E julho acorda ameno, friorento, nebulado, prenúncio de chuva, sinónimo de bênção. Para trás ficou junho. Das crianças. Para nos lembramos delas e dos seus direitos, bastas vezes negados. À muitas não se fez Justiça. Desesperada, a mãe Giélia fez greve de fome. Sentada à frente do Palácio do Governo, a jovem mãe apenas quis maior celeridade da Justiça, que não consegue obrigar o pai da criança a dar o que esta tem direito: a pensão alimentícia. Mas há muitas Giélias por esse país. E há muitas filhas de Giélias à espera que mentes conscientes acordem para o cumprimento com das suas obrigações morais ou que a justiça se faça mais célere e eficaz.

Junho também foi dos santos populares. De António, João, Pedro e Paulo. Mês das romarias que não foram. Mas os tempos são outros, demandam que adiemos quase tudo que vínhamos a fazer. Este ano não houve nem “lumnaras”, nem pedir saúde ao São João enquanto se saltava a fogueira; adiou-se a peregrinação de levar o santo fujão à sua Ribeira; o santo insubmisso não se revolteou. Calaram-se os tambores no Porto, repousou-se o naviozinho a um canto, numa casa de Djabraba. Nem apitos na Ribeira de Julião, nem mulheres em João Galego a ensaiarem a dança dos umbigos.

Onde estamos nos basta? Ou almejamos outros voos e para estes nos preparamos?

E eis que julho chega. Não há mês mais cabo-verdiano que julho. Julho é da nossa Independência, da nossa liberdade. De refletirmos sobre a nação que somos, nossos anseios, nossos rumos. Onde estamos nos basta? Ou almejamos outros voos e para estes nos preparamos? O que conseguimos nos conforta ou poderemos sempre sermos melhores? Sabemos bem o que queremos ou ainda navegamos ao sabor das marés, confiando numa boa vaga que nos leve ao bom porto?

Não há mês mais cabo-verdiano que julho

Dizia que não há mês mais cabo-verdiano que julho. Julho é do confirmar da fé dos que semeiam sonhos do ventre seco da ilha e esperam que dela brote pão e esperança. Julho é das predições e das rezas de quem jamais se verga aos caprichos do tempo.

Há uma melodia diferente em julho: é a enxada dos obstinados, que abre caminhos da longa expetativa, é o baque das sementes beijando o solo. Se chover, renascem sorrisos, fazem-se outras contas à vida. Há um rebuliço diferente nos arrabaldes dos vilarejos.

Julho terá dias de sol, terá dias carregados; terá dias em que a esperança quererá escapulir porque são tempos outros. Teremos que continuar a descobrir como viver uma nova normalidade, superar etapas, equilibrar a nossa liberdade com o dever de olhar e cuidar do outro. Não há lugar para o individualismo e para superarmos teremos que ter uma atitude e pensamento coletivos.

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