Antes de mais, fala-nos um pouco de ti e dessa tua paixão pelo ativismo

Tenho 31 anos, nasci e moro na cidade da Praia e trabalho na Câmara de Comércio de Sotavento, na área do Desenvolvimento Empresarial e Inovação. Sempre fui apaixonada por causas e projetos sociais, sendo voluntária em ONGs e escolas, participando em marchas, fazendo estágios e a trabalhar com organizações internacionais. Os direitos humanos e o ativismo sempre foram algo de grande importância para mim, desde muito pequena, quando me dei conta da necessidade de equidade e igualdade entre as pessoas. Na época, não sabia expressar aquilo por palavras, mas eu via e sentia aquela necessidade. Foi durante o liceu e na faculdade que desenvolvi uma compreensão mais profunda da importância do ativismo. As aulas e as atividades de voluntariado moldaram-me, transformando-me numa ativista. Hoje não importa onde eu vá profissionalmente, ou no meu dia a dia, busco implementar a minha essência de ativismo, que para mim é tudo.

O teu ativismo é muito ligado à defesa do ambiente. Essa paixão pela área ambiental sempre existiu ou foi algo que surgiu no teu caminho pelas coisas que foste observando?

Tenho um grande amor e respeito pelo meio ambiente e pelos animais. Meu ativismo ambiental começou num nível muito pessoal. Sinto-me sempre preocupada com o que coloco no meu corpo. Faço questões como “de onde vêm as maçãs que eu como?” “Uma floresta foi destruída para que eu pudesse consumir certos produtos”. Por outro lado, as caminhadas e o desporto ao ar livre também contribuíram para o meu apreço pela natureza. Eu não sou a consumidora perfeita, também sou realista e dependendo do local onde estiver adapto-me ao contexto e à minha realidade! Porém, quero enfatizar que adaptar não significa se conformar! Adotei uma visão mais global, quando comecei a estar ciente da extensão e dimensão que estávamos destruindo nosso planeta. A nossa relação com o meio ambiente não é equilibrada, não há troca, apenas extração. Ao minar o meio ambiente, colocamos a nós mesmos e as futuras gerações e todos os seres vivos nesta terra em imenso risco. Nós distanciamos-nos da natureza como uma entidade separada de nós, quase como para justificar a destruição e não encarar a culpa.

E todo esse ativismo ambiental levou-te a cofundar, em Cabo Verde, o Movimento Ecofeminismo. Para quem não sabe, o que é o ecofeminismo?

O Programa Ambiental das Nações Unidas realça que o destino do nosso meio ambiente está entrelaçado com os direitos das mulheres em contribuir para o desenvolvimento sustentável como um todo. O ecofeminismo junta a sustentabilidade ambiental e a igualdade de gênero como uma combinação equilibrada, para defender ainda mais o desenvolvimento sustentável. Como um movimento, buscamos ser inclusivos, iguais e equitativos. Vemos a ligação que existe entre a forma que os homens têm dominado o ambiente, com práticas insustentáveis e como isso é semelhante à forma como a sociedade tem fomentado uma relação insustentável entre os sexos e aqueles que se conformam com papéis tradicionais de gênero.

Faz sentido falar de um Ecofeminismo e de haver um movimento Ecofeminista?

O movimento é importante, especialmente por sua mensagem e o que estamos tentando alcançar. Como mencionado anteriormente, quem é mais sobrecarregado com o impacto das mudanças climáticas são aqueles que já estão em desvantagem na sociedade, mesmo que às vezes as desvantagens possam parecer pequenas para quem está de fora, especialmente quando se impõe perspetivas e preconceitos em relação a um assunto e se reduz a importância da igualdade. Não deixemos que a perspetiva e as pequenas desvantagens dos outros fiquem insignificantes. Essas pequenas desvantagens são cumulativas, pequenas gotas que se transformarão num tsunami. Mais do que nunca, a hora é agora de tomar uma posição e progredir.

Faz-nos falta mais olhares ao Ambiente de Cabo Verde? Como ativista ambiental, como vês esta área sendo tratada no nosso país?

