Descreveu-me o imaginário futuro: a filha regressaria, exerceria por alguns anos, daria consultas particulares para aumentar a renda e depois, sairia de novo para uma especialidade. Quando voltasse seria a doutora especialista! Dias antes, uma outra colega já me havia revelado que a filha se preparava para seguir para Portugal, onde frequentaria o curso de História da Arte. A cara que fez não foi de muita alegria, pelo contrário, parecia algo desanimada.

Perguntei-lhe o porquê daquela expressão. A resposta deixou-me espantada. Que futuro pode ter a filha com esse curso? Ela que até foi sempre boa aluna, com boas médias, porque escolhe um curso que não saída profissional em Cabo Verde?Ainda por cima, tem que estar constantemente a explicar às pessoas o que é o curso e para que serve. Estava desoladíssima, frustrada mesmo, diria.

Vim para a casa a pensar nas duas mães.  Na primeira que orgulhosamente ostentava o curso da filha e dava-o como garantia de quase tudo, particularmente para o status e o dinheiro; na segunda que não aceitava a escolha da filha, que nada de boa via no futuro da jovem, condenada ao fracasso profissional. Estava mais preocupada com o que as pessoas iriam dizer ou pensar acerca do curso da filha do que propriamente parar para pensar nas motivações da filha. E mais: não refletia nas possibilidades. Não olhava para todos os lados. Para ela, o mundo é uma minúscula aldeia chamada Cabo Verde, onde ter um curso de História da Arte não dá nem dinheiro, nem projeção social.

Assim estamos. Insatisfeitos com as suas vidas e suas escolhas, acomodados a um presente sem muitas saídas, muitos pais transferem suas expetativas e desejos para os filhos e através destes expõem vaidades. Não que não seja normal sentirmo-nos vaidosos e orgulhosos dos feitos dos nossos filhos. O que não é normal é nos servirmos para “vingar” nossos insucessos e fracassos e viver nossas vidas através da vida dos nossos filhos.

Centrados nas suas vaidades pessoais, preocupados com o status, com o que diz ou pensa o outro, pais vão se insurgindo com as escolhas dos filhos, esquecendo-se de que hoje, mais do que nunca, não é o diploma que dita o sucesso dum profissional e que não é taxativo que este seja sinónimo de conforto financeiro.Preocupados em justificar a importância, alcance e grandiosidade do curso superior frequentado pelos filhos (escrevi frequentado e não escolhido, porque em alguns casos, estes não são escolhas, mas imposições), os pais ignoram por completo as chamadas competências para o século XXI.

Sim, hoje, mais do que nunca, o mercado demanda novas aptidões. Ter um diploma já não é garantia de nada e se for passaporte para um emprego que traga renda mensal, não o será para voos profissionais mais ambiciosos nem para o sucesso.

Sabemos que o ser humano não quer apenas um emprego. Quer destacar-se e ser referenciado no mercado como um profissional de excelência. E ser um profissional de excelência implica ser um ser humano de valor e de valores.Já não bastam os conhecimentos técnicos. Aliadas a este, outras habilidades são esperadas:

1. organização, não apenas no sentido de ter tudo arrumado, mas a organização mental, o estruturar do pensamento;
2. senso crítico, que lhes dará a capacidade de discernir e de refletir perante as coisas que veem e ouvem;
3. comunicabilidade. Ninguém vai a lado nenhum sem saber se expressar de forma clara e objetiva;
4. empatia e interação. Saber colocar-se no lugar do outro, ouvir, respeitar, solidarizar-se e interagir com o outro;
5. flexibilidade. Os jovens precisam saber que nem sempre tudo correrá bem e que quando assim acontecer terão que saber reinventar-se, adaptar-se e encontrar novas soluções;
6. inovação. Já não vivemos na época do mais do mesmo. E futuramente essa necessidade de inovar será ainda mais imprescindível. Quem não o fizer, ficará para trás.

Então, mais do que se preocuparem com as escolhas dos cursos dos seus filhos e suas filhas, de se angustiar ou se apavorar por causa delas, devem os pais refletir e responder: estarão a ajudar seus filhos a serem excelentes profissionais para o mercado do futuro ou andam mais preocupados com meros diplomas que muitas vezes só servem para enfeitar paredes e inflar egos?

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