Até ao ano passado, e durante dez anos, fiz a apresentação dos finalistas do Liceu Domingos Ramos. Notei que no 12º ano a proporção de meninas e rapazes é mais ou menos de 7 para 3. Cheguei a apresentar uma turma, das ciências físicas e biológicas, com 32 alunas, isso mesmo, sem nenhum rapaz.

Esse cenário alarga-se, como não podia deixar de ser, ao ensino superior. Se alguém tem alguma dúvida, basta visitar as salas de aula da universidade pública ou “acessar”, nos sites disponíveis, a lista de vagas disponibilizadas para o ensino superior no exterior. Há cursos, como medicina, por exemplo, em que as mulheres têm cerca de 80 por cento das vagas.

Voltando à minha experiência no LDR, diante da realidade que se repetia todos os anos, os rapazes são maioria ainda, apenas, nas engenharias, comecei a chamar a atenção, particularmente das mães, que em nossa cultura é quem educa os filhos, para a necessidade de dar aos seus rapazes a mesma educação que dão às filhas. Isso diante do sucesso das meninas, que, além de serem maioria nas séries mais avançadas do ensino, são as que têm maiores notas académicas.

E falo da educação igual, porque num mundo em que as políticas de género determinaram muitas transformações, a educação machista, que ainda impera em muitas famílias, está a deixar o rapaz fragilizado diante das conquistas das meninas. Assim, na minha análise muito simplista, a educação laxista para o rapaz, simplesmente porque ainda funciona a lógica de que “o rapaz já nasce pronto”, é uma das razões que o coloca numa situação de desigualdade no cenário que temos hoje.

Além disso, em Cabo Verde, a questão do género tem sido tratada como “assunto de mulher”. A tal ponto que muitas mulheres que trabalham com o assunto usam a palavra “género” como sinónimo de “questão feminina”, de “valorização” e “empoderamento” do sexo feminino. Diante disso, a questão da “equidade” entre os sexos foi, simplesmente, relegada para o segundo plano ou sequer existe. A tal ponto que a realidade está a gritar, é preciso colocar os rapazes sob o guarda chuva da equidade.

Essa não é uma realidade exclusiva de Cabo Verde. Segundo um artigo de António Guerreiro, no jornal Público, de Portugal, “Salvem os Homens” (15-06-2018), “nos países ocidentais, a situação é esta: os rapazes atingem um nível de formação menos elevado, preferem fazer cursos mais breves e abandonam com mais frequência o percursos escolar”.

Diante desses dados, já há países a aventar a hipótese de criar cotas para os rapazes nas universidade. Parece incrível mas é verdade. Nos Estados Unidos, por exemplo, nalgumas universidades e cursos foram reduzidas as exigências, em termos de notas, para a entrada de rapazes.

Em Cabo Verde, ao contrário, ainda não se questiona sequer um fenómeno que a médio prazo poderá ter consequências muito graves. Não podendo impor-se pela via da capacitação académica ou profissional, que restará aos homens num mundo dominado pelas mulheres? É esta a sociedade que queremos para as próximas gerações?

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