Lucas e Daniela têm 12 anos e estudam o primeiro ano num dos liceus da capital. Larissa tem 15, frequenta o décimo ano. Ambos pertencem a uma geração que apenas conhece e ouve falar de Amílcar Cabral porque, uma vez ao ano, em janeiro, são levados a escrever e a falar dessa figura, o obreiro-mor da nossa independência. Desafio-os e pergunto-lhes o que sabem sobre Cabral. Timidamente, respondem que é um dos nossos heróis nacionais, que lutou com os seus companheiros para que Cabo Verde e Guine Bissau se tornassem nações livres e independentes e que foi assassinado a 20 de janeiro, na Guiné Conacri. De resto, pouco ou quase nada mais sabem. Continuo com as minhas interrogações. Se alguma vez visitaram o memorial de Cabral.  A cara de Lucas é o espelho de quem nunca lá foi nem sequer se interessou. Larissa ouviu falar, assim vagamente, mas também nunca foi. Sabe que ali existe uma estátua de Cabral e que fica em frente à Biblioteca Nacional. Daniela conhece, já la foi com colegas, fazer um trabalho de grupo e tirar fotos à estatua.

Diante desse cenário, ponho-me a pensar e pergunto-me se não corremos o risco de fazer desaparecer a figura de Cabral, e dos outros heróis, da memoria deste povo, particularmente da nova geração, tão pobre de referências positivas nacionais e seduzidas por novos “heróis” e novos valores. Isso vem à propósito da notícia que dá conta da intenção da Câmara da Praia em retirar a estátua do local onde se encontra, transferindo-a para outro local. Ceto é que estudar e conhecer Cabral não passa apenas por ter uma estátua dele aqui ou acola. Estudar o obreiro da nossa independência passa por conhecer o seu pensamento, os valores que defendia e as causas que ele assumiu como sendo importantes para o desenvolvimento de Cabo Verde e que continuam sendo válidas.

Não se pode renegar nem “expurgar” o passado nem a História. Um povo sem História e sem referências assemelha-se à um navio à deriva, sem poiso, sem lugar para aportar ou a um órfão sem família, solitário. Não sabe de onde veio, para onde quer ir. Não tem bases, nem princípios que norteiam a sua atitude. Temos que ensinar os mais novos sobre como chegámos ate aqui, sob o risco de perdermos o foco e a essência. E não parece que seja o caminho, subestimar e desmerecer a memória daqueles que deixaram o conforto de suas vidas para pugnarem para que Cabo Verde de libertasse da dominação colonial e seja hoje um país de referência, de homens e mulheres que quiseram preservar essa herança, pensando com suas próprias cabeças, caminhando com seus próprios pés. Honrar, respeitar, relembrar e ensinar Cabral é um dever moral nosso.

A estátua do herói nacional, colocada em frente a Biblioteca Nacional, per si, de valor nada tem. O que lhe confere importância é a preservação da sua memória, dos valores e princípios pelos quais lutou e morreu. Por outro lado, não me parece que retira-la do espaço onde se encontra para ser colocada numa rotunda sem acesso pedestre e que não possibilita atos oficiais, como o da deposição da coroa de flores, seja forma de se dignificar o herói nacional. Ainda que enobrecer Cabral seja muito mais do que andar com a sua imagem em pedra ou bronze para frente e para atrás, certo é que há que haver um espaço digno de preservação da sua memoria, à altura do que ele fez por essa terra.

Em tempos de egocentrismo e alienação por parte dos jovens, mais do que nunca precisamos resgatar Cabral para que Lucas e Daniela, Larissa e outros jovens não cresçam sem modelos e ignorarem que há ainda valores e causas pelos quais vale a pena lutar. Parafraseando Iva Cabral, a filha da Amílcar, essa geração, a nação e a juventude precisam de lugares de memória. E o memorial de Cabral é, definitivamente, um dos maiores.

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