, e em França, como produto dietético.

Raiz de Panax ginseng
Ginseng
É utilizada pelos Chineses como remédio para tudo. O seu nome deriva da palavra grega panakos, que significa “panaceia”. No Oriente é utilizada em dispepsia, vómitos, perturbações nervosas e como estimulante do apetite. Na Europa e na América, utiliza-se como tónico e estimulante suave, em perturbações digestivas e em casos de exaustão nervosa e mental. Pode aumentar a pressão sanguínea, e o seu uso continuado é desaconselhado.

Rizoma de Zengiber officinale
Gengibre
Cultivada na Ásia há mais de 3.000 anos, é muito utilizada em culinária pelo seu sabor fresco e picante. Caiu em desuso na Europa, onde foi muito popular na época medieval. Tem propriedades calmantes para o estômago e é usada como medicamento para o enjoo em viagem e para os enjoos matinais das grávidas.

Que riscos para a saúde?
Para pessoas saudáveis, que consumam estas bebidas de forma moderada ou eventual, são maiores os riscos para a carteira do que para a saúde. É que o preço de cada “smart drink”, adquirida em supermercados ou grandes superfícies, aproxima-se dos três euros.

Em discotecas, o valor é naturalmente bastante superior. Com excepção das que incluem extractos de plantas, como guaraná ou ginseng, mesmo o consumo de algum modo imoderado não apresenta grandes riscos. O organismo sabe eliminar o excesso da maioria destes ingredientes.

Grande parte dos rótulos refere que estas bebidas não devem ser consumidas por crianças, diabéticos e pessoas sensíveis à cafeína, o que, evidentemente, é uma indicação com interesse. O único perigo será criar a ilusão de que o conteúdo da lata pode substituir uma alimentação equilibrada.
Uma dieta variada que valoriza a comida “real” é a única forma de dispor dos nutrientes complexos necessários a uma vida saudável.

Nada de confusões
Por vezes, confundem-se as bebidas estimulantes com as isotónicas, estas últimas concebidas a pensar na actividade física dos desportistas. A instituição do desporto como prática de massas estimulou um conjunto de novos produtos adaptados a uma faixa específica de consumidores. Concebidas para a ingestão durante e após esforços físicos intensos e continuados, as bebidas isotónicas prometem um aumento da prestação e do rendimento. Descontando o efeito de ampliação, próprio da publicidade, a bebida isotónica responde a exigências fisiológicas decorrentes de grandes gastos energéticos, e a sua fórmula obedece a critérios de rigor.

A base científica da elaboração destas bebidas reside no conceito de isotonia, ou seja, de uma certa semelhança com os líquidos fisiológicos, de modo a restituir ao organismo os minerais perdidos no suor. São constituídas por uma solução de vários açúcares – sacarose, glucose ou frutose – e sais minerais, podendo, ou não, incorporar vitaminas.
Como estão adaptadas à prática desportiva, não contêm cafeína, sendo esta uma das grandes diferenças relativamente às bebidas estimulantes.

Quando é útil uma bebida isotónica?
Para matar a sede, nada melhor do que um copo de água fresca. Mas, após um esforço físico muito intenso, a água pode não ser suficiente. Quando se bebe só água após uma sudação forte, certos minerais, como o potássio, o sódio e o cálcio, deslocam-se dos líquidos celulares até ao estômago e intestino, de modo a manter-se uma concentração de iões semelhante entre todos os líquidos corporais. Este fenómeno é conhecido por “desidratação hipotónica” e pode originar fortes cãibras musculares. Por outro lado, se o desportista ingere uma bebida concentrada – “hipertónica” –, como um refrigerante convencional, ocorre o fenómeno inverso, ou seja, uma perda de água através dos intestinos. É por esta razão que os náufragos podem morrer à sede, quando não lhes falta água à volta. A água do mar é fortemente hipertónica, e a sua ingestão provocaria uma desidratação ainda maior.
As bebidas isotónicas respondem, assim, a uma necessidade específica. Com uma concentração total de moléculas semelhante à dos líquidos do corpo humano, permitem que a água seja absorvida da forma adequada. No entanto, o seu uso só se justifica no caso da prática de exercício físico muito exigente, intenso e contínuo.

Por Olívia Pinho e Lília Amaral

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