Fernando Cá, administrador da AMIC, disse hoje à Lusa que a sua organização tem conhecimento de "pelo menos duas barracas" (locais onde o ritual é feito, no mato) nos arredores de Bissau, juntando "centenas de crianças".

O dirigente não compreende o "silêncio das autoridades", quando se vê, disse, que as crianças estão a abandonar as escolas, num período crucial do ano letivo, frisou.

"Estamos num país em que o Governo é fraco, é verdade, mas há regras que devem ser seguidas", afirmou Fernando Cá, lembrando que em anos anteriores o fanado [ritual de circuncisão] só podia ser organizado com autorização do Governo.

O dirigente da AMIC sublinha a sua estranheza quando o ministro da Administração Territorial do Governo demissionário, Sola N'Quilin, vem dizer que uma pessoa organizou o ritual no seu bairro sem ter a autorização necessária.

Fernando Cá considerou que por detrás do ritual há um negócio que é feito pelo "dono da barraca", o responsável pelo fanado, que cobra alguma soma em dinheiro por cada criança que é submetida à circuncisão.

"Sabemos que há donos das barracas que têm angariadores que aliciam as crianças para irem ao fanado", afirmou Fernando Cá.

Em 2017, um "dono da barraca" na região de Biombo, no interior, chegou a amealhar mais de 11 milhões de francos CFA (cerca de 7,2 mil euros), disse.

O dirigente da AMIC receia que, com a falta de controlo das autoridades, a prática esteja a acontecer "um pouco por todo país".

Fernando Cá observou que é a preciso que o Governo legisle sobre o período em que o ritual pode acontecer, para evitar que as crianças abandonem as escolas em pleno período escolar.

Cá apela para um envolvimento das autoridades "na problemática da circuncisão" como se viu com a questão da Excisão Genital Feminina (que é feita às raparigas), oficialmente criminalizada na Guiné-Bissau desde 2011.