Chamas-te Bruno Amarante, mas todos te conhecem por Djam. Quem é o Djam e porque te assumes com esse nome?

Oh não, já revelaste o meu nome! (risos). Pois: Djam é um nome 'autobaptizado'. Era para ser uma espécie de assinatura artística, mas acontece que virei Djam a tempo inteiro, então a maioria das pessoas que me conhece não faz a mais pálida ideia de quem seja Bruno Amarante (risos)) O nome veio de ragga jam e dancehall, meus estilos de dança prediletos. D de dancehall e J de ragga jam e ..voilá!

Quem te conhece e te acompanha sabe que és um jovem multifacetado e polivalente. Danças, cantas, organizas e coordenas eventos, és coreografo e encenador. Quais são nesse momento os teus projetos?

Muita coisa, não é? Tenho vários projetos em carteira, para este ano e futuramente. Mas o que posso revelar é que tenho previsto uma tournée para a Europa nos meses de outubro e novembro, para apresentar vários trabalhos na área de música, dança e teatro. No presente momento, estou a preparar-me para essa empreitada. Pelo caminho, muitas outras coisas antecederão, no entanto, prefiro não revelar por enquanto (risos).

Sei que também escreves e faze-lo muito bem. Porque não assumes isso com mais “seriedade” e utilizas a escrita como uma ferramenta de resistência, para alertar sobre os problemas dos jovens, por exemplo?

Aí está uma boa questão! A grande maioria das pessoas não sabe que a escrita é mais um dos meus “ofícios”, até porque, há muito que larguei a sua prática recorrente. Quando era adolescente escrevia “para xuxu” (risos). Devorava livros. Rabiscava muito. Coisa de influência familiar! Ganhei muitos concursos escolares e até somei prémios em vários concursos internacionais. Depois, acho que a vida adulta roubou-me aquela tranquilidade e concentração que a escrita exige. E simplesmente fui perdendo a manha. De vez em quando, sai-me um poema ou outro e escrevo-o numa compilação que mantenho em teias, algures na escrivaninha. Não exercito os dedos porque ando com outras ocupações que não me deixam tempo para esta expressão. Mas não quer isto dizer que, mais tarde, ou quando for necessário, não pegue nisso a valer.

Para tanta coisa, energia a dobrar. Como recarregas as baterias para teres não só para as correrias, mas para ainda conseguires manter essa boa disposição e positividade?

Tudo na vida é disciplina, organização, gestão. Capacidade de moldar o tempo, de levar a vida e não deixar a vida nos levar! Eu tenho tempo para fazer tudo e muito mais. Aprendi a costurar o tempo e a plantar hoje para colher amanhã. Acho que até apanhei um bichinho qualquer de irrequietação e estar parado incomoda-me. Faço-me às coisas. Claro está que tem tempos que isto é de loucos! Ando mil à hora. Mas nada que não de conta! A boa disposição e boas vibes são forças muito importantes, pois, através disso as portas se abrem muito mais rapidamente.

És um jovem de causas. Foste nomeado embaixador da campanha Menos Álcool, Mais Vida, da Presidência da República. Como surge esse convite e porquê abraçaste o projeto?

Faz já 2 anos. Interessei-me pelo projeto após perder um amigo, e então, aproveitando a cooperação com a campanha em atividades anteriores, surgiu a proposta da Presidência da República de ser embaixador e embandeirar esta causa. Desde então, sou aquela pessoa que, quando muita gente vê em eventos sociais, diz “isto é sumo o.k.?” (risos).

O que te tem ensinado esse teu envolvimento na campanha, sabendo nos que se trata de um problema social serio e preocupante em Cabo Verde?

Foram inúmeras atividades, muitas de iniciativa própria, outras a integrar eventos por convite da Presidência e de terceiros. Quando abracei esta iniciativa, visitei inúmeras instituições, escolas, zonas, eventos, projetos e de facto constatei que o problema é muito mais sério do que parece. Felizmente, que se despertou para esta causa, e digamos que a campanha, apesar de toda a resistência, tem estado a se fazer valer.

Djam

E que impactos está a ter a campanha junto dos jovens? Notas alguma mudança ou é preciso algo mais para que efetivamente os resultados sejam maiores e melhores?

Os jovens são muito desacreditados. Reparei que politizam um pouco esta causa, por ser iniciativa de uma presidência. Embora sejam conscientes do risco, ainda estão, boa parte deles, do outro lado do murro. Mas não há vivalma que não reconheça que esta causa é de valor. A campanha ainda tem muita estrada a correr. São dois anos e já se conseguiu muito.

