Conheci Juliano numa viagem. Estava eu a tomar um café num estabelecimento, quando entrou aquele jovem acompanhado de uma criança que não devia ter mais do que nove ou dez anos. Despertou-me a atenção o facto de, à dada altura, o menino se ter levantado e se aproximado do rapaz, lhe ter entregue uma folha de papel e, em seguida, lhe ter dado um forte abraço e um beijo, para finalizar dizendo em criolo “bó ka é so nha papá, mas també nha mamá e nha midjor amigo”. Aquilo comoveu-me. Disse ao jovem pai que nunca antes tinha visto algo semelhante.  E perguntei-lhe logo se o menino não tinha mãe. E assim, fiquei a conhecer uma verdadeira história de amor. De comprometimento.

Os papéis invertem-se e a história de Juliano contraria uma triste realidade existente nas ilhas, vivenciada por centenas de mulheres que criam seus filhos sozinhas, sem apoio nenhum, nem financeiro nem emocional por parte dos pais das crianças. Aqui, Juliano é pai e é mãe. Uma condição que assumiu na plenitude desde o dia em que foi deixado com o filho nos braços. Resume-me tudo o que passou durante anos. Desde as noites sem dormir, os choros, as doenças, os momentos de desânimo e desespero, o tudo que teve que abdicar pelo filho, até os pedidos de pessoas para que entregasse o bebé à família da mãe da criança, que optou pelo sonho do El dourado da imigração nas terras do tio Sam. Mas ele decidiu, contra tudo e todos, ser mãe e pai daquela criança que viera ao mundo também por causa dele. E, com vinte e três anos de idade, a começar a vida profissional, aprendeu a ser pai do Angel. Entre risos, confidenciou-me que não nada foi fácil. Não estava preparado para tanta coisa. A paternidade, assim como a maternidade, não são funções que vêm com termos de referência nem manual de funções. Juliano foi aprendendo a ser pai e a ser homem responsável. E à medida que o tempo passava e o filho crescia, Juliano teve a plena consciência do que é ser criança e viver apenas com um progenitor. Bastas vezes atrapalhou-se quando o filho queria saber onde estava a mãe e porque esta não queria vir vê-lo. Bastas vezes teve noção das consequências emocionais derivadas da ausência de um progenitor. Mas soube bem contornar a situação e hoje lida muito bem com isso.

Com tudo que foi aprendendo e vendo, Juliano diz-me que o que mais gostaria de ver dos pais cabo-verdianos é que todos assumissem a sua responsabilidade para com seus filhos, que inclui prover recursos financeiros para as despesas, que não são poucas, mas também, e muito essencial, dar afetos, ser presente na vida dos filhos. Independentemente de viver ou não com a criança.

Porém, Juliano questiona a forma como   a própria sociedade encara a função paternidade. Há pessoas e também instituições que acabam, com suas atitudes e práticas, por desmerecer a paternidade e detrimento da maternidade. Conta-me, entre gargalhadas, do episódio relacionado com o em que o filho teve que ser internado. De como teve que brigar com o pessoal da pediatra, que quis impedi-lo de dormir lá com o filho, na altura com três anos. Porque era homem e não podia dormir no mesmo lugar que as mães. Juliano ficou furioso e fez ameaças. Se não dormisse com o filho ali, ninguém mais dormiria. Era pai, tinha iguais direitos que as mães de ficar com o filho. As outras mães apoiaram-no. E ele dormiu, por duas noites, na pediatria.

Não tem sido fácil, diz ele. Mas tem sido uma historia de amor sem limites. A brincar diz que com o filho tem sido uma relação que se assemelha à de um casal. Tem briga, tem diálogo, respeito, paciência, aceitação e muito afeto. Juliano é grato pela bênção de ter um Angel na sua vida e nem mesmo agora que constituiu família e se prepara para ser pai, pela segunda vez, o seu amor pelo filho diminuiu. Diz-me emocionado, que Angel é a sua maior lição de vida. Uma missão que inclui amor, responsabilidade e princípios.

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