Hoje é o Dia Mundial da Língua Portuguesa, pela primeira vez celebrada por iniciativa da UNESCO, a nível mundial; dia da quinta língua mais falada no mundo, a terceira no hemisfério ocidental e a primeira no hemisfério sul; dia de uma língua falada em cinco continentes, abarcando 3,7% da população mundial; a língua oficial dos nove países membros da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste), língua de trabalho ou oficial de um conjunto de organizações internacionais como a União Europeia, a União Africana, a CEDEAO, a SADC e Mercosul.

É observável que quando se trata de eventos onde a língua utilizada é o português, a participação dos jovens é escassa, quase nula

Enquanto escrevo esse texto penso na relação que nós, os cabo-verdianos, temos com essa língua, que nos foi legada desde o dia em que Diogo Gomes e António da Noli encontraram este arquipélago. Tenho por algumas vezes, o hábito de perguntar às crianças a quem vou contar estórias, em escolas ou outros espaços, se preferem ouvi-las em português ou crioulo cabo-verdiano e quase sempre, não fosse a preferência dos professores, quase, se não sempre, a opção é pela segunda. Igualmente, em eventos participados essencialmente por jovens, diante dessa mesma questão, a resposta é quase sempre unânime e semelhante: preferem a língua cabo-verdiana, em detrimento da portuguesa.

Indo um pouco mais longe, é observável que quando se trata de eventos onde a língua utilizada é o português, a participação dos jovens (e não só, pois que esse comportamento é observável em eventos onde participam pessoas com formação superior e que exercem funções técnicas e até superiores em instituições) é escassa, quase nula. Acredito sinceramente que essa “timidez” não seja por desconhecimento do assunto em debate nem sequer por falta de capacidade para formular questões ou fazer observações. Tenho para mim que essa limitação se deve ao facto de que a maioria não consegue formular um pensamento critico ou reflexivo e expressa-lo em português.

Língua que nos (des)une?

Acode-me ainda um recente burburinho, nascido numa rede social, na sequência da participação de uma figura artística, bastante popular entre os jovens, num programa televisivo, em Portugal. Tendo sido entrevistado, em português, o artista mostrou imensas dificuldades em formular uma simples frase nessa língua, acabando por responder às questões todas em crioulo, algumas vezes misturando as duas línguas. Na altura, uns criticaram o jovem por não saber falar corretamente o português; outros se posicionaram a favor da utilização do crioulo, ressalvando que o jovem, não obstante ter frequentado o sistema de ensino, não tinha nem tem obrigação de dominar o português.

Tudo quase normal até aí. O artista em causa, que se assume como um MC, não consegue se expressar na língua portuguesa. Anormal será ter estudado nessa língua e não sabre nela se expressar. Mas tudo bem. Isso não é impedimento para seguir com a sua carreira. Também normal é que se ache piada à aflição e os erros do rapaz. O personagem/artista (que se confundem) é, per si, engraçado e não é de agora que se torna alvo de risadas. Quem já viu e nunca se riu das "façanhas" do “MC” que levante o dedo.

O que já não foi normal, e que saltou claramente à vista no burburinho, foi o notório desprezo e desdém em relação a Língua Portuguesa, expressos maioritariamente por jovens. Trata-se, esse comportamento, de algo que temos que seriamente começar a refletir e debater descomplexadamente no País. A professora e escritora Ondina Ferreira, num artigo publicado no jornal Expresso das Ilhas, referiu a " malévola intenção de “erradicar” a oralidade em Língua portuguesa do falante cabo-verdiano...". Eu acrescentaria, o eterno complexo de se assumir o português como nossa língua. Basta ver a rejeição de muitos "debatedores" do caso MC Trankafulha, na sua maioria esmagadora, jovens em relação a LP.

Um ensino novo para a LP?

Penso que é chegada a hora de elucidar parte desse povo bilingue que quem quiser se expressar em crioulo, pode fazê-lo. Porém, tentar menosprezar ou apoucar uma em detrimento da outra é que não é aceitável. Temos que assumir, sem complexos nenhuns, que a Língua Portuguesa é também nossa. Se o crioulo é “ke di nós”, o português é também tão nosso, tanto quanto o crioulo, pois vem do cruzamento de duas línguas, uma trazida pelo colono, outra pelo colonizado/escravo.

O que não podemos permitir é tornar o português uma língua que nos desune

Ademais, não se vê nem se sabe de nenhum outro país, onde a convivência entre a língua levada pelo colonizador e a(s) línguas () (dialetos) nativa(s) tenha provocado complexos e problemas como em Cabo Verde.

O cabo-verdiano precisa de se resolver em tudo que diz respeito ao seu passado e a sua Historia; deve deixar complexos e assumir que o português e o crioulo cabo-verdiano são as nossas línguas.

Agora, o que vem sendo feito relativamente ao ensino delas, isso já será um outro debate. Para já, penso que talvez seja imperativo que se olhe para o ensino do português de outra forma. Ensinar a um aluno que chega ao ensino básico sem quase nunca ter falado o português, como se fosse uma língua do dia a dia, talvez não seja a opção mais acertada. Talvez o ensino do português como língua segunda, para uns, não será ideia tão descabida quanto possa, para alguns, parecer.

O que não podemos permitir é tornar o português uma língua que nos desune.

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