Lembro que na Brava, se não me engano na localidade de Cachaço, depois de uma visita curta, na hora da partida uma senhora disse-me: “nha bai ku Deus”. Eu respondi, automaticamente, como se aquela senhora falasse a minha própria língua: “amem”.  Ouvindo aquilo, os meus colegas perguntaram-me onde tinha aprendido crioulo. Olha, tinha apenas respondido pela lógica, visto que “nha” e “nho” ainda se diz pelo interior do Brasil e quanto a Deus....

Ainda na Brava o ministro teve um encontro com as chamadas forças vivas do concelho. E falou de vários assuntos para além da educação. Eu entendi tanto que, naquele dia, conclui que a nova língua que se me apresentava não tinha nenhum mistério para mim. Só muito mais tarde, diante dos meus erros, da minha fonética errada para a língua que ia aprendendo, é que descobri que, afinal, Corsino Tolentino tinha falado um “portunhoulo” ou um “crioulês”.

Mas antes desse aprendizado, e a seguir a essa experiência da Brava, pensei, no meu atrevimento, que falar crioulo era fichinha, bastava seguir uma lógica que criei para ensinar a mim mesma. Saber os pronomes pessoais, a negativa ka, substituir o lh das palavras em português por dj e onde tem t e d, bastava eu usar a lógica do sotaque brasileiro.

Confesso que, no inicio, e quando comecei a trabalhar como jornalista da televisão, escrevia as perguntas em português, pedia para os meus colegas repetirem em crioulo, decorava aquilo e lá ia pela rua. Fui me soltando, com as minhas cábulas, com meu método muito próprio de aprendizagem, a tal ponto que comecei a pensar que já sabia e até comecei a inventar palavras.  E aqui ficou célebre uma reportagem, sobre a questão do lixo na encosta de Vila Nova, quando, numa entrevista, perguntei a uma senhora: - “pamodi nha ta djuga lixo li sim sim”. Foi um piadão. Um amigo falava do meu atrevimento: “chegaste anteontem e já estas a enriquecer o crioulo. Não é djuga, é bota!”, corrigiu-me.

Mas pronto, lá fui eu. E quando me perguntam se falo crioulo, ou língua caboverdeana, digo cheia de mim: “falo sim”, é verdade que com esse meu sotaque brasileiro que não perco nem falando japonês, é verdade também com as chamadas de atenção das minhas filhas, que não querem passar o mico de ver a mãe falando crioulo perto dos colegas. “Oh mãe, fala português, que eles entendem!”

Entretanto, nos últimos três anos, por causa da Elida Almeida, tenho descoberto que a minha limitação de vocabulário é imensa. É que o crioulo da capital está mais para o “portunhoulo” ou o “criolês” que eu tinha descoberto na Brava. E por isso tive que, inúmeras vezes, recorrer às minhas filhas, quando, ao cantar as canções e esbarrava-me, por exemplo, em palavras como “tolobascaria”.

Mas, no último fim de semana, levei mesmo um xeque mate linguístico. Aconteceu na Praça Alexandre Albuquerque, quando eu estava a depositar roupas numa das caixas de recolha da CMP. Chegou perto de mim um menino e perguntou, em crioulo, o que eu estava a fazer. Respondi-lhe, também, em crioulo, e ele reagiu com uma pergunta: “es negau?”

Pronto, aí fui eu a não entender nada. E procurei argumentar, “não foram elas que me negaram, sou eu que me quero livrar delas, porque já estão velhas, já não me servem...” E o menino sem entender, e a insistir, “sim, Dona, es negau!...”

Assim, estou pensando seriamente em procurar a professora Mónica Andrade para aprender a sério esta língua que eu adoro e não passar mais vexame do tipo.

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