Como Autor e Produtor de conteúdos para a infância participei do IX Encontro de Escritores de Língua Portuguesa da UCCLA, evento realizado na Cidade da Praia nos dias 20 a 22 de junho, e dedicado à Literatura para a Infância. Agora gostaria de partilhar parte da minha intervenção, mas não devem levar em conta se o artigo parecer ser de forma solta pois resulta de algumas anotações à caneta e do momento.

Comecei por mostrar os projetos que estamos a desenvolver: mostrei a capa do meu próximo livro (o terceiro) da série “Tufas, Princesa Crioula”, mostrei um trailer do documentário/entrevista em vídeo “Panorama da Literatura Infantil e Juvenil em Cabo Verde” e apresentei o primeiro teaser da animação 3D “A fita cor-de-rosa” que estamos a produzir.

Lá tentei mostrar o porquê de não termos o que queremos por causa dos constrangimentos técnicos e falta de financiamento. Depois passei para o porquê de não querermos o que temos.

Isto porque em 44 anos de independência, o Estado (através das suas instituições como Ministérios, Câmaras Municipais e Institutos de Promoção Cultural) esteve por trás de 20 edições de publicações para a infância. E, com 22 municípios espalhados, a única Câmara Municipal do país a assinar a edição de publicações para a infância a de São Vicente: um livro com edição da Câmara Municipal (“As mãozinhas da criança” 2005) e outro com edição da Biblioteca Municipal de São Vicente (“Minguim, o Pirata” 2003). Enquanto isso, os festivais regados à álcool somem e seguem...

Como é fácil constatar, o Estado não está a cumprir o seu papel de promover a edição de publicações viradas para a infância. Mesmo tendo ratificada em 1991 a ‘Convenção dos Direitos da Criança’ e lá no seu Artigo 17º estipular que o Estado deve “Encorajar a produção e a difusão de livros para crianças”.

A literatura para infância não precisa de apoios

Cabo Verde dispõe de 526 estabelecimentos de educação ou ensino pré-escolar, 420 unidades de Ensino Básico e 50 do Ensino Secundário; Porquê não se consegue alcançar este público com os livros infantis? Talvez porque falta um plano nacional de hábitos de leitura para incentivar o descobrir dos autores nacionais. Falta investir em mais projetos de leitura e, consequentemente, na disponibilização de livros e contacto com os autores, contadores e ilustradores.

Na sua intervenção na abertura do IX Encontro dos Escritores de Língua Portuguesa da UCCLA, o Primeiro-Ministro, Ulisses Correia e Silva, disse que nos últimos três anos foram disponibilizados 33 mil livros para as Bibliotecas Municipais por todo o país. Quero aqui afirmar que eu não vendi e nem ofereci nenhum entre esses 33 mil. Aliás, pelos meus contactos, apenas uma autora para a infância afirmou ter vendido nove livros nestes 33 mil, que na verdade são doações de Portugal. E onde fica a promoção da produção nacional para a infância que estamos cá a tentar fazer?

Reparem, há uma grande oportunidade na produção para a infância se atermos ao facto de que no nosso país, recentemente estimavam-se cerca de 525 mil pessoas residentes. Destes, o número de jovens (pessoas entre os zero a 17 anos de idade) era de 178 mil pessoas. Se os consideramos como o público-alvo das nossas produções então teremos uma boa oportunidade de negócio. Com um público-alvo deste tamanho, porque é que editamos tiragens de 500 exemplares e temos dificuldades em vender livros?

É preciso incentivar-se o professor a aperfeiçoar a sua formação na literatura nacional. O professor deve conhecer antes de procurar alargar o leque de leitura do aluno. Considero que é mais importante ter professores e universitários nestes eventos do que os alunos/crianças. Quando se pensa e se analisa a literatura para a infância não se está a fazer literatura para a infância. É por isso que colocar crianças para preencher a sala tem um efeito contrário ao que se pretende na promoção da literatura infantil.

Um dos maiores problemas para os novos autores ou autores independentes é a distribuição. É preciso encontrar-se novas formas de circulação das obras porque o acesso aos livros para a infância tem que se tornar um direito de crianças em todas as ilhas.

Entendo que os decisores e editores nacionais não queiram ainda sair da zona de conforto de editar ou reeditar em papel os consagrados e clássicos. Contudo, em Cabo Verde temos um total de 300 mil assinaturas ao serviço de acesso à internet, sendo que 80% deles utilizaram através dos seus smartphones e outros dispositivos móveis. Isto significa que temos um mercado para os livros digitais e online ainda por explorar.