Como vês o engajamento e a atitude dos jovens cabo-verdianos face aos grandes problemas da atualidade, nomeadamente, a degradação ambiental, o desemprego, as desigualdades sociais, a violência urbana e de género, entre outros?

Os jovens cabo-verdianos são ainda herdeiros de um inconsciente assistencialismo e síndrome do “alguém virá e fará por mim”. Somos um povo muito bom em “mandaboquismo”, mas muito pouco de militâncias. E isso reflete-se na juventude, obviamente. Com efeito, a ver estamos que, não havendo por onde a juventude se espelhar, vai com os mesmos ventos. E quando falo de militância, falo de finca-pé, de dar palmadas na mesa por causas que sejam minimamente do interesse de ordem pessoal (ao menos). De saber se organizar, criticar, apontar soluções, perspetivar e operar mudanças. E sobretudo tirar o problema do umbigo político.

Também és um jovem empreendedor, criaste a tua própria empresa. Como vês esse movimento todo à volta do empreendedorismo jovem? Há de facto um sistema e um ambiente favorecedores e efetivos para que o jovem possa empreender e as coisas darem certo ou não passa de um discurso de moda?

Se fosse pelo discurso político de que vivemos na era das oportunidades para jovens empreendedores, estaria tramado. O empreendedorismo deve, defendo eu, ser uma virtude pessoal. Ou és ou não és. Quem empreende, faz. Não se substancia de conjunturas. Caso contrário, tramado se está. E a experiência (pessoal) é desoladora, em muitos sentidos, porque não é fácil desbravar por estes terrenos. Todavia, volto a sublinhar, a forca de empreender esta mais na estrutura interna de cada um e na capacidade de se ser resiliente.

A juventude cabo-verdiana tem sido taxada de omissa, desinteressada e alienada. E que lhe falta uma certa atitude reivindicadora para exigir responsabilidade aos decisores do país. Porque achas que os jovens cabo-verdianos não se envolvem muito nas grandes questões do país, não reivindicam onde devem de facto fazê-lo?

Precisamos de um twist, isso é verdade. Felizmente, temos de reconhecer que existe um punhado de jovens que está na linha da frente da mudança, mas ainda assim não são uma mão-cheia. Daquilo que vejo, escuto e sinto, os jovens estão desacreditados no país, e a maioria pensa em sair, e muitos não se reveem nas condições que aqui temos. O cenário não é dos melhores, de facto. Então, com estas entrelinhas, e tentando não cair num mau augúrio, eu diria que podemos inverter as coisas, mas isso terá de contar com abanões profundos no modus vivendi da nossa sociedade a começar pela educação e a terminar nela. É por aí.

Quando olhas para esta geração da qual fazes parte, e que será daqui a alguns anos, a líder da Nação, o que pensas do futuro da mesma?

Aí está uma boa pergunta! Vamos manter os dedos cruzados! É uma geração que protagonizou grandes mudanças, que é de certa forma muito privilegiada, mas que ainda vive com um enorme ponto de interrogação a pairar acima da cabeça. Há uma descrença enorme no amanhã. Eu vou manter-me em cima do muro e dizer que tudo depende do rumo que o país tomar em termos de transformação político-social.

Hoje, o que mais se ouve é “temos que pensar local, agir global. Temos que estar à altura do mundo globalizado”. O que falta ao jovem cabo-verdiano para se inserir na aldeia global, para de facto impactar ao nível global e estar à altura desses desafios??

O jovem cabo-verdiano precisa de largar de “moleza” e entender que ou jogas bem ou ficas na bancada. Muito “mimimi” e “coitadice”, nunca levou ninguém a lado nenhum. Num país com mulheres ao sol na “cati-cati”, para pôr pão na boca de muitos marmanjões, temos um bando de alucinados no “desculpismo” e ao mesmo tempo na farra, em busca do sabi. Todo o mundo ligado nas redes, mas muito pouca gente entendida do poder do networking. Com um dedo à distância do conhecimento, a maioria se preenche de futilidades. Falta DESPERTAR. Somos atlânticos, somos insulares, tudo bem. Mas façamo-nos ao mundo! O jovem tem de saber se posicionar à escala global e tirar partido da nossa 'cabo-verdianidade'. Temos tanto de singular para nos demarcar neste mundo ávido de consumir o novo, o exótico, o wow! Então, tudo está na mudança de postura!

Quais são as tuas grandes ambições e os teus sonhos?

Que eu possa usufruir, em Cabo-Verde, do mesmo nível, da mesma qualidade, com a mesma variedade as práticas culturais e artísticas que aqui são invisíveis ou inexistentes. Isso, por si só, daria-me grande ânimo.

Alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?

Tudo o que acima já citei. Nu labanta, nu fasi!

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