Era o nonagésimo terceiro dia daquele rotineiro hábito. Contaram-me as colegas, também elas companheiras de pescadores, que mal o sol se formoseava por entre as nuvens, Felizarda pegava nos seus objetos e rumava à pequena praia, ao lado do cais. Ali, varria o horizonte de ponta a ponta, na expectativa de ver surgir o bote azul e branco batizado de Speransa. Esperança era precisamente a coisa que a mantinha em modo existente. Evaristo haveria de aparecer a qualquer momento, naquela praia, onde noventa dias atrás se despedira dela, murmurando no ouvido que lhe guardasse calor e kusa sabi. Evaristo partira na companhia de do velho e experiente Nhô Lela e do jovem Toizim de Nhâ Teja, conhecido pelos seus dotes de exímio pescador de peixes e de moças bonitas. Saíram ao primeiro cantar do galo. Felizarda tinha ido acompanhado o marido até ao embarcadouro improvisado e este despediu-se dela com um djam bai ti ki nbem. Os homens do mar não aprenderam os afetos.

Confidenciou-me, por entre o costurar dos novelos, que, em mais de duas décadas de convivência, nunca se acostumara com as partidas do marido. Apenas o coração ia mudando de tamanho, encolhendo sempre que o bote se afastava e só voltando à original condição, quando o marido lhe adentrava a casa, dois ou três dias depois, carregado de suculenta peixaria e de saudades. Há noventa e três dias, o marido despediu-se dela com a promessa de que haveria de trazer pescaria farta e que se assim fosse, na graça de Deus, e das santas Luzia e Bárbara, batizariam os primonetos gémeos e dariam a maior festa, jamais presenciada naquelas bandas. Há noventa e três dias o esperava. Evaristo não era pescador de pedra de mar.  A reverência com que os colegas falavam dele comprovavam a sua fama. Tentei em vão convence-la de que o melhor seria se ficasse em casa, dando força aos restantes membros, também eles a sofrer pela ausência do patriarca. Também eles a precisar da sua força.

De nada lhes valeu chama-la à razão e pedi-la que fosse para casa. Se eu me for, senhora, Evaristo não me escutará. As autoridades já tinham sido avisadas e as buscas pelos pescadores desaparecidos seriam feitas. Que fosse serenar os filhos. Felizarda não desarmou nem se mexeu. Desfez-se em desobediências. Sentou-se na areia, cuidando para que a sua roupa não amarrotasse. O marido não podia encontra-la desarranjada. A noite veio encontra-la ali, serenamente prostrada, sentido pontadas de dores que procurava ignorar. Minutos. Horas. Dias. Depois veio o primeiro mês. E o segundo. E mais um. As buscas cessaram. Bocas protestaram. Que era muito descaso das autoridades. Mas nada mais havia a fazer. Talvez, com sorte, o bote poderia dar a alguma costa, Guiné, Senegal ou até mesmo Brasil, onde já tinham ido parar alguns.  A vila enlutou-se. Calaram-se as bocas, não mais a ladainha de peixe fresco, que à boca do porto juntava gentes sorridentes a antecipar o festim. O funeral, já com data marcada, ia se fazer sem os corpos, repousados quiçá, no fundo do mar.

Deixei Felizarda, o cais, a vila, com imensa tristeza. Antes, prometi-lhe que haveria de voltar brevemente para visita-la. Mas o brevemente transformou-se em dias e depois em meses. No sábado chegou-me a notícia. Digamos que talvez esta não me tivesse surpreendido. No fundo, esperava aquele desfecho. Foi a peixeira Das Dores, que vinha todos os sábados vender-me peixe, que me contou do trágico acontecimento. Felizarda matou-se. Entrou para dentro do mar e foi caminhando por entre   as ondas, esquecida que não sabia nadar. Alcino, jovem mergulhador e pescador de marisco, viu-a e foi em seu encalço. Tarde demais. O rapaz contou-lhes que a ultima palavra que Felizarda balbuciou, antes de sucumbir, foi alem ta bai, Evaristo.

Em homenagem ao Dia do Pescador Cabo-verdiano

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