Antes de mais, quem é o Edmilson que todos nós conhecemos como Edyoung Lennon?

Sou Edmilson Furtado, um sonhador, igual a tantos por aí. Sou pai, rapper, slamer, designer e digital marketeer de profissão. Nasci em Assomada, tenho 30 anos, quase a abeirar os 31.

Como surge o Edyoung Lennon? Presumo que Edy seja o diminutivo do teu nome, mas e o Lennon tem algo a ver com o John Lennon?

Sim, Edy é o diminutivo de Edmilson, uma versão mais fashion (risos), mas como só fashion já não bastava, surgiu a versão mais “street” e urbana, Edyoung (risos). Já Lennon surgiu muito por acaso, em 2012. Todos os meus amigos resolveram mudar o nome no perfil do facebook, adicionando apelidos estrangeiros. Era swag (risos). Daí surgiu o Lennon, inspirado no nome do vocalista dos Beatles. Não era para ser levado a sério, mas com poder do facebook criar tendências e de popularizar tudo, em pouco tempo, as pessoas na rua já me chamavam pelo nome Lennon ou Edyoung Lennon, quase que se esqueceram do Edy.

És um slamer e dos mais aclamados da atualidade. Quando se deu essa aproximação às “palavras ditas”?

Desde de muito cedo, destaquei-me pela minha escrita. Ainda na escola primária já escrevia poesias. Há três momentos que marcaram e muito o meu percurso: o primeiro foi a minha primeira poesia, que suscitou dúvidas sobre a sua autoria, de tão bem elaborada que estava. O segundo, foi a primeira vez que subi um palco para apresentar e foi justamente para declamar. E o terceiro momento foi quando venci um concurso regional de poesias em comemoração ao 20 de janeiro, tinha apenas 14 anos. Quando comecei a fazer rap, destaquei-me logo à primeira por causa do meu lirismo, qualidade que acredito ter herdado da poesia. Comecei a fazer slam antes mesmo de saber o nome dessa expressão artística. Nos shows do meu grupo, Detroit Kabuverdianu, fazíamos sempre entradas como uma música de fundo, enquanto eu declamava os meus textos e isto criava um clima interessante porque captávamos a atenção do público desde o primeiro segundo do show até ao fim.

Então conheces bem o poder das palavras. Sentes que tocas e inspiras os jovens com as tuas palavras ditas?

Todos os dias recebo mensagens de pessoas que me fazer acreditar que de uma certa forma consigo inspirar e transformar vidas. Mas no final do dia pergunto, será que tenho esta força, este poder de inspirar e toda esta representatividade que dizem? E se eu a tiver, estarei eu a utilizar da melhor forma? Estas questões alertam-me sobre as responsabilidades que poderei estar a carregar.

E tens usado as palavras para provocar alguma mudança? Tens conseguido?

Se não fosse para causar mudanças, o silêncio seria suficiente. Se tenho conseguido? Não sei.

Dizes que não sabes. Mas isso é porque não tens prestado muita atenção ou porque não é o teu objetivo fazer com que as tuas palavras provoquem algum efeito, alguma mudança?

Tenho noção da sinceridade da minha arte, mas a minha noção do efeito que ela tem é muito pequena em relação ao feedback que recebo. Pessoas falam de um Edyoung de uma dimensão tão diferente da que aquela que eu consigo ver. Não que não acredite que posso causar mudanças mas, porque esta afirmação não deve ser minha, mas de quem recebe e consome as minhas mensagens. Acredito no poder de transformação que as palavras carregam e espero que as minhas também carreguem este poder. A minha intenção definitivamente é causar mudanças positivas com a minha arte, espero estar a conseguir. E se estiver a conseguir, sinto-me realizado.

O que te dizem as pessoas? Notas que esperam alguma coisa de ti, uma espécie de liderança, de apontar caminhos ou veem em ti como alguém que seja a voz deles?

O carinho que recebo das pessoas é algo impressionante. Os elogios são com uma intenção e intensidade muito grandes, mas o que tem de grandioso tem de exagero (risos). Já me chamaram de Profeta. Respondo, quem? eu? Não! Herói, para os meus filhos sou. Rei? No meu mundo. Génio? Só quando viajo no meu ego. Quando admiramos pessoas acabamos por criar a nossa própria imagem delas, atribuímo-lhes perfeições e ideais que criamos na nossa mente e esperamos que elas vivam de acordo dos padrões que inventamos. E sem querer, as pessoas admiradas vivem sob pressão de ser o que não são, por medo de desconstruir a imagem o admirador criou dela. Muitos me veem como líder e para ser sincero, acredito ter qualidades para tal. Hoje sinto que a minha voz tem muito mais alcance do que alguns anos atrás. Seria inútil tanta projeção se não fosse aproveitado para falar algo que representasse todos, e é isso que as pessoas esperam de mim.

Também usas o slam como ferramenta de intervenção social, para chamares a atenção para problemas sociais? O slam/spoken words é uma boa forma?

É uma das melhores ferramentas. Em Cabo Verde ainda é algo virgem, que precisa de ser explorado em todas as suas possibilidades. No slam não existe distrações, o declamador tem 100% da atenção do público para a sua palavra e performance, quando consegue-se ganhar a atenção alheia a este nível, a mensagem passa de uma forma muito poderosa.

Edyoung Lennon
créditos: Foto cedida

Como vês o engajamento e a atitude dos jovens cabo-verdianos face aos grandes problemas da atualidade?

A consciência do poder da juventude só é tomada na sua última fase, às vésperas da fase adulta. É um pouco natural que seja assim quando não é dada a devida atenção para a consciencialização da juventude quanto a sua força. A maioria está muito preocupada com a noite passada, com a próxima festa, com a última moda. Assim, as coisas muito importantes, que não se podem ser deixadas para amanhã, correm o risco de ficar sem freepasses. Mas não vamos culpar a juventude que apenas aproveita o que é oferecido. Devemos repensar a oferta.

E porque achas que a juventude age assim?

Porque hoje conseguimos tudo na mesma velocidade que desejamos, poucas coisas nos representam desafios. Os nossos pais facilitaram-nos tudo, deram-nos quase tudo, menos a garra. O maior problema dos jovens é pensar que tudo deve acontecer no nosso timing, no nosso ritmo, do nosso jeito e sem muito esforço. Quando isso não acontece… a depressão.

Quando olhas para esta geração da qual fazes parte, o que pensas? O que falta ao jovem cabo-verdiano para se inserir na aldeia global que é o mundo?

A minha geração é uma das mais sortudas, viveu as mudanças mais importantes dos últimos séculos, a revolução tecnológica, digital e o “take over” da Internet… Sabemos um pouco do pré-digital, muita coisa sobre o pós e ainda estamos em condições de fazer previsão de um futuro próximo. Mas, por outro lado, somos a mais problemática, a mais deprimida e a mais “let it go”. Nesta aldeia global, que deveria ser uma “comunidade global”, com várias aldeias, com as suas particularidades protegidas e preservadas, falta ao jovem cabo-verdiano, criatividade, ousadia, autenticidade e vontade.

De que juventude esse país precisa para se transformar numa nação próspera, dinâmica e competitiva?

Cabo Verde precisa de uma juventude com visão, vontade, voz e garra.

Agora vou provocar-te (risos). Queres dizer que não há nada disso?
(Risos) Nunca diria isto. Vou explicar melhor. Temos todas estas qualidades. Só que, na maioria, de forma isolada. Quem tem visão não tem garra e quem tem voz não tem vontade.

E para essa juventude, tens alguma mensagem especial?

…I si mundu e di kez ki sunha nka tem dúvida ma el é di noz!

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