Antes de mais, fala-nos um pouco de ti. Quem é o Aricson?
Sou de São Vicente, Ribeira Bote, tenho 33 anos, sou gestor de formação e trabalho na Electra Norte. Considero-me uma pessoa dinâmica, que gosta imenso de desafios, de correr atrás para que as coisas aconteçam. Sou muito determinado e quando quero que algo se concretize, persisto e é assim que tenho conseguido parcerias para o projeto que estamos a implementar. Também gosto imenso de praticar desporto e atualmente, sou presidente de uma instituição desportiva e cultural, o Sport Clube Ribeira Bote.

Sei que o clube não se dedica apenas ao desporto, mas tem igualmente uma forte intervenção social. Essa ligação à área social sempre existiu ou foi algo que surgiu no teu caminho, pelas coisas que foste observando?
Sempre tive paixão pelo desporto, mas o despertar para a área social surgiu pelo facto de pertencer a uma comunidade bastante crítica, com vários problemas sociais, e considerada a zona mais problemática da ilha, em todas as vertentes. Assim sendo, senti que tinha que fazer algo pela comunidade onde cresci. Quando criança brincava com os meus amigos pela zona e reparava nas dificuldades que alguns tinham e agora vejo que estas dificuldades tendem a agravar-se. A situação é muito difícil. Por isso pensei ligar o desporto ao social. Aproveitei o facto de ser presidente do clube e porque o desporto é uma área que mobiliza muita gente, e com a contribuição de parceiros e criei, em 2008, o projeto denominado “Acompanhá nos mnine e jovens”.

Clube Ribeira Bote

Fala-me um pouco desse projeto
Somos uma equipa constituída por seis pessoas. A missão principal é prestar assistência às criança e jovens da comunidade, dar-lhes um acompanhamento a nível da educação, com doação de materiais escolares, uniformes, aulas de explicação e de música, e também acompanhamento médico, ginástica e ainda asseguramos uma refeição quente todos os dias antes de irem à escola. Acompanhamos 82 crianças, do ensino básico, do primeiro ao sexto anos, durante o período escolar, mas também nas férias. Fazemos com que se sintam bem acolhidas e integrados, pois sabemos que pertencem a um meio bastante vulnerável, com problemas como alcoolismo, gravidez precoce, consumo de drogas, abandono e insucesso escolar, entre outros. Queremos, juntamente com os nossos parceiros, orienta-los, e, no caso dos jovens, dar-lhes formação, criar condições para que fiquem aptos para o mercado de trabalho, porque a maioria deles pertence a famílias de baixa renda, logo não têm oportunidades de realizarem os seus sonhos.

Acredito que os resultados estão a ser positivos…
Sim. O impacto é bastante positivo. A comunidade está se engajando de uma forma que não estava a espera. Os pais perceberam a importância do projeto e mandam os seus filhos ao centro, em vez de os deixarem andar na rua. Também tem sido positivo o engajamento dos jovens, que procuram o centro para obter informações sobre cursos de formação profissional. Há uma boa dinâmica, e com perspetiva que algo para acontecer. Sinto que com este projeto, a curto e médio prazo, vai haver mudanças na comunidade. Tencionamos alarga–lo para outras comunidades próximas para incluir mais crianças e jovens.

Sabemos que os projetos sociais são sempre daqueles que mais recursos precisam, sob pena de falharem nos seus propósitos. Onde procuram financiamento para as atividades?
Sempre fui uma pessoa muito ativa. Não sou pessoa de ficar muito tempo a espera de respostas de entidades que, por missão de serviço público, deveriam contribuir. Busco as minhas próprias parcerias e tenho conseguido. Várias empresas nacionais apoiam, temos a colaboração da Escola Portuguesa do Mindelo, que cede professores estagiários para as aulas de explicações, uma associação em Brockton, nos Estados Unidos da América, envia materiais escolares, temos médicos que se voluntariam para dar consulta às crianças e a própria comunidade. Não queremos nem pedimos dinheiro, mas antes, materiais, equipamentos e pessoal voluntário.

Já agora aproveito para saber a tua opinião, enquanto ativista social, sobre como esta área sendo tratada no país? Que papel tem merecido?
Eu vou falar-te do caso de São Vicente, que é a minha ilha. Há uma falta de visão por parte das entidades competentes para com o social. Não há um programa contínuo, voltado para esta área. Temos uma série de problemas sérios aqui, aliás, a situação é bastante critica, principalmente na camada jovem, e nem o poder central nem o local estão a dar-lhes a devida atenção. Há escassas iniciativas de cariz social em São Vicente e quem se disponibiliza para fazer algo, não tem respostas.

Mas como já disseste que há que correr atrás para fazer as coisas acontecerem. Não achas que assim podes estar a desculpar os jovens que não fazem nada com o argumento de não haver apoios e respostas?
Digo sempre que não devemos esperar pelos poderes públicos, ainda que estes têm o dever de ajudar. Temos que perseverar e procurar outras formas. Mas, por outro lado, não culpo só os jovens porque há muitos que querem fazer algo, mas ninguém os ouve, nem os recebe. Depois, há um grande problema aqui, que é o acesso à informação para que os jovens saibam o que existe em termos de programas de empreendedorismo e formação profissional. A informação deve sair dos espaços tradicionais, dos centros de emprego, e ir para mais perto das comunidades. Vais-me dizer: “Mas os jovens têm que ser mais interessados e irem à procura das informações”. Sim, devem, mas já sabemos como são eles. Então, é preciso levar a informação para mais perto deles. Tendo as informações, eles interessam-se. Vejo isso no nosso centro.

E falando na formação profissional, o projeto tem também essa vertente, certo?
Sim. Já temos um protocolo com o IEFP para que os nossos jovens possam receber formação em várias áreas e, posteriormente, serem colocados em estágios para que possam se inserir no mercado de trabalho. Mas gostaria de tocar um aspeto muito importante. Há muitos jovens, em São Vicente, que ficam fora desses programas de formação porque não têm recursos para pagar. A grande maioria são jovens desempregado e oriundos de famílias de baixa ou nula renda. Então, como vai um jovem desempregado pagar uma formação? Suponhamos que um jovem, se quiser, pode pegar um dia de trabalho e conseguir o valor para a formação. Mas vai trabalhar onde, se não há trabalho? É preciso repensar esse programa para que todos sejam incluídos.

Mas vamos concordar que há muita passividade, comodismo e conformismo por parte de muitos jovens, em relação a muitas questões.
De facto, a maioria dos jovens é bastante passiva, não se preocupa com assuntos importantes do país. Alguns porque nem sequer procuram estar informados. Mas, para outros, faltam oportunidades para que sintam vontade de participar, e acredito que há quem tenha essa vontade. Também há os que ficam à espera das promessas que lhes são feitas.

Quando olhas para esta geração da qual fazes parte, o que pensas do futuro do país?
Poderia pensar que teremos um futuro mais risonho, já que a maioria dos jovens tem acesso à informação, mais facilidade de entrar numa universidade, diferente de há 20 ou 30 anos. Mas quando observo o que se passa, os problemas que o país tem, a atitude e comportamento de muitos jovens, sinceramente, fico seriamente preocupado. Precisamos urgentemente de mais programas eficazes para os jovens, não apenas de emprego e empregabilidade, mas de promoção de valores. Nesse último ponto, estamos a perder e muito.

Alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?
Têm que correr atrás e acreditar que é possível!

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