Situada na costa atlântica de Marrocos, com uma população de 5 milhões de habitantes, a cidade de Casablanca é o cenário do terceiro Fórum da Rede de Mulheres Jornalistas Africanas “Les Panafricaines”. É no âmbito desta iniciativa que 60 jornalistas, das 300 que vão estar no evento a partir do dia 6, conheceram a experiência de Marrocos em termos de tratamento e preservação dos recursos hídricos através da reutilização das águas residuais na irrigação agrícola.

Um dos desafios de uma cidade com uma população tão grande, quase 10 vezes superior à população de Cabo Verde, por exemplo, é a mobilização dos recursos hídricos, segundo explica o professor universitário Fouad Amraoiu, que é um investigador na área de desenvolvimento sustentável e expert desta edição do Fórum.

Uma das soluções possíveis para uma gestão sustentável da água é a reutilização das águas residuais das cidades. Foi neste sentido que a comitiva de jornalistas africanas visitou a estação de tratamento de águas residuais (ETAR) de Mediouna, uma pequena cidade nos arredores de Casablanca com 40 mil habitantes.

A ETAR de Mediouna faz o tratamento diário de 3 mil metros cúbicos de água. Depois de tratada, em duas fases uma das quais envolve um tratamento biológico, a água vai para um reservatório e pode ser usada na agricultura, apesar de não ser considerada água potável própria para consumo doméstico.

Paralelamente ao tratamento, no recinto da estação existe uma horta urbana e um jardim, ambos regados com a água produzida no local e que servem de ‘laboratório’ para os especialistas estudarem o impacto da água tratada no desenvolvimento de certas espécies e onde é possível encontrar árvores, plantas aromáticas, legumes diversos.

III Fórum de Mulheres Jornalistas de África Les Panafricaines em Casablanca
créditos: CM

A aposta na agricultura sustentável foi outro aspeto salientado em conversa com o SAPO pela conferencista Fettouma Djerrari Benabdenbi, socióloga de formação e cofundadora do movimento “Terra e Humanismo em Marrocos” que há mais de 20 anos dedica-se a este ramo.

“A África possui mais de um quarto das terras aráveis do planeta”, adianta a especialista para a qual a agricultura sustentável além de ser uma questão ecológica é também económica e que argumenta que estes dois aspetos podem estar associados.

Fettouma Djerrari Benabdenbi advoga que o papel dos media é despertar a consciência da população para as vantagens da agricultura sustentável, do papel do pequeno produtor e do cultivo do solo preservando a natureza. “Mais do que pensarmos na perspetiva de que a natureza está ao serviço do ser humano, temos de ver que somos parte da natureza”.

“Com o crescimento das cidades e a saída crescente da população do meio rural como vamos alimentar as pessoas?”, questiona a especialista.

A questão do crescimento urbano exacerbado é também levantada pelo professor Fouad Amraoiu que explica que no continente africano, onde a população já ronda os 1.2 mil milhões de habitantes, a taxa de crescimento urbano é de 5 por cento e, em Marrocos, as previsões apontam para que até 2030, cerca de 70 % da população viva nas cidades.

Este aumento da pressão sobre as metrópoles traz consigo outros desafios como a urbanização informal e insegurança, o consumo em excesso de energia e de recursos hídricos, poluição a vários níveis, aumento de resíduos urbanos, contaminação da água, entre outros.

Trazer estes temas relacionados com o ambiente e o desenvolvimento sustentável para o debate público é uma das ambições da 3ª edição do Fórum da Rede de Mulheres Jornalistas Africanas, organizado pelo grupo media 2M. O evento decorre até o dia 8 de março, em Casablanca, e cerca de 300 jornalistas africanas, entre as quais estão jornalistas de Cabo Verde, vão debater o papel dos media enquanto agentes de mudança na emergência climática.

 

A jornalista está em Marrocos a convite da organização da Rede 'Les Panafricaines'.

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