O título poderia ser “A Viagem”. Traduzido para o português seria o mais acertado. Mas não é bem assim. Não se trata de uma mera viagem. Nesse caso, uma road trip é mais do que um mero exercício de pegar num carro ou entrar para um avião ou um barco e ir. Uma road trip seria algo que mesclaria aventura, liberdade, o esquecer de tudo que diariamente nos preocupa. Seria, simplesmente, escapar, evadir. Em tempo de férias, existe coisa melhor? Há que se pensar um pouco antes de se fazer à estrada. Onde ir, como ir, quanto custa, essas perguntas que a maioria que tem que fazer contas à vida precisa se colocar, para melhor planear.

Os tempos não estão fáceis. Aquelas férias de sonho vão sendo anualmente adiadas ou postas de lado. Mas em maré de apertar os cordões da bolsa, já pensou no ir para fora cá dentro? Já pensou que esse dentro pode ser bem mais perto do que você imagina?

Parei um pouco para pensar na trajetória. Não queria um lugar apenas. Queria vários que estão ali ao alcance de quem quer se dar ao prazer da descoberta e da aventura. Numa pequena enseada, numa baia acolhedora e ternurenta, numa praia escondida e de águas cálidas, ou numa montanha. Peguei minha mochila, pouca coisa, e fiz-me à estrada. Primeira paragem: litoral de Santiago. Poderia ir a Tarrafal de Monte Trigo, em Santo Antão. As imagens revelam uma bela praia cercada por uma charmosa baía. Veio-me logo ao pensamento a igualmente bonita e em algo semelhante, a praia de Ribeira das Pratas, no concelho do Tarrafal de Santiago; poderia rumar para Buracona, na ilha do Sal. Aquele buraco de uma imensa “azulidão” tem um quê de mágico e misterioso. E porque não explorar a Cova, na magnífica ilha das montanhas, Santo Antão? Já tive o privilegio de descer as dezenas de curvas que começam mesmo ali na grande cratera e desembocam em Cabo da Ribeira, no Paul. A vista é de cortar o fôlego, literalmente!

Dizia que o litoral de Santiago foi a minha primeira paragem. Escolhi a estrada que vai dar ao Tarrafal e que passa pela Calheta. A paisagem é de uma beleza tocante. Ali, numa das contracurvas situa-se um dos pontos mais bonitos do litoral santiaguense: a pequena baia de Mangue de Sete Ribeiras. Parei um pouco, respirei o cheiro do mar, fotografei e dei um mergulho naquelas águas mornas. Depois, continuei. Próxima paragem: Calheta de São Miguel. Não há como se ficar indiferente àquela casa que mais parece o castelo da Bela Adormecida. Ou a pequena enseada onde o mar se perde da vista. Sonhei uma vez que à noite, os jovens fizeram um luau e que, na brincadeira, pegavam nas pessoas que se recusavam a entrar na água e para lá as atiravam, com roupa e tudo. Depois, dançámos a noite toda ao mesmo tempo que nos ríamos e comíamos peixe grelhado na brasa ali colocada. Terá sido um sonho?

A trip prossegue e já estou no Tarrafal. O conjunto é um cartão postal: a magnífica praia de areia branca, o mar, ora verde ora azul, e o monte Graciosa, vigilante. Mergulho na água e espanto a canseira. Resta-me ainda um tempinho para dar um salto à Ponta d´Atum, mergulhar e esticar-me ao sol, nas pedras que beijam o mar. Depois, comer um bom peixe, voltar à praia.

E passam os dias. Estou de regresso à normalidade. Tomo o caminho do litoral pois quero visitar Ribeira das Pratas e sua praia de areia preta, enfeitada por coqueiros. Troco dois dedos de conversa com aquele simpático senhor, que vende água e coco na berma da estrada, dou um mergulho e sigo. Ainda falta um pedaço até chegar a Ribeira da Barca, onde embarco num bote até a escondida baía de Angra. A viagem está quase no fim. Despeço-me do litoral e penetro no centro da ilha. É sábado e a cidade do planalto está cheia de gente que vem à feira. Não paro. Desço para os Picos e sigo pela estrada que me traz de novo a capital. Sinto-me revigorada.

Não saí da ilha, mas senti a ilha. E que tão bem me soube!

Os artigos de opinião publicados no SAPO Notícias são da inteira responsabilidade do seu autor. O SAPO não se responsabiliza por quaisquer danos morais ou intelectuais dos textos em causa, confiando no rigor, idoneidade e credibilidade dos seus autores.