Se dúvidas não restam que Cabo Verde é um Estado de Direito, onde as instituições vão funcionando, existe, entretanto, um grande desafio ao futuro da democracia: a participação dos jovens. Vivemos um momento melindroso que demanda que se reflita seriamente sobre as formas de engajar a geração dos chamados milenials na vida do país, não apenas na política, despertando o interesse desses e levando-os a se assumirem como parte dessa Nação que será, futuramente, governada por eles. É imperioso que a par de engaja-los, se faça a preparação dos mais novos para serem cidadãos participativos.

Nunca tivemos uma geração com mais acesso a informação do que os milenials. Nascidos na geração da internet, da tecnologia avançada, das redes sociais, os milenials têm toda a informação na palma da mão, porém, pouco ou nada se interessam, preferindo utilizar a internet para se conectarem com amigos, colegas e grupos, ouvirem música ou trocarem mensagens que pouco ou nada estimulam a reflexão e o raciocínio.

Luís Pedro, Mara e David têm entre 18 e 20 anos. Nenhum deles se recenseou, conforme me confessaram. Olham para mim e sorriem, um pouco envergonhados. David, o mais novo dos três, pergunta-me sobre o processo. Como e onde fazê-lo? Explicações dadas, os três abanam a cabeça e dizem que não estão interessados, não pretendem votar. Porque não querem saber de se meterem na politica. Porque não acreditam nos partidos. Porque nada vai mudar. Insisto que se não se recensearem não contam. Não me parece que os tenha convencido e isso, a par de outros comportamentos que vou notando, faz-me ter cada vez mais a convicção de que é preciso, urgentemente, mudar o estado das coisas relativamente a esse amplo desinteresse dos milenials em relação à vida do país, quando se assiste, a nível mundial, ao emergir de movimento juvenis em torno de causas globais, uma delas, a ambiental.

Essa, sim, é a reflexão que precisa ser feita e que deve interessar não apenas aos partidos políticos e às juventudes partidárias, mas a toda sociedade na qual se incluem a famílias, a escola, associações juvenis e todos os espaços de formação e educação dos jovens. É preciso agir para se criar, também fora das organizações políticas, espaços e momentos onde os milenials possam participar, opinar e debater sobre temas fundamentais, e que sejam também do seu interesse e, consequentemente, ganhem consciência cidadã e vontade de agir para mudar; é preciso estimular estes jovens a participar, discutir, trocar ideias, contestar, analisar, protestar, elogiar ou criticar iniciativas, e por fim, assumirem compromissos e serem parte da transformação.

Família e escola são, sem dúvida, os primeiros espaços onde esse exercício deve começar. Se os pais podem criar momentos para conversas sobre temas que interessam ou cuidarem para que os educandos cumpram seus deveres enquanto cidadãos, as escolas também podem proporcionar momentos de discussão sobre temas diversos, dando aos jovens a oportunidade de exercitarem a liberdade de expressão, opinando e sugerindo medidas a serem implementadas nas suas escolas. Mas não basta só os ouvir, é preciso agir, transformando as ideias dos jovens em ações concretas. Só assim, eles se sentirão válidos, darão credibilidade a estas ações e se sentirão propensos a continuarem a participar na idade adulta. Só assim estar-se-á a preparar futuros cidadãos, capazes de observar, refletir, reivindicar e escolher de forma livre e consciente.

Nesse exercício, há um aspeto fundamental que deve acompanhar essa educação para a cidadania. Num país com o nosso, onde não há recursos e somos, em quase tudo, dependentes de ajuda externa, os jovens terão que entender e aceitar que o tempo das decisões politicas e o seu próprio tempo não coincidem. Entretanto, tudo isso não deverá constituir desculpa para que não se cumpra os compromissos assumidos pelos governantes. O descrédito será sempre um preço a pagar. Não explicando isso aos mais jovens arriscamos todos, por um lado, a assistir a um alienamento total dos mesmos face à vida do país, e, por outro, abre-se caminho ao surgimento de populistas e radicais cujas propostas simplistas e demagogas para problemas complexos acabarão, mais cedo ou mais tarde, por seduzir os milenials.

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