Urdi foi Música

O tema escolhido para este ano foi Música, Poéticas Visuais. Com este fazia-se um convite a um explorar da interação entre a música, o artesanato, o design e demais expressões visuais através de experimentações estéticas, plásticas e formais”. E a interação aconteceu.

Os dias da Urdi foram dias da música. A música estava em tudo e em tudo havia música.
Começou já nas residências criativas, onde artesãos e designers, combinaram os seus saberes e evocaram instrumentos musicais e outras expressões do fazer música. Manifestou-se ainda nos encontros com velhos mestres ou os espólios das suas criações em visitas às suas oficinas e exposições evocativas. Manifestou-se nas grandes conversas, nas oficinas e claro, no palco montado na Praça Amílcar Cabral – a central Praça Nova – onde noite após noite quem fez-se presente pode deliciar-se com a boa música cabo-verdiana, a começar na poesia musical de Vasco Martins, seguindo-se as belas mornas de Bitú, passando para outras sonoridades nas vozes de Jenifer Solidad e Constantino Cardoso, a boavistense Gabi e o maiense Tibau, representando os dois municípios em destaque nesta edição.

O encontro entre música, artesanato, design e demais expressões visuais — como a fotografia no bonito encontro entre Rita Rainho e Januário Jano, na exposição “Contiguidade” — foi feliz e o resultado enriqueceu sobremaneira o conteúdo da URDI nas suas diversas vertentes.

Urdi foi homenagem

Com o tema escolhido, não poderia a figura homenageada ser outra que não um mestre artesão da área musical. A escolha de João Batista Fonseca, conhecido por mestre Baptista, é feliz entre outras razões por permitir a quem, como eu, não conhecia o legado deste senhor tenha a oportunidade de mergulhar no seu legado. Legado este que não se constitui apenas da sua obra — feita de belos instrumentos musicais de corda que criou — mas da sua própria vida de homem ilhéu e humilde aberto ao mundo.

Para além da emotiva experiência que foi visitar o seu atelier, hoje continuado pelos filhos (Mestre Baptista faleceu em dezembro de 1997) — e que culminou com o nosso grupo a cantar mornas em coro - o legado do artesão ficou patenteado na exposição “Ritmos e Formas” que, na galeria Zero Point, busca recriar o ambiente em que o mestre trabalhava e mostra em fotografias e textos pequenos vislumbres do seu percurso, dos seus encontros, do seu fazer.

E ainda houve mais homenageados. O Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design — CNAAD, fez subir ao palco do Centro Cultural do Mindelo 20 artesãos cabo-verdianos que, passada a “barreira” dos 65 anos, ainda muito têm a contribuir no sector com as suas criações. Foi-lhes entregue no acto o Cartão de Artesão e o selo “Created in Cabo Verde”, itens que referenciam o artesão como profissional e atribui valor ao seu produto.

Foi bonito testemunhar a emoção desses criadores que vincaram o contentamento que sentiam ao verem-se reconhecidos como profissionais.

Urdi foi Encontros

A Feira do Artesanato e Design de Cabo Verde não se faz só com artesãos e designers e nem apenas com cabo-verdianos. A estes juntaram-se nos cinco dias da URDI em Mindelo, músicos, artistas, arquitetos, académicos e agentes culturais de Angola, Bélgica, Brasil, Espanha, Guiné-Bissau e Portugal. Durante esses dias certamente os encontros fizeram germinar novas parcerias, projectos e criações. A outras, iniciadas em anteriores edições da URDI ou nos meses que a precederam, tivemos o privilégio de ver os frutos.

As residências criativas são por excelência expressão desses encontros. A URDI tem contado com várias e este ano destacaram-se Tambor d’Ilha e Racordai. De “Tambor d’ilha” tivemos a felicidade de testemunhar a reunião de quatro dos cinco tamboreiros de Santo Antão, São Vicente, Fogo e Brava participantes, no repicar de tambores com que receberam, no Centro Cultural do Mindelo os visitantes da muito rica exposição em que culminou a residência coordenada pela designer Eneida Tavares. De Racordai ficou-nos a inventividade na recriação deste peculiar instrumento musical usado no célebre ritual musical da noite de São Silvestre. Os quatro jovens designers que deram corpo à residência dialogaram entre si e com artesãos que habitualmente criam este instrumento para então lançarem-se em novas propostas estéticas.

Outro encontro que rendeu bonitos momentos foi aquele proporcionado pelo projecto Neve Insular, orientado por Rita Rainho, e a designer brasileira Flávia Aranha. Jovens estudantes foram chamados a participar da tingidura dos fios de algodão matéria-prima de eleição do projecto e seguiram depois para a emblemática praia da Laginha em ritualistica lavagem destes mesmos fios que depois enfeitariam uma instalação na Praça Amílcar Cabral, onde pudemos conhecer mais deste projecto que, literalmente, germinou “neve insular”: Na ilha de São Vicente, em Madeiral, planta-se agora algodão.

Espaço de venda, troca de conhecimento, partilha e convívio, a Urdi 2019 foi sim música e poesia visual. A música das grandes conversas, dos risos e cantorias ecoa ainda e a poesia, esta, ficou-nos na retina em formas e cores mil das criações ali partilhadas.

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