Pois é, este é o tema desta minha crónica, uma questão na qual ando a pensar, nos últimos tempos, depois me dar conta que eu sou “cisgénero”. Isso mesmo, tive que ir ao dicionário para saber o que era a “coisa” quando recebi o currículo de uma artista com proposta de trabalho. No currículo constava o sexo dela, cisgénero, como se isso fosse importante para se contratar alguém para um trabalho cultural.

A tal artista deve achar esse item importante, ou então no gueto em que ela vive isso é uma informação de utilidade pública. É que, tenho notado, a pessoas estão a escudar-se, cada vez mais, em grupos muito reduzidos, com interesses particulares e sem interação com outros grupos, para se promoverem, promoverem as suas causas e interesses. Levantamos as nossas bandeiras em micro-espaços na ilusão que assim as nossas lutas ficam mais visíveis.

Nessa lógica existe, hoje, um multiplicar de guetos sociais em função dos mais variados interesses e causas. Há o gueto do género, que em Cabo Verde virou sinónimo de feminismo, gueto no qual homem não entra; há o gueto do LGBTI, com vários subguetos dentro. E há o subgueto dos gays femininos, que não se relacionam com os gays masculinos, estes não transitam no subgueto dos transexuais e vice-versa.

Há ainda o gueto dos negros, esse também com um subgueto, o da mulher negra vítima de VGB, como se a violência contra a mulher, no mundo em que vivemos, tivesse cor e, por isso, precisasse de um subgueto.

Há ainda o gueto dos negros, esse também com um subgueto, o da mulher negra vítima de VGB, como se a violência contra a mulher, no mundo em que vivemos, tivesse cor e, por isso, precisasse de um subgueto.

E, claro, não podia deixar de destacar o gueto religioso, imenso nos seus subguetos, com cada uma a ter a fórmula secreta para vencer Satanás.

Podia dar uma lista dos guetos e subguetos atuais, mas, na verdade, o que muda entre eles é o nome, porque se cada um olhasse para o gueto do outro veria que o objetivo do levantar da bandeira de cada um é o mesmo: respeito pelos direitos elementares, de humanos e não só.

Mas como não vemos o outro, no quadrado do gueto em que nos enfiamos, olhamos apenas para o nosso próprio umbigo, não aprendemos com o outro, não poupamos a nossa caminhada com base no percurso que o outro já fez.

E assim vamos ficando limitados, e limitados tornamo-nos intolerantes, erguendo muros imaginários para nos proteger do outro, de outros guetos, à partida, todos inimigos. E, no extremo, vamos, de certa forma, perdendo a nossa humanidade, visto que, para mim, o que nos faz humanos são as relações que mantemos com vários outros.

Assim nos vamos colocando de jeito para aqueles cujas políticas visam, principalmente, dividir para governar, para manipular, para criar grupos específicos de consumo com base nas interações que vamos fazendo, uma parte importante dela nos chamados medias sociais.

Enfurnados cada um no seu gueto e subgueto, de vez em quando somos brindados com uns workshops, ações de formação para nos dar a ilusão de que vamos nos movendo. Mas, na verdade, pouca coisa, dessas que a gente deve levar realmente a sério, muda.

Já agora, e de acordo com a definição do dicionário, descobri que sou Cisgénero, pessoa que se manifesta socialmente de acordo com os caracteres sexuais com que nasceu. E eu, que vivi até hoje sem precisar saber disso, o que faço agora com esta informação?

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