Um equipa de cientistas dos Estados Unidos desenvolveu uma técnica computacional que consegue identificar as imagens que uma pessoa está a ver. O programa recorre à ressonância magnética para analisar imagens captadas pelo córtex de pessoas, quando estas estavam a olhar para uma série de figuras. O estudo foi publicado na edição de ontem da revista científica Nature e divulgado pela BBC.

Os testes realizados pelos cientistas da Universidade da Califórnia conseguiram acertar nove em cada dez imagens. Segundo os pesquisadores, esta nova técnica abre caminho ao desenvolvimento de um aparelho que consiga fazer a leitura da memória ou dos sonhos ao reconstruir as imagens visuais.

«Em breve, talvez sejamos capazes de reconstruir a imagem de uma experiência visual apenas ao observar a actividade do cérebro. Imagine um aparelho que faz leituras do pensamento, capaz de reconstruir a imagem da experiência visual de uma pessoa em qualquer momento», disse à BBC Jack Gallant, responsável pelo estudo.

Apesar de optimistas, os cientistas afirmam que, por enquanto, a técnica apenas pode ser aplicada a imagens estáticas, já que os aparelhos de ressonância magnética conseguem fazer apenas uma leitura a cada três ou quatro segundos. E isto impossibilita a descodificação da actividade cerebral perante imagens em movimento.

Para realizar a pesquisa, os cientistas tiveram que treinar o software para decodificar a actividade cerebral de cinco voluntários, que foram estimulados visualmente com mais de mil imagens diferentes durante cinco horas consecutivas. Este treino ensina o software a descodificar como o cérebro de cada pessoa assimila as informações visuais, diz o estudo.

No passo seguinte, os pesquisadores partiram de uma série de 120 imagens e usaram o software para prever a actividade do cérebro esperada durante a exposição dos voluntários a estas imagens. Finalmente, este segundo grupo de imagens foi exibido novamente aos voluntários, enquanto estes eram submetidos à ressonância magnética. Aqui, o programa identificou, com apenas base nas ressonâncias, as imagens para as quais os voluntários estavam a olhar.

Contudo, os resultados destaa pesquisa levantam questões sobre a privacidade das pessoas e as implicações éticas da “leitura” dos pensamentos. De acordo com Gallant, em 30 ou 50 anos, os avanços podem ter implicações sérias na privacidade das pessoas. «Nós acreditamos que ninguém deve ser submetido a nenhuma forma de leitura da mente de forma involuntária ou sem informações suficientes ou consentimento», disse Gallant.

Sónia Santos Dias

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