A contribuição de Cabo Verde às alterações climáticas e poluição é realmente insignificante. No entanto, em nenhuma circunstância, isto significa que não devemos estar preocupados. Nós somos a linha de frente e vulneráveis. Muitas nações insulares já estão confrontadas com circunstâncias que antes eram inimagináveis. Há populações e comunidades perdendo as suas casas devido à subida do nível do mar e outros desafios que lhes ferem na realização dos ODS. Precisamos ser mais vocais e ativos em nível global para termos mais visibilidade. Nós já temos muitos problemas ambientais preocupantes, como as secas, os nossos oceanos que precisam ser preservados, pois são um dos nossos recursos mais valiosos. Acredito que ainda há muito a ser feito, e acho incrível quando grupos ambientalistas aparecem e estão prontos para agir. É importante que a sociedade civil assuma a liderança neste desafio.

Tens-te engajado em algumas causas sociais. Fazes parte do Praia Hub dos Global Shapers que um grupo formado por jovens que atuam em diversas áreas. Fala-me deste projeto e de que forma estás envolvida.

Atualmente, lidero o Global Shapers Praia, parte do World Economic Forum, e juntamente com nossos membros, executamos um projeto que, esperamos, prepare os alunos na escolha dos seus percursos académicos e, a longo prazo, aprendam lições que possam levar nas suas jornadas profissionais. O projeto é chamado Kriolshadowing. Juntamos estudantes e mentores de várias áreas profissionais para se encontrarem duas a três vezes por semana, durante três semanas. Os mentores falam aos jovens sobre as suas carreiras, não apenas a parte técnica, mas também soft skills, nomeadamente sobre o contexto de Cabo Verde e também o atual contexto global do mercado de trabalho. Esperamos inspirá-los a alcançar o sucesso e, de alguma forma, combater o desemprego juvenil.

Também sei que estás envolvida num projeto com jovens de dois liceus, na cidade da Praia. Conta-nos em que consiste esse trabalho?

Estou envolvida na implementação do Kriolshadowing! Contudo, não sou uma mentora. Adoro mentoring e espero ter a oportunidade de o fazer na Praia em breve. Um mentor pode ter um impacto incrível sobre as vidas dos estudantes. Testemunhei quando fiz voluntariado numa escola só para meninas, em Harlem, Nova York. Esse pequeno ato pode ser uma mudança de vida para eles.

Que impactos tiveram ou estão a ter os projetos implementados por ti?

Numa primeira fase, o projeto é propositadamente de pequena escala, para que possamos dar atenção suficiente aos alunos e aos mentores. Os alunos que já iniciaram a orientação dizem-me que estão realmente a gostar, recebendo informações e conselhos muito úteis. Encorajamos um diálogo aberto e troca de ideias, para continuarmos a melhorar a qualidade do projeto para a próxima fase. Estamos dando uma orientação muito necessária aos alunos que estão numa idade que geralmente é confusa e cheia de pressões. Esperamos ver o impacto de longo prazo à medida que ampliamos o projeto. É um processo passo a passo.

Andrea Pereira
créditos: Fotos cedidas

Confessaste-me que tens um sonho que é o de incentivar os empresários nacionais a verem a questão de sustentabilidade ambiental como uma oportunidade de negócios e inovação. De que forma pode ser a sustentabilidade ambiental uma oportunidade de negócios?

Muitas empresas, a nível global, estão a trocar, aos poucos, os métodos de produção poluidores para métodos mais verdes, eficientes e eficazes, pois, a direção dos mercados está a mudar. Há consumidores mais conscientes, políticas e tratados recentemente aprovados que reforçam e apoiam a sustentabilidade ambiental. Empresas, bancos grandes e investidores já perceberam e estão prontos para investir num futuro mais verde. Eu gostaria de consciencializar as empresas de que elas não estão separadas das questões sociais ou ambientais, que a sua existência tem um impacto significativo dentro das suas comunidades, que a sua sobrevivência depende do bem-estar das suas comunidades e das pessoas que moram nelas. Considerar um plano de negócios ou projeto que leve em consideração o ambiente ou mesmo questões sociais pode abrir muitas oportunidades para financiamento dos seus projetos. Há uma vasta gama de fundos internacionais e oportunidades inexploradas. Só falta um pouco mais de visão e o setor privado se posicionar como um ator fundamental no desenvolvimento sustentável.