Entretanto, se vamos falar da leitura na era digital, é bom tem em mente estes números que também representam nosso país: 13% dos agregados familiares de Cabo Verde têm a vela como principal forma de iluminação e 2% ainda usa o petróleo para o mesmo fim. Mesmo assim, o país conhece um considerável acesso à internet, com uma taxa de penetração de 70% e o serviço móvel atinge mais 124 porcento.

Continuo a defender que a literatura para a infância não precisa de apoios, mas sim de uma política pública sectorial que tenha um projeto a longo prazo e com orçamento definido. Este “apoio” é uma figura subjetiva e sujeita a critérios momentâneos que não traz um benefício estruturante. É preciso levar em conta que nós estamos a criar leitores para os autores para adultos, mas também esta é uma área vasta que irá contribuir para a economia real do país

Nós, produtores e mediadores de conteúdos para o público infantil e juvenil, desde sempre temos procurado dar o nosso contributo, que acredito ser valioso no panorama de Cabo Verde. Um contributo muitas vezes menorizado por razões da ignorância ou outras. Mesmo trabalhando de forma isolada por causa das limitações e dos desafios da criatividade, acredito que há uma necessidade de nos associarmos para criar o lobby que irá efetivar uma política pública sectorial com enfoque na promoção da produção e divulgação de conteúdos para a infância e adolescência no país.

Sobre a homenagem a Germano Almeida num evento dedicado à literatura para a infância

Eu cresci a ler os livros do escritor contador de estórias, Germano Almeida. Confesso que apreciei muito mais os livros mais antigos do que os recentes. Como Prémio Camões – e não só – defendo que seja merecedor de todas as homenagens sim. Acompanhando o que disse a Dra. Ana Cordeiro no seu discurso de elogio na abertura do IX Encontro de Escritores de Língua Portuguesa da UCCLA, Germano Almeida (aqui presente na sala) sempre foi e é um iconoclasta que critica tudo e todos, logo, estará à vontade para o que irei dizer.

Aqui aponto o que se chama lugar da fala. Estamos perante um autor com 19 livros publicados e nenhum deles na área do infantil. Tanto é que no discurso de elogio do outro Prémio Camões, o poeta Arménio Vieira, coube falas como “A vida é uma mulher nua deitada na cama à espera do homem” ou a contação de estórias de amor venal e relações amorosas entre um velho e uma adolescente, que convenhamos, não são propriamente temas quando se convida crianças para eventos e quando o tema deste Encontro é a Literatura para a Infância.

Germano Almeida merece todas as homenagens sim. E espero que esta homenagem feita num evento dedicado à literatura infantil seja catalisador para que publique nesta área, incentive novos autores, quem sabe fazer revisões dos seus escritos, ou apresentar as suas obras, disponibilizar a sua imagem e reputação no meio literário e editorial para embasar novos projetos, partilhar ou divulgar os eventos e livros, ou simplesmente assistir aos lançamentos e comprar os livros.

Sobre o evento IX Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

E no final aproveitei para recomendar à UCCLA e à Câmara Municipal da Praia para repensarem o modelo do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa porque trata-se de um investimento monetário muito grande para o impacto resultante. Sugeri também que repensem a programação e a forma com agendam as intervenções dos autores estrangeiros e os cabo-verdianos.

Senti a falta de produtores e mediadores de conteúdos infanto-juvenis, desde contadores de estórias orais, escritores, ilustradores, editores, músicos, agentes teatrais e das artes cénicas, animação digital e outras áreas criativas, bem como de professores do Ensino Básico e Secundário e dos Jardins de Infância, educadores, realizadores, agentes da comunicação social, bibliotecários, tradutores, pesquisadores e criativos de uma forma geral, mas com enfoque nesta área.

Muito agradecido pela vossa atenção.

NOTA 1: Enquanto falava sobre os meus livros, referi que há um personagem que é um cãozinho (personagem habitual das estórias infantis e um dos preferidos das crianças em todo o Mundo). Falei de olhos no Presidente da Câmara Municipal da Praia, Óscar Santos, que o meu cãozinho do livro vive feliz nestas estórias, ao contrário dos cães que nesta cidade são mortos com choques elétricos, da forma que todos sabemos.

NOTA 2: No final não fui convidado para o jantar de despedida (ainda bem que já tinha providenciado o meu bife d’kaneca) e nem convidado para o programa cultural de domingo.

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