São cerca de trinta. Há dias em que vêm quase todos, noutros os que nunca faltam. Todos têm em comum aquilo que mais as crianças gostam de fazer: brincar. E a brincar também se aprende. Aliás, hoje fala-se de eduteniemnto, conceito que alia ações de educação e de entretenimento. E é a brincar que começamos as nossas atividades. Para quebrar a timidez, soltar o sorriso e a imaginação. Porque ela é necessária, não fossem as crianças as rainhas da fantasia.

Já estamos em Pico Leão, uma pequena e distante localidade do interior do município de Ribeira Grande de Santiago. Para chegar à localidade, encravada entre montanhas, vamos até Cidade Velha e de lá, uma nova viagem, por uma estrada sinuosa e apertadíssima. Não obstante o medo nos fazer encolher a cada curva, vamos apreciando a linda paisagem. Prados onde pastam vacas pachorrentas, pequenas casas no fundo de um vale, que mais parecem saídas de livros infantis, árvores fruteiras e marcas deixadas pelo curso da água, quando chove. Aliás, quando começámos a nossa aventura, tudo era muito verde e ainda havia vestígios de água correndo pelas rochas. Chegamos à escola básica daquela localidade onde, quinzenalmente nos esperam as crianças, que quase sempre nos recebem com aquele sorriso meio envergonhado, mas com um olhar que nos mostra a vontade imensa que têm de ali estar.

Vamos começar. A Paula, com a ajuda da professora Ana, coordena as dinâmicas para descontrair o grupo e depois começamos. Da mala saem os livros. Há dias que contamos histórias, há dias que as contamos e não as terminamos para que sejam as crianças a inventarem o fim.  Às vezes juntamo-las em grupos e pedimos que escrevam suas próprias histórias, que depois partilham na nossa roda de conversa.   Salta a vista a contenção delas, algo que nos parece difícil de compreender porque, como já disse, a capacidade de imaginar e fantasiar faz naturalmente parte do mundo das crianças. O que me leva a pensar que talvez estas crianças necessitem de mais estímulos para soltarem tudo que guardam em suas cabeças e corações. Precisam de ouvir mais histórias, ver e ler mais livros, brincar mais, conversar mais. Precisam sair do pequeno quotidiano no qual vivem para fazerem viagens fantásticas, essas que apenas e unicamente os livros e a leitura proporcionam

Contudo, a evolução é percetível. Continuam com aquela timidez própria das crianças arredadas de quase tudo. Mas já falam mais. Algumas até muito. Tem ali quem tenha grande potencial. Impressiona mesmo a sagacidade e forma como algumas delas exteriorizam suas ideias. O pequeno Adilson, de quase oito anos, é um deles. Quer falar quase sempre, nem deixa os colegas pensarem. O Vadil é atento e esperto. Tem uma imaginação engenhosa e uma expressividade assinalável. Com mais oportunidades, os dois vão longe. Também têm interesse nos livros. Pegam neles, abrem-nos e olham para as imagens. Nota-se que não têm aceso aos livros. E precisam ter. Aproveitamos as imagens e pedimo-las que criem as suas próprias histórias. O nosso firme propósito é criar essa conexão e, consequentemente, cultivar o gosto pela leitura. Por ora, nos preocupa simplesmente que cada criança seja incentivada e instigada.

São dezassete horas quando terminamos. Sempre como começamos, com uma brincadeira. Elas adoram! Hoje levamos cartas. Há uma especialmente ternurenta. A do Erickson que convida o pai natal a conhecer a casa dele. Conta um pouco sobre ele, fala da prenda que gostaria de receber e no fim, diz que gosta muito do Pai Natal e que lhe tem guardado um abraço. E nós sentimos a sensação de que estamos a cumprir com a nossa missão: Plantar historias, colher leitores. Na nossa mala, não há apenas livros. Há também os sonhos das crianças de Pico Leão.

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