Como vês o engajamento e a atitude dos jovens cabo-verdianos face aos grandes problemas da atualidade?

Gostaria que os jovens se envolvessem muito mais! Mas não é fácil. O ativismo consome energia e pode desgastar-te, pois não é algo que simplesmente permanece na tua mente e vai embora. Consome a tua alma, obriga-te a perceber as dificuldades mais de perto para ouvir e testemunhar o desespero das pessoas. Leva-te para uma espécie de montanha-russa emocional de indignação e esperança, é realmente insano. Eu acredito que há uma vontade. No entanto, eu quero ver os jovens mais privilegiados da nossa sociedade a ser mais hands-on. Existem incríveis líderes comunitários e ativistas e precisamos apoiá-los. Eles não podem fazer todo o trabalho para continuar a lutar pelas causas porque eles estão duplamente sobrecarregados. Eles estão a usar toda essa energia, provavelmente com pouco apoio e limitações financeiras, para implementar um projeto social que possa melhorar o bem-estar da sua comunidade, enquanto simultaneamente sofrem com os problemas das suas comunidades, como a pobreza e a violência. É problemático fechar os olhos e ser indiferente às questões ambientais e sociais ao nível nacional ou global. A apatia é tóxica, destrutiva no seu silêncio.

Mas porquê achas que os jovens não se envolvem muito nas grandes questões do país?

Pergunto-me isso todos os dias. Acredito que é preciso haver um sistema mais convidativo para permitir que os jovens sejam mais envolvidos e integrados, para fomentar um ambiente onde as suas vozes sejam ouvidas e eles sejam levados à sério. Sinto em muitos jovens cabo-verdianos uma frustração, que eles se sentem apenas como uma gota no oceano. Aí lembro-me desta citação: “se uma árvore cai numa floresta e não há ninguém por perto para ouvi-la, será que ela faz algum som?”. Esta citação reflete a falta de motivação que muitos jovens sentem quando tentam investir o seu tempo e energia em questões que afetam o país. Os jovens precisam ser capacitados, valorizados e apoiados em todas as sociedades; os líderes jovens também precisam de mentores. Por sorte, percebo que as marés podem estar a mudar com a persistência daqueles que são grandes líderes dos grupos da sociedade civil e dos poucos líderes jovens, que têm o poder de mobilizar e abrir as portas para mais jovens.

Quando olhas para esta geração da qual fazes parte, o que pensas do futuro? O que falta ao jovem cabo-verdiano para se inserir na aldeia global, para de facto impactar ao nível global e estarem à altura desses desafios?

Pode parecer um processo lento, mas a minha geração está no ponto de reviravolta. Nós daremos à próxima geração a abertura e apoio que sempre desejámos e buscámos. Porque nós vemos e entendemos que o mundo não está esperando por ninguém e está se movendo cada vez mais rápido, a cada ano que passa. Não acredito que realmente algo esteja a faltar-nos, estamos completos, temos tudo para dar grandes passos para sermos notados globalmente, estamos prontos! Só precisamos ajustar a nossa mentalidade e saber em primeiro lugar que podemos ser de um país pequeno, mas já somos todos os intervenientes na plataforma global, só precisamos mudar um pouco as nossas perspetivas.

Alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?

Embora tenhamos vários obstáculos, somos resilientes, o caminho para o nosso desenvolvimento nunca nos foi prometido ser fácil! Então, precisamos continuar a perseverar. A cidadania não é apenas para os dias de sol, mas para os sombrios também. Devemos retribuir sempre que podermos, não precisa ser de forma grandiosa, também há valor em gestos simples. Um jovem pode ser aquela árvore que caiu e ninguém ouviu. Mas para o céu, ele não passou despercebido.

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