Confesso que mal fevereiro entra começo a pensar em que local do interior de Santiago, irei “comer as cinzas” ainda que, nos últimos anos, o meu destino seja quase sempre o município de São Domingos, mais precisamente na fresca e hospitaleira localidade de Água de Gato, onde sou tão bem acolhida pela família do meu amigo Artur. Apesar da tradição ser cumprida em toda a ilha, incluindo a capital, prefiro sempre o interior. Ali tudo é preparado conforme manda a tradição e o ritual. Para mim, o verdadeiro sabor do banquete das Cinzas reside no facto de este ser preparado à lenha e com todos os ingredientes. Tudo pronto, é sempre preferível que estejamos em modo de jejum porque, definitivamente, é preciso que haja espaço para caber um pouco de cada coisa. De todo o modo, depois do repasto, manda a tradição “deitarmo-nos ao sol e coçarmos a barriga com a ponta de uma faca”. Uma contradição, uma vez que as Cinzas, sendo uma manifestação cristã, marca o início da Quaresma, período que insta os católicos a maiores contenções, de entre elas, a alimentar. Mas a realidade assim não é, e simbolicamente, hoje é o dia de maior fartura, especialmente para os que cumprem a tradição.

Como uma ironia do destino, comecei por estes dias a leitura de uma obra que de entre outras coisas, fala de comida. Ou melhor, da falta dela. E das consequências de tanta carestia. Digo ironia, pois o livro chegou-me às mãos numa altura em que tudo se divide entre a leveza e a alegria do Carnaval e a fartura da quarta feira de Cinzas. Esta obra não tem nenhuma delas. Nem leveza nem fartura. Pelo contrário é por demais perturbadora. Mal iniciei as primeiras paginas senti-me invadida por um incómodo como há muito não sentia. Não há como não nos sentirmos tocados pela narrativa. Famintos, de Luís Romano, é o retrato duro, pesado e cruel, do sofrimento de um povo consumido pela fome, uma fome que mata não só o corpo e a alma, mas a dignidade da pessoa humana. De gente votada à miséria à a doença, seres humanos abandonados à sua sorte por quem deles deveria cuidar. Gente que para além da fome, convive com a maldade e com o que de pior o ser humano é capaz de infligir ao seu semelhante.

Nós crescemos a ouvir falar da fome que arrasou Cabo Verde, dizimando uma boa parte da sua população nos idos anos da década de quarenta. Quando o tema da fome vem à baila, pensamos logo no desastre da assistência. Porém, foi mais do que podemos imaginar. Famintos está aí para mostrar-nos que foi muito mais do que aquele fatídico episódio. Muito mais do que alguma vez poderemos imaginar que um dia, aqui, no chão destas ilhas, homens tiveram que se desfazer, bocado a bocado, do seu lar, para darem de comer aos filhos; mulheres perderam filhos para a morte, filhos que nem sequer conseguiram enterrar e que foram devorados por cães; raparigas perderam a virgindade e a dignidade a troco de uns trocos para matar a fome; homens foram devorados por uma disenteria que lhes comia as entranhas.

Famintos é também uma história de sobrevivência e luta. Uma lição de coragem e que nos remete a reflexão sobre os novos desafios que temos e sobre que temas atuais terá a nossa consciência a coragem e o dever moral de denunciar.

O livro inquieta, o leitor sente isso primeiras páginas do livro. Estou a lê-lo, mas tenho a necessidade de fazer pausas para desanuviar um pouco. Mas é preciso continuar a sua leitura. E é preciso também promover a sua leitura. Conhecer esta obra de referencia da literatura cabo-verdiana deve ser um desígnio de todos. Promove-la junto aos mais jovens, um dever. Parafraseando Ana Cordeiro, Famintos é uma obra que não pode de forma alguma, desaparecer da nossa memória.

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