O que acabei por responder resumidamente explano aqui, agora numa versão mais alongada. Porque notei esta curiosidade ou estranheza em outras pessoas. E porque ando a ler a biografia da Michelle Obama e ela lembrou-me do quão importante é sermos nós a contar a nossa própria história - mesmo que sejam apenas alguns capítulos - e deixar a nossa voz ser ouvida. E o capitulo que aqui trago é pois a minha “história” com o cinema.

Tudo começou na infância. Desde muito pequena o cinema exerce um grande fascínio em mim. Muitas vezes, o que eu via nos filmes eu usava nas minhas brincadeiras de menina. Quando Star Wars passou pela primeira vez na televisão nacional, tinha eu uns oito ou nove anos, eu fiquei completamente cativada pela aventura intergalática de George Lucas. Minha mãe tinha tido a ideia de criar galinhas e mandara fazer uma gaiola que instalou no grande quintal lá de casa. O negócio não deu muito certo...para ela. Para o meu irmão e mais novo e eu a gaiola transformou-se na Millenium Falcon, a nave de Han Solo, e passávamos horas a brincar que éramos jedis em luta contra o malvado Império. Não me perguntem quem fazia de Chewbacca...

Com 8, 9 anos, eu já gostava de escrever mas foi a partir da adolescência que eu passei a escrever num caderninho os meus comentários aos filmes que ia vendo. É claro que não tinha ainda um juízo critico muito apurado e achava bons praticamente todos os filmes a que deitava os olhos e toda e qualquer interpretação. Mas já naquela época eu começava a prestar atenção em outros aspectos dos filmes que não apenas a história em sí... A música, a caracterização, um plano diferente ... Bem, eu fui crescendo e a certa altura eu preenchia cadernos com aquilo que, vim a perceber depois, eram sinopses de filmes que eu criava na minha cabeça. Ali registava também o casting dos actores que interpretariam cada personagem, e era uma lista surreal onde actores e modelos de Hollywood contracenavam com actores da TV Globo e até cantores e jogadores de futebol.

Anos depois, quando eu fui estudar em Portugal, eu descobri as revistas Premiére e Cahiers du Cinema e percebi que a critica de cinema era uma actividade séria e respeitada. Eu devorava aquelas revistas e épocas houve que fazia incursõess diárias às salas para ver os filmes que os meus criticos predilectos elogiavam. Eu era uma estudante que gastava mais dinheiro com cinema do que com paródia. Com a influência dessas revistas recomecei a escrever comentários aos filmes, agora com maior capacidade analitica e profundidade.

Em 2004 eu criei um blogue e, de vez em quando, publicava lá reviews de filmes. Eu já estava de volta a Cabo Verde havia uns dois anos, e a trabalhar numa ONG, quando tomei coragem de me oferecer para publicar uma coluna sobre cinema no jornal Horizonte. De lá saltei para o A Semana e comecei a ser paga pela minha coluna, Cinema em Dia. Foi uma das fases mais felizes da minha vida: o meu trabalho passou a ser estar em casa a ver filmes, estar atenta a tudo o que dissesse respeito ao cinema, escrever sobre algo que me apaixona e ser paga por isso. Uns meses depois recebi convite da directora do jornal para ir trabalhar lá a tempo inteiro como jornalista. E foi assim que a minha paixão pelo cinema me levou ao jornalismo, a ultima das minhas opções enquanto estudante de Comunicação Social.

Como jornalista creio que posso dizer, sem falsas modéstias, que sou das que mais atenção tem dado à área. Então  achei natural quando em 2017 o Ivan Santos me convidou para júri do Plateau – Festival Internacional de Cinema da Praia. Gostei tanto que repeti a dose em 2018. Foi uma experiência enriquecedora, ao lado de nomes como Pedro Pimenta, grande cineasta moçambicano e membro da Academia de Hollywood, e do prestigiado Joel Zito Araújo, um dos mais importantes cineastas brasileiros. Mais recentemente, foi também gratificante poder colaborar na produção de um projecto grandioso como o documentário Woman, de Anastasia Mikova e Yanus Arthur-Bertrand que estreia este ano e, em ante-estreia por alguns festivais europeus, já ganhou alguns prémios. Neste participam com depoimentos algumas mulheres cabo-verdianas cuja história de vida escrevi para o processo de casting. Ou seja, o jornalismo também me tem levado ao cinema.

Nesses anos todos continuei a devorar filmes. E de vez em quando vejo um que me obriga a escrever uma linhas, embora eu já não as publique. Mas uma experiência recente me fez pensar que talvez seja altura de voltar a partilhar os meus reviews: em Dezembro do ano passado eu fui ao Brasil participar no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Alguns amigos me convenceram, eu concorri com meus textos e fui selecionada para um programa chamado Rio Press Talents, que é uma parceria com o Festival de Cinema de Berlim, um programa de mentoria para escrita de critica de cinema. Foi incrivel!

Regressei do Brasil inspirada e com essa ideia “maluca” de criar um festival de cinema. Pensei na minha velha reclamação de que temos poucas mulheres a fazer filmes. E resolvi que era uma oportunidade de fazer algo mais do que reclamar. Concebi a CENA – Mostra de Filmes Dirigidos por Mulheres para visibilizar mais os filmes já feitos por mulheres caboverdianas e, assim espero, estimular outras mulheres a tornarem-se cineastas. Em Março estaremos em CENA e a intenção é repetir a dose, anualmente, assim haja filmes para mostrar.

Falta falar de Djassi, o meu primeiro filme. Pois é, eu tive mesmo o atrevimento de fazer um filme! Há alguns meses a Associação de Cinema Lançou um concurso para premiar documentários em curta-metragem sobre Amílcar Cabral. Eu vi o anúncio e pensei: porque não? Há uns bons anos eu escrevi uma adaptação da biografia de Amílcar Cabral para crianças ainda por publicar. Pensei em tornar esse texto numa animação e concorrer. Pouco depois descartei a ideia por estar decidida a ser o mais original que conseguisse. E então descartei o texto biográfico e escrevi uma nova sinopse e depois o guião. E foi assim que nasceu a curta Djassi, um filme de 5 minutos onde, resumidamente, pedi às crianças que contassem o que sabem sobre Cabral e como imaginam que  ele era em criança. Só tenho a agrdecer ao meu irmão, Jottha Mosso, e à Samira Vera-Cruz  que ajudaram-me a pôr as ideias em movimento e a ganhar essa distinção.

Então, resumidamente: a minha ligação ao cinema vem de longe. E, dependendo de mim, ainda vai longe.

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