Incomodada com aquela barulheira num domingo de manhã, no qual a gente pode desfrutar de uma cidade mais calma, perguntei para mim mesma qual a utilidade de uma marcha de “sensibilização” para um problema de saúde, num domingo e àquela hora?

Além de acordar quem estava dormindo, promover  mau humor em alguns desses, vamos ver. Ganhou o dono da aparelhagem de som, a empresa que fez as camisolas e os funcionários públicos pagos para o efeito, além de alguns funcionários de organismos internacionais que precisam fotografar isso para colocar nos seus relatórios enviados para a sede e, assim, justificar o seu salário.

Longe de mim querer desvalorizar o trabalho de gente honesta, que acredita nesse tipo de iniciativa. Mas aí outra pergunta: e se os participantes, e também os sensibilizados, dessas marchas, sobretudo as de promoção de aspectos específicos da saúde, decidirem, por causa da sensibilização, se dirigirem às estruturas de Saúde para avaliar a sua situação? Essas estruturas têm condições para, por exemplo, fazer teste de HIV, mamografia, exame de toque retal, teste de papanicolau a toda essa gente? Nós todos, pelas muitas denúncias nos meios de comunicação social, sabemos a resposta.

Além disso, estudos feitos em França, nos finais da década de 90 do século XX ou início do século XXI mostram que, no caso da SIDA (só a título de exemplo), a comunicação de massa (publicidade, marchas, marchinhas) já não surtia efeito. Era necessário, por isso, focar a estratégia em grupos específicos e adaptar conteúdo e linguagem a cada grupo.

Esse documento destacava, por exemplo, a importância de procurar as igrejas, as escolas, as associações sindicais e para cada um levar o discurso adaptado e a abertura para o diálogo, para responder às perguntas específicas de cada um. Porque, na lógica de que cada ser humano é um mundo, cada um tem a sua respectiva interrogação.

Diante disso não entendo porque nós aqui em Cabo Verde, em pleno século XXI, depois de termos atingido o nível de desenvolvimento médio, ainda acreditamos que marchas, em pleno domingo de manhã, sensibilizem alguém que realmente precise de ser sensilizado. Como disse, o maior  objetivo que realmente alcançam é de fornecer material para os relatórios de organismos internacionais que vivem, em muitos países, de indústrias do tipo, gerindo, em seu benefício, o subdesenvolvimento.

É por essas e por outras que ninguém me vê em marchas e marchinhas. Não aceito carnavalizar assuntos sérios, como saúde, educação, direitos das crianças. Além disso, nesta altura da vida não quero ser flor para enfeitar vaso de ninguém. Mas se querem apoio a iniciativas realmente efetivas para combater os problemas que nos afetam, sabem que podem contar comigo.

Em tempo.O auê do momento, e que, com certeza, vai consumir milhões e milhões, em salários de consultores, na indústria do coffe brake, é o diálogo com 50 milhões. Isto numa realidade quotidiana em que mal conversamos com a pessoa que está apenas à distância de um toque de nós. Paxenxa!

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