Porque a maioria das pessoas (na minha bolha do Facebook) parece ter a resposta para “Como lutar por Cabo Verde” e muitos aconselham, outros exigem e há até quem dê descompostura para se “Ficar em casa e lavá mon” ou “o Estado deve fazer testes à Covid-19 e quarentena voluntária ou obrigatória”. Estas serão maneiras de lutar contra o novo coronavírus.

Contudo, me parece que a atitude de (grande parte) das pessoas não se deve ao facto de não saberem o como, mesmo com o reforço do trabalho na comunicação de risco e de crise, principalmente com os nossos mais velhos e com as nossas crianças. Mas esta comunicação e sensibilização carece de uma colaboração da própria sociedade.

Isto porque uma das particularidades da comunicação de risco é a interação entre os factores da comunicação e os factores da percepção de risco. E a atitude de muitas pessoas poderá ser explicada – em parte – pela percepção que estas têm do risco que correm neste momento, algo que não é rapidamente alcançado como se pode ser levado a acreditar. É como se algumas pessoas só reagissem sobre as consequências, negligenciando as probabilidades. Como explica o Professor Leandro Leonardo Batista, Mestre em Propaganda Social, no podcast “Naruhodo 226 - Como lidar com epidemias”:

“Pode-se ter uma percepção inicial de risco, por exemplo, quando se combina experts e não experts. Pode-se ver que um expert (um pneumologista, por exemplo) irá focar na probabilidade de o risco acontecer e no valor que este risco tem, medindo algumas fórmulas estatísticas. Ao não expert (a pessoa comum) não lhe interessa muito o valor da probabilidade porque ela tem dificuldades em entender isso. O que lhe interessa? São as consequências. O foco maior para a pessoa comum é a consequência. Então, se tivermos riscos com alta probabilidade de ocorrência, mas com consequências menores, ou pequenas, eles terão menor importância para as pessoas comuns do que riscos com chance pequena de ocorrer, mas com consequências drásticas.”

Muitas pessoas consideram que a probabilidade de elas ficarem infectadas com a Covid-19 é menor, mesmo sabendo que a consequência pode ser desastrosa. E aqui entra aquilo que é chamado de 'viés do optimismo, ou seja, o viés cognitivo de determinar a probabilidade de certos eventos no futuro dando sempre maior destaque às previsões optimistas. E nesta falha lógica nós crioulos somos muito bons. Aliás, é provável que a maior expressão de optimismo nosso seja o “Manera, tude dret?”. Na sua versão em inglês “Optimism Bias” poderá também ter uma parte da resposta que torna mais difícil comunicar o risco, tornando importante o estudo dos factores que podem ajudar a alterar a percepção de risco, seja reavaliando a mensagem ou o papel da fonte ou formato… Alterando a percepção do risco poderemos provocar uma maior e melhor cooperação social.

Mas, para além do “como”, talvez seja necessário também levar em conta a nossa atitude perante o “porquê” lutar por Cabo Verde. Muitos dos que possam ler esta opinião rapidamente dirão que o porquê é fácil de ser apontado.

Contudo, estará este nosso julgamento condicionado pelos factores casa/família/emprego/vida social e cultural próprios? Porque muitos de nós toma esses dados como adquiridos e por isso considerará que se deve passar logo para a questão do “como”.

E é nestes factores que reside muito do porquê fazer esta luta, na qual as decisões individuais têm reflexos sociais. Este "porquê" é que determina o voluntariado para executar tarefas necessárias à própria sobrevivência comunitária e o voluntarismo para que a vontade fique sujeita à situação real. Quando há o mesmo interesse, as pessoas têm tendência em se unir para cumprir este interesse. Mas, desengane-se quem pensa que temos todos os mesmos interesses nesta luta contra a Covid-19. Poderemos vir a ter, dependendo do desenrolar da situação no nosso país.

Atrevo-me a afirmar que o valor mais partilhado entre nós seja a liberdade criativa. Aqui não falo do ponto de vista de uma criatividade para produção de peças de exposição, mas sim da liberdade criativa do ser, na forma de estar. Esta liberdade criativa em muitos casos sobrepõe-se ao valor saúde. Sim, a saúde! Neste caso a nossa luta é contra uma doença mas precisamos levar em conta que valor é atribuído à saúde. Muitos de nós dará mais importância à doença do que à saúde, o que significa que os hábitos de higiene saudáveis estarão em segundo plano. Isto fará com que alguns somente passarão à ação quando a doença se instalar bem perto de nós, no nosso vizinho, na nossa casa. Sim, a doença já está instalada em Cabo Verde mas para muitos apenas está na rádio, na TV ou no Facebook. Não está bem “no seu” Cabo Verde.

Contudo, esta liberdade criativa que sempre nos caracterizou e nos distinguiu poderá ser também a nossa maior fraqueza. Prefere-se ser livre na zona, bairro, cutelo ou vale, mesmo que não saudável. Mas é esta liberdade criativa que também reinventa formas diárias de subsistência, mantendo o orgulho-próprio de uma parte do povo que já está numa luta de resistência diária incerta e agora adicionou-se-lhe a luta da existência ameaçada por um inimigo invisível. Pelos relatos e informações acompanhada pode-se notar que na luta contra a Covid-19 há muitos que podem ficar em casa - e decidem ficar ou não - e muitos que não podem ficar em casa porque precisam do ganha-pão diário (e mesmo assim decidem ficar).

Precisamos sim continuar a boa luta, reforçando os “como” e identificando os factores condicionantes dos “porquês” para um melhor efeito da comunicação de risco e de crise. Será sempre preciso mais e melhor informação à população para que não fiquemos presos numa ilusória liberdade de más escolhas, impossibilitando simples actos heróicos de correta lavagem regular das mãos (mesmo em ambiente de escassez de água), distanciamento físico (mas não isolamento), uso correto de máscaras (quando as houver) e higiene respiratória.

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