A viagem a São Vicente faz-se tranquila. Aterro em São Pedro e sigo para a morada. Tenho o prazer de passar pela ilha num momento peculiar. Sete anos após a sua primeira edição ia, finalmente, sentir e viver o Kavala Fresk Festival, evento onde o peixe que leva o mesmo nome é mote e rainha. Decidi que não iria perder nada. Por isso, no sábado, 13, antes do meio-dia, rumo à emblemática Rua da Praia. Faço questão de por ali passar. Há qualquer coisa nessa rua que a faz ser peculiar. Não conheço toda a ilha, mas quero crer que não existe rua onde se possa sentir Mindelo mais do que aquela. A rua dos mindelenses, a rua do povo. Das Virgens Loucas de Nhô Roque e do Monte Cara de Germano. A rua dos pescadores e das peixeiras, das vendedeiras, dos limpadores do peixe, dos homens que se sentam junto à réplica do Torre de Belém – agora Museu do Mar - para jogarem as cartas, em meio a gritos e palavrões que não apartam companheiros.

A rua do mercado do peixe. O mercado! Tão arrumado e tão bem-composto que dá gosto ali entrar e comprar o atum, a serra, a garoupa e a própria cavala. Sigo. Já há movimento. Cadeiras e mesas aqui e acolá, sob tendas armadas. Uma azáfama sem fim, porque já falta pouco e tudo tem que estar pronto para que a kavala brilhe. Prossigo e minutos depois já estou no Centro Cultural do Mindelo onde o Adilson recebe-me com simpatia e amabilidade de um foguense que há muito reivindicou a alma e o way of life do mindelense. Preparam-se os últimos retoques. No átrio uma bela exposição que não só de cores se faz, mas também de mensagens fortes e pertinentes. É preciso salvar o planeta desse inimigo implacável e invisível que é o plástico.

A exposição Txiluf está muito bem conseguida. Desperta consciências, faz refletir. Um caranguejo que fuma uma beata de cigarro que foi parar ao mar. Um peixe que se barbeia com uma lâmina deitada ao oceano; outro que não consegue abrir a boca para respirar porque uma tampa de garrafa o impede; um canto para onde é atirada toda a espécie de lixo que vai parar ao fundo do oceano e, mesmo ali pertinho, um quadro de Kiki Lima onde se vê uma mulher horrorizada perante aquele cenário dantesco. Daqui há alguns anos, teremos cavalas? Ou outro qualquer peixe?

Apenas penso que, por toda a logística montada, a kavala merece reinar não apenas em um, mas em dois dias

O Adilson convence-me a ver o desfile que abre o festival. O das peixeiras e demais grupos que se juntam a frente do plurim de peixe e seguem a música animada até a avenida marginal. Alguns transeuntes se juntam à festa. É quase impossível resistir ao ritmo. Oli kavala fresk gritam as donas do peixe, fazendo refrão à música que ressoa da coluna do som. Terminado o desfile é hora do almoço. A kavala serve-se de todas as formas. Panada, grelhada, em modo lasanha, como hambúrguer, como entrada ou prato principal. Entre a Rua da Praia e a Marginal, ela é rainha. E há musica. Sabores e sons se misturando na encantadora marginal. O Rocca, o meu outro cicerone, leva-me a degustar a kavala e enquanto isso, vai narrando pequenas crónicas das gentes do Mindelo. Revela-me que, finalmente, essas crónicas darão à estampa em outubro. Já não era sem tempo, amigo Rocca! Kavala degustada, é hora de prosseguir.

Há mais à nossa espera. Há música de carnaval na outra ponta da avenida. E para quem, como eu, não vive o carnaval da ilha, deu para sentir um gostinho. Há também imensa gente. Quando olho para o fundo da avenida, é como se toda a ilha para lá tivesse confluído. Fui observando as gentes, as suas expressões e posturas. A alegria natural. A paixão que se vê até nas crianças. Coisa de mindelense.

Há no mindelense uma alegria e descontração que nunca pude observar em mais nenhum outro ilhéu. Diz-se, em tom acusador e critico, que os são-vicentinos gostam muito de festas. Mas, analisando bem, seria melhor se dizer que gostam do que dá alegria e leveza à vida, que afinal são dois dias, há que saber viver. Houve outras coisas. Passeios de bote ao longo da baía, provas de degustação, oficinas de culinária, teatro… uma opção variada para todos os gostos. E no fim, para fechar a noite da Kavala, mais música.

Deixo o festival com uma certeza. Por tudo que vi, acredito que o futuro e o desenvolvimento de São Vicente estão no mar. Numa economia marítima que alavanque uma indústria pesqueira, que junte cultura e turismo de lazer, para que se possa explorar e aproveitar, de forma sustentável, todas as potencialidades existentes, com benefícios para as gentes da ilha. E se há evento que vem a cada ano demonstrando que tal é possível é o Kavala Fresk Festival. Apenas penso que, por toda a logística montada, a kavala merece reinar não apenas em um, mas em dois dias.

Termina o Kavala Fresk Festival e São vicente para trás. Agora, rumo mais a norte. À ilha majestosa me espera. E como sempre, é sempre tão bom a ela regressar!

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